Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]


Das aulas de ballet e outras ortopedias

por Cristina Nobre Soares, em 30.01.15

Éramos umas vinte. Todas vestidas com maillots azuis  e collants brancos.  A ver se o ballet lhe corrige os tornozelos, dizia a minha mãe. E assim evita os sapatos ortopédicos, que nas meninas fica tão feio. A sala tinha um piano perto da janela. Nela sentava-se uma mulher nova, de cabelo ruivo muito encaracolado. Chamava-se Madalena. Engraçado, não me lembro do nome da minha professora, que se vestia sempre de preto e usava o cabelo impecavelmente apanhado na nuca. Fazia-lhe um gesto, um quase estalar de dedos, Madalena anuía com a cabeça e  o som das sapatilhas arrastava-se no soalho velho. A luz, filtrada pelos vidros amarelos das janelas,  fazia com que fosse sempre uma tarde de Verão. Mesmo quando, lá fora, se ouvia a chuva de Janeiro.  Ao terminar de tocar, Madalena deixava as mãos durante um instante suspensas sobre as teclas. E o tempo parava um bocadinho, até ser rasgado pela voz metálica da minha professora. Direita! Sempre, distraída. Eu afastava do rosto o cabelo, que, desalinhado, insistia em sair da rede e voltava ao port de bras. Madalena sorria-me. Ou se calhar era eu quem lhe sorria. A ver se o ballet lhe corrige os tornozelos. Talvez seja por isso, que hoje, sempre que estes me doem, o cabelo me caia de novo para o rosto, durante um instante. Aquele instante suspenso da Madalena.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


3 comentários

Sem imagem de perfil

De Maria Nunes a 01.02.2015 às 00:09

E eu lembro-me do nome da minha professora. Chamava-se Ana, Ana Mascolo.
Não me lembro do nome da senhora do piano. Era tal e qual como diz. Aqueles segundos de descanso eram dados pelo senhora do piano. Para nos compormos, como dizia a Ana.
Muitos anos de ballet, anos de muita dureza e também de muita saudade.
Sem imagem de perfil

De Maria a 01.02.2015 às 00:53

Este seu texto fez-me voltar ao meu paraíso há quase meio século. Os meus maillots eram branco e rosa, collants e sapatilhas e fita rosa. Foi recomendação da pediatra para corrigir o valgismo que eu entendia 'valsismo'. Depois das primeiras aulas disse à minha mãe que se calhar não ensinavam a dançar valsas mas que eu queria continuar. A Helena, de vez em quando, desprendia o cabelo que caía até ao chão. Penteava-o suavemente e voltava a enrolá-lo com perícia. Nunca mais quis cortar o meu cabelo para o deixar crescer até ao chão. A minha mãe desesperava quando me penteava e eu sofria em silêncio. Na preparação para a última gala a Helena ajudou a pentear o meu cabelo que já chegava à cintura. Enquanto eu estava nas núvens, disse-me que gostaria de ter um cabelo como o meu. Ainda tenho guardadas as minhas primeiras sapatilhas, o maillot e o fato da última gala/exame junto com o diploma assinado por Dame Margot Fonteyn.
Sem imagem de perfil

De Maria a 01.02.2015 às 10:47

o meu maillot era preto, meias brancas, sapatilhas pretas.....temos de ir a Lisboa comprar as sapatilhas da miúda......passaram-se quarenta anos. Recordo a primeira professora, elegante, cabelo apanhado na nuca, por volta dos 30 anos o que na época me pareciam muitos, não lembro o seu nome.....lembro os exercícios na barra....costas direitas.. 1a , 2a , 3a , posição, plie , plie ........



Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

GA



google-site-verification: googledeb34756365df053.html