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Nobel, comunidade científica e comunidade literária

por Cristina Nobre Soares, em 06.10.17

Numa outra vida fui bolseira de investigação. Trago boas recordações deste tempo, assim como bons princípios de trabalho e de raciocínio que me moldaram para o resto da vida. Mas também me lembro da competição pela publicação de artigos científicos (a chamada corrida ao “paper”) e da busca pela recta de regressão linear perfeita. Da guerrilha entre departamentos e das guerras abertas entre universidades. Das invejazinhas, dores de cotovelo e despeitos. Enfim, pulhices avulsas, sim. No entanto, há uma coisa de que não me lembro: de ouvir pessoas fora da comunidade cientifica opinar sobre a mesma. Não me lembro de no café, no autocarro, toda a gente comentar coisas do género, ah, sim, o “Remote sensing” do Lillesand e do Kiefer, já vai na sexta edição, mas por favor, aquele capítulo sobre sensores hiperespectrais é muito "mainstream", muito "pop".
Apesar de tudo, há um sentido de humildade na ciência. Na linha do, eu não percebo nada disto, logo estou calado para não fazer figura de parvo. Ou um, não percebo tanto como aquele bacano que já cá anda há umas décadas a estudar isto, por isso deixa-me lá ler o que gajo diz sobre o assunto. E depois sim, opino.
Também ninguém se interessa pela vida pessoal dos cientistas. Ninguém quer saber se dado cientista é mal amado (ah, eu vi logo que a constante que ele usou naquela equação é fruto da dor de corno) ou se a mãe lhe batia ( se ele não tivesse tido uma infância tão infeliz, decerto que não tinha escrito tantos papers). Nem ninguém convida cientistas para debates onde, em vez de lhes perguntarem pelos seus trabalhos, lhes perguntam o que gostam de tomar ao pequeno almoço: ah, sem os croissants do Careca e a bica pingada eu nunca teria a ideia de mergulhar no urbano-depressivo da estatística multivariada!
Era bom que o meio literário, para seu próprio bem, para a sua própria credibilidade, fosse mais assim. Digo eu, que sou de ciências.

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2 comentários

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De Anónimo a 06.10.2017 às 10:17

"Croissants do Careca". Sim, sim, sim...

Mas hoje em dia categoriza-se as pessoas. Arrisco a dizer que só um desempregado é que tem uma vida desgraçada e um passado desgraçado. Tudo o resto, se tiver trabalho, está impecável e imaculado.
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De Violinista a 06.10.2017 às 17:47

Porque a Literatura é uma Arte.
Como tal, tem-se gostos. E pessoas a comentar arte, porque gostam e julgam ter entendimento disso. Pode-se ter algum, ou pouco, e acabam a fazer exactamente o mesmo que na outras artes: comenta-se o artista.
Era bom que houvesse mais humildade no comentário ao trabalho de alguém, seja literatura, seja arte. Era bom que se entendesse que gostar é uma coisa, perfeitamente válida e que não exige estudo, e entender de algo para se comentar a sério é outra coisa e estuda-se para isso.

Sim, concordo. Teria mais credibilidade.

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