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Do bullying e do silêncio.

por Cristina Nobre Soares, em 16.05.15

Era das mais altas e ficava sempre na fila de trás. Chegava à escola sempre sozinha. Às vezes a irmã mais velha, que apesar de só ter quinze anos e que na altura me parecia tremendamente adulta, trazia-lhe o lanche esquecido a meio da manhã. A mãe nunca aparecia. Eu conhecia-a por viverem na minha praceta. Era uma mulher de cabelo platinado, olhos excessivamente pintados que só vestia roupas apertadas e néon. Mas nunca ia à escola. Muitas vezes depois das aulas, vi a minha professora à espera no portão. Mas só vinha a irmã. A minha professora dizia, eu tenho de falar é com a tua mãe e a rapariga encolhia os ombros, enquanto punha a mão na cabeça da irmã. A miúda muitas vezes usava a mesma roupa durante a semana inteira. E como tinha um pastor alemão enorme, muitas vezes cheirava a cão. Por causa disso, os outros miúdos gozavam com ela por causa do cheiro. E ela não fazia nada, ficava encostada à parede com as mãos atrás das costas, em silêncio. Uma vez, à saída da escola um grupo foi atrás dela a gozar, a rir-se, dizendo-lhe, cheiras a cão. E eu tive um medo que nunca tinha tido. Eu, que tantas vezes tinha sido gozada, ficas parada a olhar para as pessoas, deves ser maluca,és esquisita, não fiz rigorosamente nada. E tive medo. Mas de mim. Que é o pior medo que podemos ter. Fiquei ali, a abrandar o passo, a tentar fingir que não a via a desaparecer por debaixo dos arcos dos prédios, a chorar. Achei errado, mas não fiz nada. Tive medo que isso me tornasse igual aos outros. E deles também, cuja raiva com que se riam me assustou. No dia seguinte a professora pediu à miúda que dissesse quem é que tinha sido. Ela apontou um a um. Depois olhou para mim e disse, ela não. Ela não fez nada. Pois não, eu não tinha feito nada. E nesse dia eu percebi que o nada pode ser a maior das culpas.

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7 comentários

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De naluzdalua a 16.05.2015 às 17:01

Gostei muito. Um abraço
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De Aerdna a 17.05.2015 às 09:37

Parabéns. Escrever um post na primeira pessoa a assumir um erro, não é fácil. Dá um aperto, no peito. Mas o medo que naquela altura de imaturidade não conseguiu ultrapassar vence-se assim: a espiar as nossas atitudes e a assumi-las.
Ter medo faz parte. Ter coragem para assumi-lo, infelizmente não está ao alcance de todos.
E agora, expõe, para que todos leiam, se identifiquem e pensem nas próprias atitudes.
É isso que é preciso, por as pessoas a pensar.
Nós sabemos como é praticado o bullying. Desde os corredores dos cachaços, que se fazem nos corredores das salas de aula, em frente a funcionários e professores, até aos grupos que se juntam para atacar um indivíduo. A luta nunca é feita frente a frente, de um para um. A covardia destes “meninos” fazem-nos formar “manadas” para atacar. Os motivos são sempre banais: a roupa, o cheiro, a forma de falar, a altura, a falta dela, a gaguez… São motivos cuja resolução não depende directamente da vítima. Ela não pode por e simplesmente mudar de roupas, se os pais não deixarem e não puderem. E é aí que se nota o nível de covardia deste “meninos”.
Na realidade os doentes são estes covardes “meninos” que têm de atacar para se sentirem, para se conseguirem sentir integrados, para conseguirem sentir poder. Normalmente, são estes “meninos” que sofrem de falta de atenção parental, compensada à ponta de roupa de marca, mas reflectem a raiva nos que não podem igualar-se. Este é apenas um dos motivos, eles são muitos e complexos.
Mas gostava de passar aqui o “pente” nas soluções. Crescer é complexo, e não se pode esperar que os “meninos” se auto-regulem sozinhos, por isso existem tantas entidades cuidadoras: parental, escolar, religiosa, … É preciso que estas entidades percebam o seu papel e reajustem a forma de agir, porque a utilizada até aqui já vimos que não resulta.
Os paizinhos têm de ter mais atenção à forma como tecem críticas preconceituosas à frente dos filhos em relação a terceiros (os miúdos sonham ser heróis e limpar do mundo o que não presta), têm de parar de achar que os educam à palmada e depois ficar indignados quando eles os imitam para colocar os colegas no sítio que eles acham que deve ser, …
A escola tem de ser pelo menos nos primeiros anos, um espaço de ensino da socialização, que nos dias que correm não é. Existe demasiada pressão para passar conteúdos que os “meninos” podem aprender mais tarde, e pouca ou nenhuma em ensinar noções básicas de cidadania e convivência. É preciso mais jogos de grupo (os miúdos não gostam, mas precisam), mais trabalhos de grupo (e ir variando os membros dos grupos). Discutir a individualidade e a colectividade. E os auxiliares, têm de ter formação para estar ao lado de jovens.
Pode não ser a solução, mas eu acredito que é parte dela. (falta que a sociedade dê tempo aos pais para que estes possam exercer o seu papel, que hoje em dia também está a fazer falta).
Parabéns, mais uma vez. Bom Domingo!
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De Cristina Nobre Soares a 17.05.2015 às 12:57

Obrigada pelo seu comentário. Eu tinha dez anos quando este episódio aconteceu, que foi determinante para a minha forma de ver o mundo até hoje, que tenho quarenta um. O meu objectivo com este texto foi lembrar-nos que no que diz respeito ao bullying e a outras formas de abuso e repressão pelo medo, dificilmente estaremos impunes. É fácil olharmos para o lado e dizermos, não é comigo, nem com os meus. É fácil demais. O problema é que isso também prepectua algo profundamente errado. Bom domingo, também para si :)
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De Carolina Cruz a 17.05.2015 às 16:55

Tão actual e verdadeiro. Conheço bem esse sentimento.
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De m-M a 19.05.2015 às 12:21

Como vítima de bullying, que vê os seus bullys crescer, alguns em idade, outros em maturidade.

Sei, da minha experiência, que é das maiores provas de crescimento, de luz e sabedoria: assumir o erro.
Reconhecer o momento, o que se sentiu.
E ao admitir, crescer e elevar ainda mais.

Ela sabe que o teu "não fazer nada" foi a tua prevenção.
E se te lê (quem sabe... o mundo é uma ervilha...) está de lágrimas nos olhos, agradecida como eu estou, de te ler e sentir, desse lado.

Beijinho,
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De Cláudia Dias a 19.05.2015 às 19:24

quantos silêncios me trazem culpa de situações em que não agi...
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De Maria a 21.05.2015 às 15:00

Quando li o seu blog lembrei-me do meu neto(que só tem 8 anos) que por ir defender quem está a ser injustiçado é chamada para o defender e acaba sempre or ser ele o "mau da fita" sendo castigado e apontado pelos que efectivamente estão a fazer o menos correcto(recuso a dizer mal especialmente quando se trata de crianças) e qaundo existe algo pior dizem sempre que foi ele mesmo quando não está na escola

Mas também existem Professoras que fazem bulling porque querem automatos e não crianças

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