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Circo de feras

por Cristina Nobre Soares, em 01.12.17

Aprendi-lhe a letra no pátio da secundária para fingir que era rebelde. Ouvia-a quando chorei o meu primeiro desgosto de amor no colo da Filipa. Cantei-a daquela vez que regressávamos do Algarve, os vidros abertos do carro, o vento quente da tarde, a viagem e a vida toda pela frente, ainda falta, porque faltava tanto que o caminho parecia eterno. Lembrei-me dela quando o mundo se abriu debaixo dos meus pés pela primeira vez, tinha vinte anos e descobria que não era invencível. Aumentei-lhe o volume por cada vez que a vida me foi torta, e foram muitas e ela se lembrou de passar na rádio num regresso a casa qualquer. Foi isto que respondi ontem quando me perguntaram porque raio me custava tanto a morte do Zé Pedro. Foi isto.

 

 

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Aflições

por Cristina Nobre Soares, em 30.11.17

A crescente literalidade e a incapacidade de perceber ironia ou sarcasmo, que vou vendo pelas redes sociais, é algo que me aflige cada vez mais. Não há emojis que nos salvem da falta de elasticidade mental. Nem da falta de sentido de humor.

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Divagações

por Cristina Nobre Soares, em 29.11.17

É quando as pessoas me aborrecem de morte que ponho o meu ar mais atento. Mas só o faço porque sou uma dissimulada, uma cobardolas, com medo que me apanhem a pensar noutra coisa. Se me apanhassem teria de dizer, ora, essa conversa não me interessa um caracol. Às vezes até interessa, mas depois apanho um trejeito, um esgar ou uma fífia do meu interlocutor que me dá muita vontade de rir. É terrível, qualquer parvoíce me faz rir. E para não fazer má figura, que uma pessoa rir-se a despropósito no meio de um assunto sério, é coisa de gente sem juízo, ponho-me a pensar noutra coisa, como o que é que vou fazer para o jantar, os 25% de desconto na carne de novilho no Pingo Doce ou que devia arrumar os livros por ordem alfabética. O divagar tira-me vontade de rir e poupa-me ao embaraço. Quando a pessoa termina de dizer o que tinha para dizer, perguntam-me, muito interessante, não achaste? E eu digo, sim, muitíssimo, anuindo com a cabeça com um ar muito convicto. Sim, deu para perceber, estavas com um ar muito concentrado, dizem-me. E eu, mais uma vez, passo por pessoa séria e inteligente. Mal sabem eles.

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O Gaio (II)

por Cristina Nobre Soares, em 27.11.17

 

Em cima do muro ficaram alguns vasos que se tornaram pequenos demais para as aromáticas. Ficaram ali esquecidos por não lhe encontrarmos nenhuma serventia. E continuaram esquecidos porque entretanto nos apercebemos que há um gaio que nos vem beber aos vasos, que se encheram com as chuvas dos últimos dias. Dizemos que é "o gaio", mas pode ser mais do que um. Mas prefiro pensar que é apenas um e que me vem visitar. Assim parece um encontro, que dura o tempo de ele me pressentir por detrás da janela. E toda a gente sabe que os encontros dão boas histórias. Um dia poderei contar a história do gaio que vinha beber dos vasos esquecidos no muro. E contar o quanto eu ficava quieta, só para o ver mais um bocadinho, falar das penas azuis e o quanto era bonito o raio do pássaro. Há quem tenha histórias de viagens épicas, encontros com heróis e génios, aventuras intrépidas. Eu não. Porque o bonito dos meus dias é mais poucochinho, nem esticado deixa de ser insignificante. Cada um tem as histórias que merece. Ainda bem.

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A fé dos homens

por Cristina Nobre Soares, em 26.11.17

Cá fora os homens sentam-se numa fila, encostados à parede do café. Apanham o sol do fim da manhã. Não há mulheres no café, só a rapariga ao balcão, que vem desenrascar os Domingos. É normal que não haja mulheres, é hora da missa e as obrigações da igreja são coisa de fêmea. A fé dos homens da aldeia é discreta, arredia dos padres e confissões. É um credo de fim de procissão, de braços atrás das costas e cânticos só de mexer os lábios. Os homens da aldeia não rezam de mão juntas ou, caso as unam, escondem-nas por entre as pernas ou por entre a boina. A fé feita de flores, terços e lágrimas é só das mulheres. Aos homens cabe-lhes a fé de silêncios. Homem que é homem não trata de flores. Nem chora. Nem sequer por Deus.

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Da magia do Natal

por Cristina Nobre Soares, em 25.11.17

Talvez não fosse mal pensado se por cada vez que nos queixamos da falta de "magia do Natal", por causa das correrias, do consumismo, do cumprir calendário, nos lembrássemos que o problema da magia do Natal é que a transformámos em simples ilusionismo.

