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Pão por Deus

por Cristina Nobre Soares, em 31.10.17

Mesmo depois de se lhe começar a falhar a memória Manel Cipriano continuaria a contar as mesmas duas histórias. Uma delas era a da primeira vez em que metera o dente num bolo fino. Fora num Dia de Todos os Santos. A senhora dona Maria do Amparo, a da Casa Grande, mandara dar bolos finos, mandados vir de uma pastelaria de Lisboa, ali para os lados do Rossio, a todos os catraios que lá fossem pedir o Pão por Deus, em vez das broas de erva-doce dos outros anos. Contara a Rosa, que era lá criada de dentro, que os bolos tinham sido por causa uma promessa que a senhora fizera por o seu mais novo se ter livrado do tifo. Que as doenças até aos ricos calham. Manel Cipriano não se conseguia lembrar de quanto anos tinha quando isto acontecera, só que nunca mas voltara comer bolos assim, nem nos casamentos, que a Maria Dulce era muito boa doceira, mas só com mão para o mais do mesmo. Não, não se conseguia lembrar quando isto acontecera, mas tinha ideia que fora muito antes do exame da quarta classe, dia em que calçara o seu primeiro par de sapatos. E esta era a outra memória que tinha.

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Life building

por Cristina Nobre Soares, em 29.10.17

A propósito das declarações do senhor da Padaria Portuguesa e pegando no tema dos "team buildings" e dos "espíritos de equipa", que não são exclusivos da Padaria Portuguesa, tenho para mim que os trabalhadores (desculpem lá eu ser tão "old school", mas colaboração, para mim, é outra coisa) seriam muito mais produtivos se se investisse menos nos "team buildings" e se desse mais condições laborais para as pessoas fazerem "life building".

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Da mudança da hora

por Cristina Nobre Soares, em 28.10.17

Todos anos lamento a mudança da hora. Todos os anos sofro muito com as tardes que já são de noite quando ainda deviam ser dia. Este ano não o irei fazer. Preciso das noites para terminar o que tanto me tarda e os dias são má companhia, distraem-me, levam-me por maus caminhos, a mim, que sou tão fácil de levar. Preciso da disciplina monástica da noite para me ajuizar. Não, este ano não me vou lamentar. Amanhã, terei mais uma hora de mim em contraluz e isso, pelas sombras que me traz, não me distrai. Amanhã terei mais uma hora de ausência de tudo, eu que preciso tanto de me ausentar e que desleixadamente me vou deixando ficar. A partir de amanhã seremos apenas nós duas na casa: eu e a noite. Agora só falta fazer frio.

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Os grupos e os castanheiros

por Cristina Nobre Soares, em 28.10.17

Perguntam-me que nome se dá a um conjunto de castanheiros. Depende, respondo. Que, dependendo do objectivo e da forma como são conduzidos, um povoamento de castanheiro poderá ser um souto ou um castinçal. Se a ideia for a produção de fruto, serão soutos, se for a produção de madeira serão castinçais. Perguntam-me se são espécies diferentes. Não, não são. Há é diferenças na forma como são conduzidos, mas não consigo explicar bem isto. Se fosse florestal do ramo de produção decerto que não teria esta dificuldade. Mas sou do ramo de recursos naturais. Havia uma certa rivalidade, uma certa sobranceria entre os dois ramos. Os de produção achavam-se engenheiros a sério, preocupados com custos de produção, produtividades e rentabilidades. Uns pragmáticos. Já nós, os de recursos, achávamos que só nós compreendíamos a floresta no seu todo, em toda sua complexidade e com seus valores intangíveis e tantas vezes “invisíveis aos olhos”. Éramos os líricos do departamento, portanto. Mas esta conversa dos grupos deixa-me a pensar que estes nunca são apenas simples conjuntos de pessoas. São, muitas vezes mais, os objectivos de um dado curso, dogmas religiosos, ideais políticos, ou, simplesmente, formas de estar. Estas coisas são o que os juntam. Sem elas as pessoas não teriam razão para se juntar. O problema dos grupos é que muitas vezes a forma como são conduzidos se sobrepõe aos indivíduos, à espécie que lá está. Deixam de ser apenas castanheiros e passam a ser todos eles apenas um propósito. Um bem maior, definido, não por eles, mas por quem os plantou. E com o tempo deixam de ser muitas árvores e passam a ser um único povoamento. Mas isto sou eu, que nunca compreenderei as florestas de produção. Ou não fosse eu de recursos.

