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A Madonna está em Lisboa

por Cristina Nobre Soares, em 19.05.17

A Madonna está em Lisboa. Passeia com os filhos e publica fotografias no Instagram. Leva-os à piscina, inscreve-os num clube de futebol. Comenta-se por aqui que se calhar a Madonna está a planear vir viver para Lisboa. Vermos que os outros são como nós será sempre dos mais prolíficos temas de conversa. Da vida esquisita da vizinha do 2º direito, à famosa estrela pop.

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Muitos dias sem que ninguém faça nada

por Cristina Nobre Soares, em 18.05.17

Daqui a dez dias terão passado dez dias desde que o Correio da Manhã publicou um vídeo de uma rapariga a ser violada. Daqui a um mês terá passado um mês. E também terá passado um mês desde que se deixou de falar em violação, direitos de género, códigos deontológicos. Daqui a dois meses terão passado dois meses. E assim sucessivamente. Durante todos esses dias, raparigas continuarão a ser violadas, algumas mortas, a condição feminina continuará a ser uma coisa de trinta e um de boca e o Correio da Manhã continuará a vender e a ser lido em mesas de café. Durante esses dias algumas pessoas que lerem essas notícias irão chamar ordinárias a essas raparigas, dizer que tiveram o que mereciam. E vão passar muitos dias sem que ninguém faça nada.

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Per-ten-ce-mos

por Cristina Nobre Soares, em 16.05.17

Tenho pena, muita pena que não se perceba que a língua serve para muito mais do que apenas para comunicar. Que serve para nos silabarmos enquanto criaturas, que cada vez que transbordamos um ditongo ou enrolamos um cê cedilhado na boca, que cada vez que comemos o fim de uma palavra com a pressa de acabar a frase, que cada vez que amachucamos a toada das palavras no sotaque da terra onde crescemos, pertencemos um bocadinho. Pertencemos. Repitam comigo, pertencemos.

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Para quem diz que eu nunca escrevo histórias de amor

por Cristina Nobre Soares, em 16.05.17

Quando o metro arrancou agarraram-se os dois ao varão. Riram-se e ele segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Ela corou, tenho a certeza que corou, não se fica envergonhada assim sem corar, tem juízo, ter-lhe-á dito. Ele fez-lhe uma festa no rosto e desceu a mão até ao decote. Deixou-a estar ali até Entrecampos. Quando as portas abriram, um rapaz levantou-se e ofereceu o lugar, deixe estar não é preciso. O rapaz insistiu, ela voltou a dizer que não e, com um ar de orgulho vergado pelas artroses, endireitou-se e levou a mão engelhada e cheia de manchas ao cabelo pintado de louro-cobre. Ele não tinha o cabelo pintado, mas as sobrancelhas brancas e fartas fizeram-me lembrar as do Álvaro Cunhal.

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Do cheiro a eucalipto e a pinho

por Cristina Nobre Soares, em 14.05.17

Ontem, a caminho do teatro da minha filha, numa parte da estrada que rasga um eucaliptal, cheirou-me a eucalipto e a pinho. Mas não aquele cheiro volátil que às vezes sentimos nos dias de Verão. Não, um cheiro húmido e frio que só aparece depois da chuva. Perto da casa de um tio meu havia um pinhal que também tinha eucaliptos (anos mais tarde aprendi que se chama a isto um povoamento misto). Eu e as minhas primas íamos brincar para lá. Um dia, uma das minhas primas apontou para um monte de terra com uma pedra em cima e disse-me, ali está enterrado um cão que morreu. Contou-me, quase em segredo a história do cão, que me fez muito medo. Não me lembro da história. Só do medo. E que cheirava a eucalipto e a pinho. Tinha chovido de manhã.

