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Não há mal que o chocolate não cure*

por Cristina Nobre Soares, em 05.04.16

 

Por ter pés chatos e joanetes, Amélia nunca aprendera a dançar. Era um desgosto que lhe consumia o avesso da alma. Quando havia bailes na vila, ficava a ver os outros a dançar noite fora, com uma inveja tão grande que até lhe fazia doer os dentes. Apercebeu-se disso, num desses bailes, o Zeferino, que para além de poeta, também era homem viajado, e a quem a solidão já pesava, apesar dos sonetos de amor. Pois, numa dessas vezes, chegou-se à beira dela e disse-lhe: tenho um remédio, que me ensinou uma velha, meia índia, meia cigana, que te põe os pés direitos e a saberem dançar. Ela torceu o nariz. Vá, não tenhas medo, que este remédio te vai meter tal leveza nos pés que não vai haver moda que não consigam dançar. E quanto me vai custar esse remédio? Coisa pouca. Que assim que ela ficasse boa dos pés teria de casar com ele. Ou pelo menos noivar com tudo o que isso tem direito. Pois que sim, disse-lhe ela, até porque se fiava que os pés nunca lhe saíssem daquela agonia. Pois que sim. E a primeira encomenda chegou. Trouxe-a um carteiro, bem jeitoso, que ela nunca vira por aquelas paragens. Abriu o pacote de papel pardo. Lá dentro, uma caixa imensa de chocolates. Doce, a saber ao veludo dos beijos demorados, a aquecê-la por dentro, naquele dentro que há três palmos abaixo do peito, e as dores nos pés a aliviarem-se-lhe. Na semana seguinte, outro pacote, e o carteiro a parecer-lhe um artista de cinema, com uns olhos que lhe furavam a alma. Desta vez o chocolate era leve, negro, quase amargo, os pés a ficarem-se-lhe leves, cada vez mais leves, os olhos a semicerrarem-se, um formigueiro a subir-lhe pelas pernas, até três palmos acima dos joelhos. Na terceira semana, trouxe, o carteiro, chocolates traçados com álcool e pimenta, a voz dele, do carteiro,  a pôr-lhe a cabeça tonta, o formigueiro a subir, a subir, ele a puxá-la para si, só para uma dança, uma só, anda lá e ela a dizer que sim, os pés quase sem tocarem no chão, a cabeça e o corpo a girar, que a pimenta me está a deixar a arder, ela a dizer. Nunca mais lhes puseram a vista em cima. Abalaram os dois, de madrugada, ainda meios descompostos, disse uma vizinha. O Zeferino, esse, continua a oferecer a cura do chocolate às moças que não dançam. Mas diz que ainda não casou. Fogem todas com os carteiros. Ao Zeferino restam-lhe os poemas, que é a sina dos que não conseguem as mulheres bonitas. Mesmo as que têm pés chatos e joanetes.

 

* História escrita há um ano, durante o festival do chocolate de Óbidos, para o evento nº16 do Chocolate, no Espaço Ó

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1 comentário

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De Simão a 05.04.2016 às 20:46

"... nem medição a palmos que sempre dure".

Por isso, fica a pergunta: a Amélia e o carteiro continuarão nas suas medições? Sei que o Zeferino continua poeta, mas não fiquei a saber o resto e sou curioso!

(Não preciso imaginar que esta história foi escrita pela Cristina Nobre Soares, pelo que ainda tenho mais uma vez a salvo para imaginar)

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