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Das epifanias

por Cristina Nobre Soares, em 05.08.17

Tinha 30 anos feitos há pouco mais de três meses quando a minha filha nasceu. Tinha 30 anos e, ao contrário de muitas mulheres que desejaram desde pequeninas ser mães, que se prepararam, que esperaram ansiosas por esse momento, eu nunca tinha pensado muito no assunto. Quando me trouxeram a minha filha, depois de uma cesariana de última hora, foi um momento bonito, mas não tive epifania nenhuma. Agora é mãe e vem aí o instinto todo, disse-me a enfermeira Alice. Vem? Ainda hoje estou à espera dele.

Não levamos só um filho para casa. Levamos também uma vida nova, muito diferente da anterior. E ninguém nos avisa disso. E às vezes essa vida nova não nos serve muito bem ao corpo. Ser mãe é aprender a alargar e apertar costuras desse novo fato. É, também, aprender a abrir mão daquilo que éramos antes. Ser das primeiras a ser mãe, é habituarmo-nos a que os convites para saídas se tornem cada vez mais raros. É deixarmos de ter tema de conversa com as amigas que ainda não tiveram filhos. Convenhamos, quem é que tem paciência para ouvir horas e horas de conversa sobre cocós e bolsados? Ninguém. Ser mãe é habituarmo-nos que deixem de perguntar como estamos e que só perguntem pelo bebé. Ser mãe é habituarmo-nos a ouvir todo o tipo de palpite, crítica e bitaite.

Até que um dia, a bater mal pelas noites mal dormidas, pelos duches por tomar, pelas olheiras até ao queixo, pelo choro que nos leva à loucura, pelas críticas feudais das outras mães, pelos amigos que se evaporaram, damos por nós a chorar num canto da casa de banho, a acharmos que somos as piores criaturas do mundo, só porque não tivemos um raio de uma epifania qualquer, porque não andamos em unicórnios de felicidade e porque temos saudades da nossa vida anterior. Damos por nós a chorar até ao osso, por acharmos que o filão do ouro só calha às outras e a nós apenas uma pirite dourada, sem valor nenhum. E a culpa deve ser nossa. Só pode ser. É porque fizemos alguma coisa de errado, é porque somos más pessoas. Só pode ser. A filha da mãe da culpa. Que nos fica ali a rasgar por dentro, a consumir.

Mas um dia, por mero acaso, descobrimos que há mais mulheres assim. Que passaram pelo mesmo do que nós. E falamos, perdemos o medo, exorcizamos. Deixamos de ter vergonha. Largamos aquela asfixia e dizemos em voz alta: não somos más mães. Somos mulheres possíveis. E essa é que é a verdadeira epifania. Pena que se fale pouco disso.

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3 comentários

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De David Marinho a 07.08.2017 às 12:37

Acredito que ser mãe, mais do que ser pai, é o derradeiro desafio da vida. Não digo que a vida acaba, porque há quem redescubra a vida aos "entas" mas o coração apertado já ninguém tira.

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