Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Os ciprestes

por Cristina Nobre Soares, em 13.03.17

Lá em baixo, no pátio, os ciprestes agitam-se com o vento de uma forma ortopédica. Os ciprestes são árvores infelizes. Durante muito tempo condenadas a ensombrarem os cemitérios, hoje são obrigadas a serem figurantes mediterrânicos nestas Ágoras modernas, sem gente, nem movimento. São, por isso, árvores habituadas ao vazio e ao silêncio. Árvores feitas para que não reparem nelas, pois até a própria sombra não é mais do que uma faixa magra e inútil no chão. São criaturas que aprendem a ser invisíveis. É o que se espera delas: que se deixem ficar sem se fazerem notadas. E eu penso no tanto que poderíamos aprender sobre as pessoas se olhássemos mais para as árvores. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pensar no impossível

por Cristina Nobre Soares, em 12.03.17

Houve um tempo que eu fazia muitos quilómetros de carro. Às vezes regressava a casa já pela noite dentro. E eu, que nunca gostei de conduzir, aprendi a gostar dessas viagens, desses regressos de horas de silêncio. Fiz muitos planos durante essas horas ao volante. Mas planos disparatados, daqueles que sabemos ser impossíveis de concretizar. Até porque a piada de fazer esses planos é sabermos que nunca vão acontecer, porque servem apenas para serem pensados. E é libertador fazê-los. É um flirt com uma vida que nunca passará mais do que uma noite na nossa cama. Não temos nada a perder com esses planos. Amanhã já não nos lembramos deles. Nunca mais nos voltamos a ver. Nem é suposto. Só temos de ficar com a sensação que nos causaram. Uma loucura sem consequências. Pensar no impossível é isso: uma espécie de loucura em ampolas clinicamente testadas. Que se devem tomar uma vez ao dia, diluídas num copo com água,  para dar boas cores.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A vida é muito dada ao raquitismo

por Cristina Nobre Soares, em 09.03.17

E depois de dias cinzentos descobres que um trabalho teu, que te custou suor e lágrimas suficientes para encher um contentor, foi publicado. Dás uma vista de olhos e pensas, caraças, isto até que ficou bom.  A vida, realmente, é uma coisa muito dada ao raquitismo, e dá uma trabalheira (e dores terríveis) para a fazer crescer. Olhas pela janela e reparas que hoje está um dia espetacular, cheio de sol. Diz que é bom para sintetizar vitamina D. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não me dêem flores

por Cristina Nobre Soares, em 08.03.17

Hoje não me dêem flores. Não celebrem a minha delicadeza. Não façam poesia com a minha fragilidade. Não digam que sou sempre bonita para depois me dizerem que não posso, que não consigo, que não devo, porque não sou igual aos homens. Eu não quero ser igual. Eu só quero poder querer, querer seja lá o que for,  sem ter de pedir licença. Eu só quero poder ser eu sem ter de esperar que abram a porta por mim. Por isso não me dêem flores.Dêem-me antes o direito de poder escolher a minha vida. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Querido Salvador Sobral

por Cristina Nobre Soares, em 06.03.17

Querido Salvador Sobral,

 

Já aqui tinha dito que gostei da tua canção. Principalmente da letra da tua canção. E ontem percebi que gosto de outra coisa. De ser uma canção pensada para ser gostada, e não para ganhar. Daquele gostar que se cantarola enquanto estamos a ouvi-la na rádio, no trânsito. Daquele gostar da gente ouvir assobiar na rua e pensar, olha é a canção do Salvador. Daquele gostar de se lembrar de um bocadinho da letra, mesmo a despropósito. E tão bom quando cantamos um bocadinho de uma letra na língua em que sonhamos. Essa coisa da canção festivaleira com os ingredientes todos para ganhar é uma grande treta. Foi isso que nos fez ganhar a bendita Eurovisão? Não foi. Somos todos muito maus a tentarmos ser iguais aos outros. Não resulta. Faz-me lembrar aquelas histórias formidáveis cheias de adjectivos e lugares comuns. Toda a gente diz, ah muito bem, mas depois ninguém se lembra, porque são todas iguais, e já sabemos como acabam porque acabam todas da mesma maneira. E ninguém se lembra de um fim que já ouviu noutro lugar. A que tu cantaste, e que a tua irmã compôs para ti, a gente tem de ouvir até ao fim para saber como acaba. E no fim sorrimos, mesmo que seja só um bocadinho. São essas as histórias que nunca se esquecem. E que valem a pena.

