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Das seis badaladas do sino de Páscoa

por Cristina Nobre Soares, em 27.03.16

Sempre que imaginava as coisas mais do que três vezes, elas aconteciam. Aconteceu com o vizinho, que foi encontrado morto na cama, de rosto e olhos retorcidos. Tal e qual como ela o imaginou das três vezes que ele, viscoso, lhe respirou para cima do decote. Aconteceu com o irmão, cuja mota viu espatifada ribanceira abaixo. Três vezes. Soube que ia ter uma filha chamada Maria do Amparo, três dias antes da noite em que a fez contra o muro coberto com maracujazeiro. Três vezes. Por causa disso, ganhou medo aos próprios pensamentos. E passou a escrevê-los. Uma vez apenas. Para não acontecerem. Dobrava as folhas de papel e guardava-as no guarda-fatos, dentro de uma caixa de sapatos (tinha preferido uma de sândalo, como nos livros, mas só anos depois percebeu que sândalo era uma madeira rara). Escrever os pensamentos foi coisa que lhe deu jeito quando começou a perder a memória. Porque se lembrava sempre das coisas antes delas acontecerem. Mas esqueceu-se de escrever que ia morrer à sexta badalada do sino de Domingo de Páscoa. E quando o imaginou três vezes, soube que já não havia remédio. Por isso, pediu à filha que fizesse dois vestidos brancos. A minha mortalha e o outro para noivares. A filha temeu que a memória também lhe tivesse levado o juízo, não tenho noivo, mas comprou o pano e a renda na mesma. O da mãe, teve-o de coser ao corpo porque a morte começara a mirrá-la no primeiro dia de quaresma. O dela, deixou-o na arca, até porque perdera a esperança de noivar. O sino da Páscoa tocou. Uma vez, anda à minha beira, Amparo, duas vezes, quando casares, leva os jarros brancos que vão crescer por detrás do tanque, três vezes, o maracujazeiro floriu antes do tempo, quatro vezes, um rapaz de pele cor de azeitona parou junto a muro, cinco vezes, Hermínia apertou a mão da filha, é aquele, seis vezes, os dedos ficaram lassos, a filha olhou pela janela, sorriu ao rapaz e ela disse baixinho, é agora.

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4 comentários

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De Simão a 05.04.2016 às 16:31

E foi a Cristina Nobre Soares quem escreveu essas imaginações?
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De Simão a 05.04.2016 às 18:38

Foi o que eu imaginei, mas só uma vez.
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De Cristina Nobre Soares a 05.04.2016 às 20:12

Calculo que sim :)

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