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Dos versos e outras rendas

por Cristina Nobre Soares, em 07.07.16

(Escrevi este texto em Dezembro de 2014 para um evento em Óbidos, a Magia da Transformação. Esta semana lembram-me dele. E dos quilómetros que se vão escrevendo pelo caminho. A ilustração é da Ana Varela)

 

bilros.jpg

 

 

Tinha apenas quinze anos quando se apaixonou por um caixeiro-viajante. O mesmo que lhe trazia os cadernos e as canetas com que escrevia os poemas. Poemas que ela escondia no fundo da cesta onde guardava as linhas e as rendas do bilros. Para que o pai, um homem para quem as  palavras eram inúteis, não os descobrisse. Nenhum homem, com  cinco alqueires de juízo, pega numa mulher que só saiba de versos, dizia-lhe o pai.  Mas ela não o ouvia, e a cada mudança de estação, corria à entrada da vila para  ver chegar o seu amado. Nenhum homem quer uma mulher que só saiba de coisas inúteis como os versos, e ela a dizer rendilhados de amor ao ouvido do caixeiro-viajante, que os trocava por promessas de amor verdadeiro. Nenhum homem quer uma mulher que só saiba de versos, ouviste? E o pai a proibi-la de sair, a queimar-lhe os cadernos e a tirar-lhe as canetas. Só precisas de  linhas e de rendas para que algum homem decente te queira. Ela a dizer adeus da janela ao caixeiro-viajante, volto para te buscar quando chegar o Inverno, ele a prometer e ela a começar as rendas para fazer o tempo passar mais depressa. Volto para te buscar quando chegar o Inverno, as rendas de linha branca a fazerem-se no quarto, ela a murmurar os versos de cor, as estações a sucederem-se, a renda a crescer em metros, tempo e palavras. Volto no próximo Inverno, mas o próximo era sempre no ano seguinte. Nenhum homem pega numa mulher que só saiba de versos e os anos a enredarem-se no engenho dos bilros, o tempo a tirar-lhe o viço do rosto, os poemas a pingarem-lhe dos lábios, a renda tão imensa, que já não cabia no quarto, na casa, na vida. Ninguém sabe ao certo quantos Invernos passaram, ninguém sabe ao certo quantos poemas se rendilharam nos imensos de metros de  renda. Mas, dizem que a renda era tanta, tanta, que cobria todas as ameias do castelo da vila. Dizem, também, que no dia  em que o  caixeiro viajante voltar para a buscar essa renda branca se tornará de prata e ouro,  Dizem que quando ele chegar se ouvirão versos  e que a renda se tornará de ouro e prata. Mas todos sabem que isto é apenas uma lenda. Das que só existem nas palavras de quem nelas acredita. E todos sabem que não há magia nos versos. Não há. Só naqueles que são de amor verdadeiro.

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