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O homem do turbante cor de rubi

por Cristina Nobre Soares, em 04.01.15

Numa rua bem escondida, vivia um homem de pele dourada e que usava um turbante cor de rubi. Deve ser hindu, diziam os homens mais cultos. Não, dizia o doutor, o mais viajado de todos. É sikh, que os hindus não usam turbante e os sikhs não cortam o cabelo. Esse homem de turbante, que tinha sempre no seu ombro magro um macaco, talhava pequenas peças de madeira. É marceneiro, diziam. Não. É artista, diziam outros. Talvez por ele só talhar madeira exótica. Talvez por as peças serem enigmas que ninguém conseguia encaixar. Ou talvez fosse por só trabalhar de noite, pois passava os dias sentado no degrau de pedra da entrada, de olhos postos entre o céu e as janelas das mansardas, sempre com uma taça de chocolate quente na mão. Mas toda a gente sabe que não há cacau na Índia, ripostava o doutor, tem de ser chá.  E o homem do turbante cor de rubi sorria, aquecendo as mãos de dedos longos,  por saber que a magia não se importa com a coerência das coisas do mundo. Diziam também ser ele o responsável por uma série de acontecimentos inexplicáveis, todos eles no voltar do Inverno, como o aparecimento de ceias e lareiras acesas nas casas mais cinzentas, daquela cinza  que cheira a tristeza.  Diziam que ele  e o macaco deslizavam em silêncio pelos telhados e entravam pelas janelas entreabertas, para lá dentro deixarem terrinas e bules fumegantes. Dizem, que por debaixo de uma campânula ficava um dos seus enigmas de madeira, impossíveis de resolver.  Dizem porém, que uma vez alguém os surpreendeu. Talvez uma criança, que estas ouvem e pressentem sombras invisíveis aos outros e que no susto o macaco deixou cair o enigma para dentro de um bule cheio de cacau quente.  Dizem que nesse momento a madeira exótica  se transformou em chocolate e  que soltando os encaixes perdeu o segredo. Dizem. E que desde essa noite ninguém viu o homem do turbante cor de rubi. Nem o macaco. Mas há quem acredite  que ele regressa em certas noites de Inverno, deslizando pelos telhados e acendendo as lareiras. Dizem que ele volta  à casa de quem conseguir resolver o enigma. E ele ao ouvi-los, sorri. Enquanto desliza por mais uma janela entreaberta de uma mansarda.

 

( O último conto escrito para a Magia da Transformação- Óbidos Vila Natal)



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