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Criaturas incompletas

por Cristina Nobre Soares, em 04.04.15

Por alguma razão que nunca percebi, os velhos gostam de conversar comigo. As crianças não me ligam nenhuma, acho que pressentem a minha falta de jeito natural para com elas. Mas os velhos não. Sentam-se ao pé de mim, falam do tempo, queixam-se das dores nos ossos retorcidos e fracos, da tosse e dos diabetes, da falta de sal na comida por causa da tensão arterial, das filas nos supermercados, da televisão, onde pelos vistos não passa nada de jeito desde as emissões experimentais na feira popular. Eu sorrio-lhes e dou-lhes uma fracção ínfima do meu tempo, enquanto o deles se coa demasiado depressa por entre as artroses dos dedos das mãos. Eu, que não sei o que é ter avós, que nasci tarde demais para o saber, faço de conta que sei o que é ser neta com pessoas que não conheço de lado nenhum. Torno-me numa neta postiça. Acho que eles percebem. E ficamos ali a fingir que não somos criaturas incompletas.

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