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Até ao próximo obituário

por Cristina Nobre Soares, em 24.11.17

Há mortes que, pela proximidade, pela ligação que tínhamos com quem morreu, nos arrasam. Outras, apenas lamentamos. Dizemos, a sério? Que pena. Mas esquecemos pouco depois, afinal não conhecíamos a pessoa, só de longe ou de ouvir falar e todos os dias morre gente. Mas depois há mortes de estranhos, que inexplicavelmente nos entristecem. São estranhos que se cruzaram connosco algures no caminho. Pode ter sido um encontro de dias ou apenas um instante. Mas que por alguma razão nos ficam. Normalmente por alguma coisa que nos disseram, daquelas coisas que nos ficam a moer por dentro por tanto sentido que fazem e que, por isso, tornam esses momentos absurdamente claros. São momentos de uma limpidez quase de ficção, porque a realidade é, na maioria das vezes, lembrada com ruído, com fantasmas daqueles que apareciam nas televisões antigas. Mas esses momentos não. Como se a memória quisesse garantir que nunca nos iremos esquecer. E ficamos a pensar, um dia tenho de lhe dizer que aquelas palavras foram muito importantes. Claro que não dizemos. Se não o fazemos com quem conhecemos muito menos o faremos com estranhos. O medo do ridículo atavia-nos, empeça-nos, adia-nos. Temos tempo. Até ao próximo obituário, onde nos voltamos a lembrar que não temos tempo, coisa nenhuma. Às vezes acho que as pessoas só morrem para nos fazerem lembrar de tudo aquilo que não dizemos.

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A psicologia das árvores: as folhas vermelhas do bordo

por Cristina Nobre Soares, em 23.11.17

 

Há uma piadola que se conta entre recém-chegados à engenharia florestal: “A folha de plátano da bandeira do Canadá não é de plátano, mas sim de bordo.” O bordo de onde se extrai o famoso “maple syrup” que tanto adoçava as histórias da Anna of Green Gables. Lembro-me quando era miúda ficar muito desiludida por, no Outono, nunca conseguir encontrar uma folha de plátano vermelha. Eram todas castanhas douradas ou "castanho-estrela", que era como eu chamava a esse tom de castanho. Vermelhas, não. Cheguei a pensar que não existiam, que eram uma fantasia e deixei de as procurar. Passaram muitos anos até que eu percebesse que andava à procura de algo na árvore errada. Coisa que nos acontece muito ao longo da vida: o desengano de procurar as folhas na árvore errada. Sendo que as folhas podem ser uma metáfora para aquilo que realmente somos.

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Trivialidades

por Cristina Nobre Soares, em 18.11.17

O gesto de amor mais bonito que vi foi entre um homem feio e uma mulher feia. Costumava vê-los à porta da escola. Eram os dois feios. Mas não feios de nascença. Tinham aquela fealdade que só a pobreza e as privações trazem. Aquela fealdade suja e crespa, feita de cansaço, de faltas, de desistência, de roupas gastas. Vinham sempre de mãos dadas. Um dia, ele afastou-lhe o cabelo do rosto e ela, muito doce, sorriu e encostou o rosto no ombro dele. Por alguma razão naquele gesto sobraram-me todas as histórias de amor perfeitas e eu senti-me mesquinha por os ter achado tão feios. Naquele momento pareceram-me as pessoas mais bonitas do mundo. Conto sempre esta história quando me pedem uma história bonita. Mas a beleza é relativa, dizem-me. Pois é, respondo. É relativa por depender tanto da nossa capacidade de nos comovermos com as trivialidades da vida.

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Vaidades

por Cristina Nobre Soares, em 15.11.17

Uma das muitas coisas que faço com a escrita, para ganhar a vida, é “dar jeitinhos” nos textos de outras pessoas. Uns vêm apenas com uma ideia e faço o que me apetece deles, outros já vêm escritos, mas pedem-me para lhes dar um jeitinho, para ficarem mais fáceis de ler, mais bonitos. No fundo faço arranjos de costura, mas com palavras. Subo umas bainhas, transformo umas calças numas bermudas, alindo-os com uma grega ou fita de gorgorão, dou-lhes um aperto nas costuras para não ficarem tão largueirões ao corpo de quem os escreveu, às vezes até o corte lhes tenho de corrigir. Também dou conselhos de moda: digo o que lhes fica melhor, o que devem e não devem vestir, consoante a ocasião, as cores a evitar, os melhores tecidos e padrões, quais os modelos intemporais que dão sempre muita classe a quem os veste. Tenho tanto de costureira como de modista. E faço peças só minhas, modelitos exclusivos, que me servem só a mim e que venho aqui passear. Ah, que bem que te fica, dizem-me às vezes. E eu fico toda contente. Todos temos as nossas vaidades.

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