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Idade para ter juízo

por Cristina Nobre Soares, em 07.08.17

Eu teria uns dezassete anos quando me inscrevi numas aulas de aeróbica. Só consegui vaga na turma da noite. A maior parte das mulheres dessa turma eram muito mais velhas do que eu, assim pela idade das mães das minhas amigas. Algumas delas conheciam-se de há muitos anos, da juventude, e o professor pelos vistos tinha partilhado essa juventude com elas. Trocavam piadas que só eles percebiam, ele punha músicas do tempo deles para acompanhar os exercícios e aparvalhavam muito. Pareciam uns miúdos, mas não eram porque tinham idade para terem juízo. Pessoas daquela idade deviam perceber que não se podiam comportar como miúdos. E eles não eram, notava-se bem. Tinham rugas, já não enganavam ninguém, pareciam mesmo a idade que tinham que, curiosamente, eu nunca soube ao certo qual era. Suspeito que teriam a idade que tenho agora. O que significa que seria suposto eu ter juízo. Enfim.

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Das epifanias

por Cristina Nobre Soares, em 05.08.17

Tinha 30 anos feitos há pouco mais de três meses quando a minha filha nasceu. Tinha 30 anos e, ao contrário de muitas mulheres que desejaram desde pequeninas ser mães, que se prepararam, que esperaram ansiosas por esse momento, eu nunca tinha pensado muito no assunto. Quando me trouxeram a minha filha, depois de uma cesariana de última hora, foi um momento bonito, mas não tive epifania nenhuma. Agora é mãe e vem aí o instinto todo, disse-me a enfermeira Alice. Vem? Ainda hoje estou à espera dele.

Não levamos só um filho para casa. Levamos também uma vida nova, muito diferente da anterior. E ninguém nos avisa disso. E às vezes essa vida nova não nos serve muito bem ao corpo. Ser mãe é aprender a alargar e apertar costuras desse novo fato. É, também, aprender a abrir mão daquilo que éramos antes. Ser das primeiras a ser mãe, é habituarmo-nos a que os convites para saídas se tornem cada vez mais raros. É deixarmos de ter tema de conversa com as amigas que ainda não tiveram filhos. Convenhamos, quem é que tem paciência para ouvir horas e horas de conversa sobre cocós e bolsados? Ninguém. Ser mãe é habituarmo-nos que deixem de perguntar como estamos e que só perguntem pelo bebé. Ser mãe é habituarmo-nos a ouvir todo o tipo de palpite, crítica e bitaite.

Até que um dia, a bater mal pelas noites mal dormidas, pelos duches por tomar, pelas olheiras até ao queixo, pelo choro que nos leva à loucura, pelas críticas feudais das outras mães, pelos amigos que se evaporaram, damos por nós a chorar num canto da casa de banho, a acharmos que somos as piores criaturas do mundo, só porque não tivemos um raio de uma epifania qualquer, porque não andamos em unicórnios de felicidade e porque temos saudades da nossa vida anterior. Damos por nós a chorar até ao osso, por acharmos que o filão do ouro só calha às outras e a nós apenas uma pirite dourada, sem valor nenhum. E a culpa deve ser nossa. Só pode ser. É porque fizemos alguma coisa de errado, é porque somos más pessoas. Só pode ser. A filha da mãe da culpa. Que nos fica ali a rasgar por dentro, a consumir.

Mas um dia, por mero acaso, descobrimos que há mais mulheres assim. Que passaram pelo mesmo do que nós. E falamos, perdemos o medo, exorcizamos. Deixamos de ter vergonha. Largamos aquela asfixia e dizemos em voz alta: não somos más mães. Somos mulheres possíveis. E essa é que é a verdadeira epifania. Pena que se fale pouco disso.

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Os nossos pais

por Cristina Nobre Soares, em 04.08.17

Às vezes tenho uma profunda inveja dos nossos pais. Criavam-nos no pressuposto que não tinham de ser as pessoas mais importantes, mais decisivas, mais formidáveis da nossa vida. Criavam-nos na honestidade que o melhor que faziam seria o suficiente. Se não fosse, paciência, que nós um dia iríamos perceber que eles só eram humanos. Não viviam angustiados por estarem ausentes, por trabalharem demais, por gritarem, por não terem paciência, por se estarem a borrifar se a nossa escola tinha o melhor ou o pior ranking. Deixavam-nos crescer na generosidade que as nossas melhores memórias podiam não os incluir. Não estavam à espera de serem os nossos heróis, só os nossos pais. Não estavam à espera de serem pais medalhados, condecorados, impossivelmente melhores, companheiros formidáveis. Estavam a borrifar-se se os pais dos amigos eram melhores, se eram melhores pais do que os pais deles tinham sido. Eram pais que às vezes ficavam mal na fotografia, sabiam que a vida é uma coisa pouco fotogénica. Nós, os filhos deles, é que andamos enganados com as nossas existências cheias de Photoshop. Até porque eles, os nossos, pais, não queriam ser melhores pais, só ter melhores filhos.

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Xula, carteirista do 28

por Cristina Nobre Soares, em 03.08.17

A história do Xula, carteirista do 28, gajo finório que nunca deixou que lhe pusessem a mão em cima e que, cansado da vida, resolveu assentar a vender mistas de marisco a 250 euros num restaurante com nome estrangeiro, dava uma boa revista à portuguesa. Ou isso ou um fadinho corrido.

