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A vida na província #1

por Cristina Nobre Soares, em 27.12.16

Perguntam-me muitas vezes como é viver na província. Noto-lhes nos olhos, cansados das rotinas urbanas, uma espécie de desejo de terra prometida. E para lhes preservar o idílio digo-lhes o que querem ouvir. Falo-lhes da tranquilidade, do tempo que parece ser maior, da ausência de cinzento e horas perdidas no trânsito. Não lhes minto, que isto é uma grande verdade. A verdade que me vai fazendo ficar, apesar das saudades da cidade. A outra verdade, a que tem menos pássaros pela manhã, guardo-a para mim. Não lhes conto que viver na província é ser estrangeiro para sempre. Troca-se o anonimato da cidade pelo rótulo “não é de cá”. Na província as pessoas cresceram juntas, conhecem sempre alguém que conhece outro alguém. Uma cadeia de ligações que nunca nos toca, porque desemboca sempre no passado. Num passado que aconteceu um dia antes de chegarmos à província. Não, isto eu não conto às pessoas da cidade. Em vez disso, continuo a falar da qualidade de vida, do faisão que sobe e desce a minha rua, sem vergonha nenhuma, do homem que me cumprimenta sempre no cruzamento, e de quem eu não sei o nome, mas sei que ele saberá o meu e onde moro, que tenho um filha e que não sou de cá. As pessoas da cidade suspiram e dizem que um dia farão como eu. Eu sorrio e respondo sempre a mesma coisa: um dia também regresso à cidade. Afinal, para ser estrangeira preciso de ter um sítio onde voltar. Um lá. Que é de onde sempre fui: de lá. Os de cá têm a sua razão.

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4 comentários

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De Narciso Santos a 27.12.2016 às 18:59

Ui ... que "entusiasmo" de viver na província...
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De Cecília a 28.12.2016 às 10:23

( províncias que ) ostracizam - mas com simpatia tolerante.
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De A.vieira a 28.12.2016 às 11:26

As ligações existem sempre , mesmo que sejam só olhares rotineiros.
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De Patrícia a 13.01.2017 às 12:38

Quem vem da província para a cidade é a mesma coisa, seremos sempre de lá. Neste caso sentiremos falta do silêncio, da pertença, de dizer bom dia e boa tarde a quem passa, de sair de casa sem mala, nem carteira, sem um tostão no bolso e parar num café, em qualquer e dizer " já cá venho pagar" enquanto se conversa com os amigos de infância que vivem por lá ou estão de passagem e se recorda outro alguém.
Mas a verdade é que, apesar de ser sempre da cidade, também é de lá. A província gosta dos que gostam dela, admira imenso quem é capaz de se simplificar e de chamar terra ao sítio que adoptou.

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