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Dos versos e outras rendas

por Cristina Nobre Soares, em 13.12.14

 

(Ilustração: Ana Varela ) 

Tinha apenas quinze anos quando se apaixonou pelo caixeiro viajante que lhe trazia os cadernos e as canetas com que escrevia os poemas que lhe inundavam a voz. Poemas, que ela escondia no fundo da cesta onde guardava as linhas e as rendas do bilros. Escondia-os para que o pai, um homem para quem as  palavras eram tão inúteis como outras rendas, não os descobrisse. Nenhum homem de cinco alqueires de juízo pega numa mulher que só saiba de versos, dizia-lhe ele.  Mas ela não o ouvia e a cada mudança de estação, corria à entrada da vila para  ver chegar o seu amado. Nenhum homem quer uma mulher que só saiba de versos, e ela a dizer palavras rendilhadas ao ouvido do caixeiro viajante em troca de promessas de amor verdadeiro. Nenhum homem quer uma mulher que só saiba de versos e o pai a proibi-la de sair, a queimar-lhe os cadernos e a tirar-lhe as canetas. Ficas só com as linhas e as rendas até que algum homem decente te queira e ela a dizer adeus da janela ao caixeiro viajante. Volto para te buscar quando chegar o Inverno, o rapaz a prometer-lhe, antes de partir e as rendas de linha branca a começarem-se no quarto. Ela a murmurar os versos de cor, as estações a sucederem-se, a renda a crescer em, tempo e palavras, volto no próximo inverno, a voz dele que lhe ficara morna no ouvido.Mas o próximo era sempre no ano seguinte. Nenhum homem pega numa mulher que só saiba de versos e os anos e enredarem-se no engenho dos bilros, o tempo a tirar-lhe o viço do rosto, os poemas a pingarem-lhe dos lábios, a renda tão imensa, que já não cabia no quarto, na casa, na vida. Ninguém sabe ao certo quantos invernos passaram, ninguém sabe ao certo quantos poemas couberam em centenas de metros de  renda , mas dizem, apesar de todos saberem que é uma lenda, que era tanta, que cobria todas as ameias do castelo da vila. Dizem, também, que a linha branca se tornará de prata e ouro, iluminando as muralhas, no primeiro dia de Inverno em que caixeiro viajante voltar para a buscar. Mas todos sabem que isto é impossível. Todos sabem que não há magia nos versos. Só naqueles que são de amor verdadeiro.    

Mais um conto para a Magia da Transformação - Óbidos Vila Natal









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