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Do ter fé

por Cristina Nobre Soares, em 12.05.17

Não tenho religião. Comecei este post com “não sou crente”. Apaguei. Depois escrevi “não tenho fé.” Apaguei de novo. Porque todos somos crentes e temos fé em alguma coisa. Pode não ser num Deus qualquer, mas não deixa de ser fé por isso. Porque podemos acreditar no homem, na humanidade, no poder de cura das plantas, das bagas goji, no poder do amor, no dos cristais, no alinhamento dos astros, no horóscopo, no universo, na vitamina C, na D, na E, na lua , no sol, nas marés, na ciência, no conhecimento, no progresso, na democracia, na meritocracia, no pensamento critico, no poder da palavra, no que fica por dizer, na sorte, no azar. Todos acreditamos em alguma coisa, sem saber bem porquê. Uma que seja. Não percebo porquê tanto julgamento, tanta consideração, só porque que há quem acredite em milagres. Porque no fundo, todos acreditamos em milagres. Podem é não incluir o sol a girar, nem senhoras em cima de uma azinheira. Geralmente incluem apenas uma coisa, sem lógica nenhuma, à qual que costumamos chamar esperança.

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O acaso ainda existe.

por Cristina Nobre Soares, em 11.05.17

Irrita-me sobremaneira este conceito moralista do “se te esforçares, se trabalhares muito, se deres o teu melhor, o pior, e o assim-assim também, chegas lá. Se não chegaste é porque foste calão e incapaz.” É certo que nada cai do céu e que a sorte dá muito trabalho (sou a primeira a defender isto). Mas, vá, pensem lá, quantas, mas quantas vezes na vossa vidinha andaram a pedalar sem sair do sítio? Quantas vezes, depois de terem dado ao litro que nem uns loucos, se viram ultrapassados por outros melhores ou, se acaso piores, por outros mais primos? O acaso ainda existe. O cair no goto, sem se saber bem porquê, e o cair no goto à pessoa certa, também. Por isso não andem para aí a vender chuchas às pessoas com estes moralismos modernos do empreendedorismo, que o esforço, o talento e o empenho são uma santíssima trindade muito linda, pois são. Mas a sorte, aquela feita de probabilidades, também faz parte. Não me lixem.

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A avó da Patrícia

por Cristina Nobre Soares, em 10.05.17

A avó da Patrícia era uma avó como as outras. Contava histórias de quando era nova, que são as histórias que os velhos gostam mais de contar, tinha naperons de crochet por cima dos móveis, um quadro de uma menina vestida de amarelo a ler e fazia torta com marmelada. Também tinha um rádio cor-de-laranja em cima da mesa da cozinha, onde passavam músicas do José Cid e às vezes fado. Quando se comovia com uma música, a avó da Patrícia encostava-se à bancada do lava-loiça e fechava os olhos. Hoje reparei que muitas das velhas que escrevo têm essa mania de se encostarem ao lava-loiça. Se calhar também conheceram a avó da Patrícia.

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Vem aí chuva

por Cristina Nobre Soares, em 09.05.17

Vem aí chuva, dizia a minha mãe quando se ouvia a harmónica do amola-tesouras ao fundo da rua. Vem aí chuva. As minhas tias pressentiam a chuva nos ossos e nas costuras das cirurgias. A chuva não é bem um fenómeno meteorológico que se preveja. Isso é a humidade relativa ou a temperatura média do ar. A chuva não. É mais um cinzento que se adivinha no corpo. Um resto de magia que nos ficou.

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Macron e o amor normalizado

por Cristina Nobre Soares, em 07.05.17

O moralismo à volta da diferença de idades entre Macron e a mulher que ele escolheu é fantástico. Nem falo do facto de que se Macron fosse 24 anos mais velho em vez de ser mais novo isto nem sequer seria notícia. Era normal, afinal homem velho e mulher nova dão filhos até à cova. E toda a gente sabe que esta coisa muito linda do amor só tem um fim maior: o de fazer meninos. Sem isso, o amor, sobre o qual já se escreveram várias muralhas da China em poesia, é uma coisa de tarados ou de gente de pouca moral. Enfim, tristes daqueles que vivem e amam em formato normalizado.

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