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Meu amigo Charlie Brown

por Cristina Nobre Soares, em 29.12.14

Eu teria uns dezasseis anos e ele pouco mais.  Eu, sentada numa mesa, num réveillon  de um qualquer hotel, daqueles com cocktail de camarão e espumante meio seco. Sentada, com a cabeça enterrada nas mãos  e no enfado, enquanto homens de colarinho aberto e mulheres de maquilhagem transpirada, dançavam em comboio a “ cachaça não é água”.  Ele debruçou-se.  Tinha olhos verdes . Perguntou-me se eu queria dançar. Disse que sim. O comboio passou e levou-nos. Lembro-me de achar que  ele cheirava bem  e que a noite afinal não estava a correr mal. A música mudou e o comboio desfez-se. Não sei dançar a pares, disse-lhe . Ele ignorou-me e tentou  girar-me numa pirueta, que correu mal. Não sei dançar assim. Ele semicerrou os olhos , desceu os tons graves da voz e o braço nas minhas costas. É simples, troces o braço, assim. Como? Assim, troces.  E ele, encolheu em altura uns vinte centímetros  e o verde dos olhos amarelou-se. Torces, disse-lhe ao ouvido.  Hum? É torces que se diz. Ele deu dois passos atrás com algum horror no olhar.  Logo que vi que eras uma dessas. O dedo a apontar com desprezo. Dessas, betinhas.

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