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Não há mal que o chocolate não cure

por Cristina Nobre Soares, em 19.04.15

Por ter pés chatos e joanetes, Amélia nunca aprendera a dançar. Este era um desgosto que lhe consumia o avesso da alma. Quando havia bailes na vila, ficava a ver os outros a bailar noite fora, com a pena, que às vezes doía até se tornar inveja, a criar-lhe um formigueiro que lhe subia pelas pernas acima. Mas só até aos joelhos. Apercebera-se disso, num desses bailes, o Zeferino, que para além de poeta, também era homem viajado, e a quem a solidão já pesava, principalmente sempre que ia além da segunda aguardente. Pois, numa dessas vezes, chegou-se perto dela e disse-lhe: tenho um remédio, que me ensinou uma velha índia mexicana, que te põe os pés direitos e a saberem dançar. Ela torceu o nariz. Tanto à conversa como ao hálito de aguardente. Mas ele insistia. Que sim, era um remédio infalível. Ora amargo e negro, ora branco e excessivamente doce. Que sim, que esse remédio lhe meteria tal leveza no corpo e na alma, que não haveria dança que os seus pés retorcidos não conseguissem dançar. A noite toda a moe-la nisto, até que ela disse, venha esse remédio, então. Mas havia uma condição, que assim que ficasse curada dos pés teria de casar com ele. Pois sim, disse-lhe ela, até porque não acreditava que algum dia isso acontecesse. E a primeira encomenda chegou no sábado seguinte. Trouxe-a um carteiro bem jeitoso que ela nunca vira por aquelas paragens. Abriu o pacote de papel pardo. La dentro uma caixa imensa de chocolate. Voluptuoso, intenso, doce, a deixar-lhe a boca aveludada, a aquecê-la por dentro, assim mesmo no peito, e as dores nos pés a aliviarem-se-lhe, sempre que ela semicerrava os olhos. No sábado seguinte, outro pacote, e o carteiro a parecer-lhe um artista de cinema, de olhos que lhe furavam a alma. Desta vez o chocolate era leve, negro, pouco doce, os pés a ficarem-se-lhe leves, cada vez mais leves, e o formigueiro a subir-lhe pelas pernas, a querer passar os joelhos. No terceiro sábado, mais uma caixa de chocolates, estes, com travo de álcool e picante, a voz do carteiro a pôr-lhe a cabeça tonta, que bem que ele cheirava, o formigueiro a subir, a subir, ele a puxa-la para si, só para uma dança, uma só, e ela a dizer que sim, os pés quase sem tocarem no chão, a cabeça e o corpo a girar. Nunca mais se soube nada deles. Dizem que fugiram os dois. O Zeferino, esse, continua a oferecer a cura do chocolate, às moças que não dançam. Mas diz que ainda não casou. Fogem todas com os carteiros.

 

(Texto apresentado no evento "Nº 16, do chocolate",  a decorrer no no Espaço Ó, durante o festival do chocolate de Óbidos)

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