Autoria e outros dados (tags, etc)

E depois um dia acontece-te o impensável

por Cristina Nobre Soares, em 02.03.17

E depois um dia acontece-te o impensável: pensas que hoje já não consegues redigir mais uma linha que seja. Que só te apetece esticar no sofá e olhar para anteontem. E ris-te porque te lembras da Sónia a dizer-te, tem cuidado com o que desejas, mas em inglês. A Sónia diz sempre estas coisas em inglês. A vida é tramada e sabe ser irónica com as tuas certezas de pé juntos. Caraças, se sabe. Fechas o computador e reparas que hoje o céu parece o céu dos Simpsons e que é pena que o Mário não tenha publicado nenhuma fotografia de Lisboa. A luz, lá,  deve estar brutal. E pensas que não gostas da palavra brutal, que já disseste mal dela num post e que se te ouvissem agora caíam-te logo em cima. E que isto podia dar um texto. Tanta coisa que podia dar um bom texto. Pena que já não te apeteça escrever hoje.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Solarine

por Cristina Nobre Soares, em 02.03.17

Que por continuarmos a dar valor apenas ao que brilha nos impressionamos facilmente com qualquer lasca de espelho ou conta de vidro. Haja lustro para puxar. E Solarine.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Time-sharing

por Cristina Nobre Soares, em 01.03.17

No outro dia alguém me lembrou da febre do “time-sharing”, que consistia em comprar uma ou mais semanas de utilização de um apartamento para férias. Dizia-me a pessoa que o nome “time-sharing “ era uma estupidez porque as pessoas não partilhavam tempo, mas sim um espaço. E eu dei por dei por mim a pensar que o nome até fazia algum sentido. Pois esta coisa do tempo, este recurso tão escasso, é uma espécie de bem imobiliário. E funciona exactamente como as casas.

Ora vejamos: há quem tenha casas grandes, com quatro e cinco assoalhadas de tempo, onde cabe muita gente sem se terem de preocupar muito. Outros vivem em estúdios exíguos onde só cabe uma cama e o próprio ego. Há também aqueles que, apesar de terem casas mínimas, arranjam forma de lá meter imensa gente. São pessoas que acham que tudo que na vida se resolve arredando um móvel ou outro.

O tempo, como qualquer bem imobiliário, também valoriza conforme a zona. Há quem tenha um belo apartamento de tempo em bairros de luxo. Uma espécie de Lapa da disponibilidade, aonde pouca gente chega e, muitas vezes, depois de passar dias à espera para ser convidado para um mísero cafezinho de cinco minutos. Outros tempos moram em bairros velhos e degradados, que apesar de terem imensos anos de história para partilhar, ninguém quer lá ir. Talvez pelas alturas festivas demos lá um salto, porque parece mal se não formos. São casas de tempo a que só damos valor quando ficam vazias e devolutas.

Depois há os que têm tempos muito arrumadinhos, com as almofadas todas no sítio e que perdem a cabeça com uma única migalha no tapete. À conta disso têm poucas visitas.Também há quem tenha tempos desmazelados, cheios de pilhas de roupa por arrumar aos cantos e que dizem sempre que começa o mês de Janeiro: este ano vou dar uma volta à casa. Em Fevereiro está na mesma. Os filhos também nos mudam muito os tempos, deixam os brinquedos pelo chão, as camas por fazer e um dia vão-se embora e a gente já não sabe como se arruma a casa. E há aquelas pessoas tão importantes e ocupadas que para manter a casa têm de pagar a uma empregada. Mas isto é só para quem pode.
O tempo é um bem imobiliário. Pessoal mas transmissível. Custa muito a vender. Dá-lo, então, é uma dor, que uma casa custa muito a pagar, fizemos muitos sacrifícios para a ter, não se pode dar assim às boas. Partilhá-la também é difícil. Carece de muita paciência e jeito, porque não é nada fácil ajeitarmo-nos aos hábitos uns dos outros. E há quem não dê ponto sem nó e acabe por arrendar. Partilhar a casa sim, mas com contrapartida. E que, quando se forem embora, deixem a casa como estava, sem buracos nas paredes, nem riscos no chão. Que é para não haver recordações.

Mas acima de tudo o tempo que temos agora é sempre o melhor. Não adianta andar à espera de comprar aquele tempo enorme, com uma sala comum de cinquenta metros quadrados e vista para o mar. Não vai acontecer. E se acontecer, vamos passar a maior parte do tempo a suspirar pela casinha mínima onde fomos tão felizes e não sabíamos. É a vida. Faz parte. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Para além da barraca do Warren Beatty

por Cristina Nobre Soares, em 28.02.17

É bom ver um filme como Moonligth ganhar o Oscar de melhor filme e de melhor argumento adaptado. É bom ver Viola Davis e Mahershala Ali ganharem os Oscares de melhor actriz e actor secundário. Mas é pena que Hollywood não tenha começado a fazer isto umas boas décadas antes das eleições de Novembro passado. Mas vamos sempre a tempo de abrir a pestana. Sempre a tempo.

 

Moonlight_(2016_film).png

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da nudez

por Cristina Nobre Soares, em 26.02.17

Enquanto bebo café olho pela janela. As árvores estão sem folhas e deixaram o lá fora mais aberto, talvez excessivamente nu. Reparo num caniçal que nunca tinha visto em todos estes anos que aqui estou. É um caniçal banal, uma fila de caniços que agitam a sua cabeça emplumada. De resto não vejo mais nada digno de interesse. A nudez às vezes desilude, é apenas trivialidade às claras. Talvez tenha sido por isso que inventaram o pudor. Uma espécie de copado fechado, cheio de sombras que sobrevalorizam o que não vemos.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

GA



google-site-verification: googledeb34756365df053.html