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Hábitos

por Cristina Nobre Soares, em 27.10.17

No outro dia, uma pessoa disse-me, logo de manhã, enquanto bebo café vou sempre ao teu perfil ver se escreveste alguma coisa. Já é um hábito, disse-me. Estranhei. É sempre bom saber que há pelo menos uma pessoa que nos lê. Aliás, e não me lixem, é por isso que publicamos coisas por aqui: para nos lerem. Quem disser o contrário ou não percebeu a ideia disto ou está armado em indiferente. Ah, e tal eu sou muito superior, muito desprendido das tentações do ego, não quero saber dos feeds para nada, nem quem me leu ou deixa de ler. Tretas. Não foi o facto da pessoa ter dito que me lia que eu estranhei, isso deu-me gosto, fico feliz por isso, mesmo muito. Foi o facto de eu ser um hábito. Um hábito na vida de uma pessoa que mal conheço. Fazer parte da rotina de alguém que me limito a cumprimentar quando a encontro, olá, estás boa? Sim, tudo bem e a conversa fica por aí. Nem sei bem o que essa pessoa faz, como é a vida dela. E no entanto, eu estou com ela todos dias, enquanto bebe café. Estou com ela sem que ela esteja comigo. É estranho. Mas não lhe disse. Agradeci e perguntei, e estás boa? Ela respondeu que sim, está tudo bem e cada uma foi à sua vida.

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Prova de vida

por Cristina Nobre Soares, em 26.10.17

A mulher no café, que há sempre uma mulher no café, mesmo nos cafés vazios, pede ao empregado para lhe deitar bagaço na bica, enquanto devolve o pacote de açúcar. Reparo que a conheço de vista, coisa da qual só me apercebi neste momento, por ela ter pedido bagaço na bica. A partir de agora, quando me cruzar de novo com ela na rua, vou lembrar-me dela. Vais ser a mulher que pediu bagaço na bica. A estranheza de alguns hábitos faz parte do nosso instinto de sobrevivência, uma pigmentação diferente na nossa plumagem, que nos distingue dos outros. Para darem por nós. Uma espécie de prova de vida da nossa existência. Tem de ser sempre feita por terceiros.

 
 
 

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Ou somos Verão ou somos Inverno

por Cristina Nobre Soares, em 25.10.17

Hoje, voltou a fazer a calor e eu tenho saudades do Outono. Das manhãs frias, do enroscar-me nas primeiras camisolas, do quente das castanhas, da luz oblíqua das tardes a anunciarem os dias pequeninos. Tenho saudades do Outono, da estação que sempre senti como minha. Na verdade, eu é que sou dele. Este Verão postiço, de pechisbeque, satura-me, cansa-me. Depois, quando finalmente chegar, vai ser como o ano passado, meia dúzia de dias de Outono, um reles cheirinho e é logo Inverno. Agora é assim, passamos directamente do Verão para o Inverno. Parece que o mundo de extremos em que vivemos chegou às estações do ano. Não há lugar para moderados neste mundo. Ou somos Verão ou somos Inverno. Os que ficam no meio que hibernem.

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#metoo

por Cristina Nobre Soares, em 23.10.17

 

Quando começou a circular esta hashtag pensei, não tenho nada para escrever, devo ter sido a única mulher do mundo que nunca foi assediada. Não me lembro de nenhum episódio que possa contar. Só me lembro ter aprendido a desviar os olhos na altura certa, a tapar-me, compor-me, não rir alto, a mudar de conversa, a endurecer a voz, a sair da sala no momento certo, a procurar outra com mais gente, a não andar sozinha de noite, nem em sítios vazios de dia, a fingir que telefonava a alguém e às vezes a telefonar mesmo, cheia de medo, a vestir-me de forma a que não reparassem em mim, a sentar-me de pernas juntas, a limpar o baton com as costas da mão para não dar nas vistas, a medir o tamanho dos saltos e das saias, a atravessar a rua quando ouvia uma boca ordinária, a baixar os olhos como se a culpa fosse minha, a desviar-me do bafo do gajo no autocarro, a empurrar o que me apalpou as mamas, a decorar a matrícula do táxi, a desculpar o gajo bêbado que tentou naquela noite ou aquele que ainda estava sóbrio e o que tentou trancar a porta sem que eu percebesse. Só me lembro de ter aprendido a fingir que não percebia, que não via, que não ouvia, a fingir que não acontecera. Deve ser por isso que não me lembro de mais nada. Deve ser por isso.

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Os alter egos de Bordalo

por Cristina Nobre Soares, em 23.10.17

Está a fazer um ano que tive a sorte de participar neste projecto maravilhoso. Está a fazer um ano que, juntamente com a Inês Fouto que encarnou os textos e com a Mariana Calaça Baptista que coordenou este projecto, o Parque D. Carlos I, nas Caldas da Rainha reviveu Bordalo Pinheiro.

"A Marquesa" foi um dos textos que escrevi para este espetáculo.

Há memórias boas. Esta é uma delas. 

