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Aconchego

por Cristina Nobre Soares, em 29.11.16

Havia um pátio por detrás dos prédios onde os estendais se cruzavam, curvados com o peso da roupa molhada. Havia, também, um gato pardo e um muro. Para lá do muro, ao fim da manhã, ouvia-se o som do amola-tesouras. Havia, nesse pátio, pelo menos uma janela entreaberta por onde saía o som do noticiário da rádio, vozes exaltadas ou o ladrar de um cão. Havia no rés do chão do número trinta e quatro, lado esquerdo, uma mulher que fazia bolos para fora. Uma mulher de rosto gordo e corado e que todas as manhãs vinha à janela, juntamente com o cheiro pastoso da manteiga. E havia um homem, que todos os dias vinha remexer no lixo e ficava a olhá-la com a fome de quem não tinha mulher há muito tempo. Volta e meia dizia-lhe em voz bem alta, precisavas mas era de um bom aconchego. Ela, fingindo que não o ouvia, desviava os olhos da boca dele, cheia de dentes amarelos e ausentes. E eu era homem para te dar um aconchego dos bons, ele a dizer, enquanto atava as caixas de cartão desmanchadas com os cordéis velhos que trazia no bolso. Ela, continuava a fingir que não o ouvia e voltava para dentro da cozinha. E suspirava, se ao menos tomasses um banho.

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