 

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A Marquesa

 

Hoje, encontrei numa velha caixa de chapéus esta fotografia que tirei com o meu querido Rafael Augusto. Quis recordar-me de quando foi tirada, mas a minha memória já não é como era dantes. Falha-se-me. Uma maçada. Dantes lembrava-me de tudo, dos detalhes todos, mesmo aqueles que as pessoas impacientes acham comezinhos. Uma lembrança sem detalhes não é uma lembrança, é apenas tempo avulso, sem pilhéria nenhuma. Pena não ter escrito a data na parte de trás. Tenho ideia que foi num Verão, numa temporada às termas. Sempre sofri muito dos ossos. Desde rapariga nova. Uma cruz. Recomendou-me as termas o doutor Oliveira de Macedo, que tinha consultório na Rua das Flores. Seis semanas de águas sulfurosas. Um horror! Engraçado, lembro-me do dia em que foi tirada, mas da data, não. E lembro-me que nesse dia, ele, o meu querido Rafael Augusto, ofereceu-me um pequeno sapo de louça. E eu perguntar-lhe, marota, se era suposto dar-lhe um beijo, e ele a rir-se, ora, ora, que raio iria fazer uma marquesa com um príncipe de loiça? Um pândego, este meu querido Rafael Augusto. Nasceu duas casas abaixo da casa da minha tia Maria Antónia, a que me ensinou a tocar piano. Senhora austera, sempre vestida de preto, ainda que nunca tenha sido viúva. Só da boa disposição. Mas senhora virtuosa da música, com estudos particulares em Paris que quis por que quis ensinar-me a tocar. Um sofrimento. Porque foi coisa que eu sempre detestei e que me deixava umas dores fininhas, terríveis, nos nós dos dedos. Sempre sofri muito com os ossos. E com o frio também. Desde gaiata. Adiante. Quem diria, que duas casas abaixo, enquanto eu fazia escalas, de costas bem direitas, que uma menina tem de se saber sentar, a minha tia a dizer, tinha o meu querido Rafael Augusto. Nunca lhe disse, mas sempre achei que a Maria da Paciência dava uns certos ares à minha tia Maria Antónia. Que, curiosamente, também tinha um gato. Não se chamava era Pires. Não me lembro do nome do gato, que era siamês e insuportável. Como a minha tia. Tareco? Não, não me lembro mesmo, a minha memória realmente já não é o era. Que as piores artroses são as que nos chegam à memória, valha-me Deus. Voltando à fotografia: foi num Verão, numa temporada às termas. Não me lembro da data, mas lembro-me que foi no dia do baile do parque. O meu querido Rafael Augusto era dado a muitas artes, mas a de dançar era-lhe menor. Não se pode ter engenho para tudo nesta vida. Mas ainda assim, pedi-lhe uma valsa. A única valsa que pedi a um homem, ainda por cima, casado. A tia Maria Antónia se soubesse disto benzer-se-ia três vezes, uma menina tem de se saber sentar e não convida um homem casado para dançar! Pois, sim. O que ela, a minha tia, nunca soube é que sempre tive pouco de menina e mais de andorinha. Lembro-me que havia uma série de ninhos delas no telheiro da cozinha. A minha tia mandava as criadas destruírem os ninhos, que o raio dos pássaros só fazem barulho e sujam a pedra toda, mas a Gertrudes, a cozinheira não deixava. São as galinhas de Nossa Senhora, dizia ela. Mexer-lhes nos ninhos dá azar. Enquanto dançávamos no parque, contei esta história ao meu querido Rafael Augusto. Ele riu-se muito. Disse-me que eu tinha alma de andorinha. Que disparate, Rafael Augusto, onde já se viu uma mulher cheia de espartilhos e outras condições apertadas ter alma de pássaro? E ele olhou para mim, parou de dançar, pôs o monóculo no olho direito e disse rompante: Temos de tirar de um retrato! Chamou o fotógrafo, que andava na alameda a registar o acontecimento, olha o passarinho, eu rir-me que nem uma perdida e uma encomenda de papel pardo a chegar-me a casa meses depois. Uma encomenda para si, senhora dona marquesa, a minha criada de “chambre” a dizer-me e lá dentro, esta fotografia e, Deus meu, uma andorinha de loiça. Na parte de trás da fotografia, apenas uma frase sem data: Alma de pássaro, minha querida, têm todos aqueles que não se contentam em ser aquilo que os mandaram ser.

 

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Amanhecer

por Cristina Nobre Soares, em 21.10.17

Nestes novos videos “indie”a luz parece sempre de manhã. É uma luz azulada, húmida, como se nestas histórias os dias apenas tivessem começo, nunca fim. Mesmos os fins de tarde parecem amanheceres, os laranjas são tímidos, ainda frios, como tudo aquilo que começa. A madrugada está na moda e há uma geração que vê a vida como se ela começasse todos os dias, novinha em folha. Isso não é mau. Nada. Chega a ser comovente, inspirador. Todos nós, em alguma altura da nossa vida, ambicionamos que todos os dias fossem de começar. Às vezes, invejo essas novas gerações. Mas ao mesmo tempo tenho pena que menosprezem os entardeceres. Terminar os dias e desafiar a noite é desafiar a nossa mortalidade. É fácil ter esperança quando o dia começa. Difícil é mantê-la durante noite. Não faz sentido amanhecer sem termos passado pela noite. Acordar é isso.

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