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Cheiro a pão e bolos

por Cristina Nobre Soares, em 02.08.17

Houve um Verão em que fomos de férias com primos. Eu, do alto dos meus catorze anos, cheios de inseguranças e certezas, era a mais velha dos mais novos. Desse Verão lembro-me das tardes na praia, esticadas ao limite, quase, quase a anoitecer, só mais um bocadinho, vá lá, dos baldes cheios de conquilhas, das filas para tudo, do ir comer camarão e caramelos a Espanha, das noites quentes a arderem no escaldão dos ombros, do cheiro a óleo de coco e a creme Nívea, da vez em que tentamos indrominar os pais e nos escondemos para ficarmos a pé até tarde, não conseguimos, das conversas parvas pela noite dentro, com a música dos arraiais em pano de fundo, e do cheiro a pão e bolos assim que abríamos a janela de manhã. A casa ficava ao lado de uma padaria. Hoje, enquanto bebia café cheirou-me a pão e bolos e deu-me ideia que um dos meus primos me arreliava, ali, por cima do ombro. O tempo tem esta mania de, a despropósito, nos parecer logo ali ao lado.

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Fast car

por Cristina Nobre Soares, em 31.07.17

Há um homem na praça, que canta um cover do Fast Car da Tracy Chapman. Há uns vinte e tal anos houve um Verão em que eu sabia a letra desta canção de cor. Desta e de muitas outras. Saber umas letras tinha a sua utilidade, pois havia sempre alguém que tocava viola. E enquanto o homem canta, reparo que ainda sei a letra quase toda. O que é estranho, dado que actualmente nem a lista de supermercado consigo decorar, tenho de escrever tudo, e depois de a escrever esqueço-me dela em casa. Devia haver a possibilidade de reutilizarmos memória. A partir de certa idade dava um jeitaço.

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Renda a metro

por Cristina Nobre Soares, em 30.07.17

Ao fundo da rua, à soleira da porta, mesmo antes de chegar ao largo da igreja, está uma velha. Bom dia, diz-nos. Bom dia, respondemos-lhe. Não dizemos mais nada e ela fica ali, à soleira da porta, a ver-nos subir a rua. Ao lado dela há uma janela com cortinados de renda. Não daqueles bordados à mão, que vieram na arca do enxoval. São daqueles feitos com renda a metro que se compra nos armazéns dos tecidos e que está ao lado daqueles tecidos estampados com fruta e colheres de pau para fazer cortinas para a cozinha. Que depois se penduram com um esticador. Afinal, para a cozinha não é preciso grande cerimónia. Já para a sala não, têm de ser pendurados com uma coisa mais composta a tapar o vão. Como uma sanefa forrada de brocado, a condizer com as almofadas do sofá. Que o da velha da soleira da porta deve estar tapado com uma manta de rosetas tricotadas. Uma de cada cor, em fundo de lã preta. A Dona Maximina, a modista da minha mãe, tinha uma dessas. Eu entretinha-me a contar os quadrados e as rosetas enquanto faziam a prova. Mas a Dona Maximina não era velha, só parecia. Olho para trás. A velha que nos disse bom dia ainda lá está.

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Probabilidades e cálculo combinatório

por Cristina Nobre Soares, em 26.07.17

- Epá, tu estás sempre no Facebook! 

- Não, não estou sempre no Facebook.

- Não, desculpa, estás mesmo sempre. Farto-me de ler posts teus.

- Bom, se os apanhas todos ou é porque tens as minhas notificações activas ou então é porque tu é que não sais do Facebook.

- Não, eu raramente lá vou. Não tenho paciência.

- Então como é que vês os meus posts todos?

- Não sei. Deve ser uma questão de probabilidade.

- Deve.

 
 
 

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A compreensão é lenta

por Cristina Nobre Soares, em 25.07.17

A compreensão é lenta. Porque há palavras que só as compreendemos muito tempo depois. Como se o seu verdadeiro significado, aquele implícito na intenção com que foram ditas, ficasse suspenso entre o que ouvimos e o que realmente quiseram dizer. E um dia, a propósito de uma lembrança, de uma conversa trivial ou por não termos mais nada em que pensar, elas regressam despidas do que subentendemos, nuas, tal como vieram ao mundo. Nesse momento, curiosamente, ao contrário de todas as expectativas e medos, não acontece nada. Rigorosamente nada. Não há sequer desilusão. Apenas compreensão, que é a lucidez resignada da vida.

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Farófias

por Cristina Nobre Soares, em 21.07.17

Não gosto de farófias. Acho que é uma sobremesa deslavada, onde nem o leite-creme se aproveita e aquelas claras em castelo leitosas não me convencem. Ah, isso é porque não nunca provaste as farófias de não-sei-quem, que são uma especialidade. Não vale a pena, já provei farófias de inúmeras autorias e sabem-me sempre ao mesmo: a deslavado. Mas, invariavelmente, não me livro de um catecismo sobre as virtudes das farófias, que deve ser uma sobremesa com imenso pedigree, a quem, pelos vistos, toda a gente deveria prestar vassalagem, assim uma espécie de Ingmar Bergman da doçaria. Que também não aprecio, faz-me sono, tenho uma cabeça fraquita para conversa sueca a preto e branco. Não, não gosto de farófias, insisto. Uma vez argumentei que de pudim Molotof gostava. A pessoa olhou-me horrorizada e esganiçou-se um bocadinho, mas isso não tem nada a ver! É a mesma coisa que estar a comparar caramelos gourmet com aqueles de Badajoz. E eu pensei, ora com piñones são bem bons. E nem precisam de ser de Badajoz, os de Ayamonte também marcham. É por estas e por outras que nunca hei-de chegar a lado nenhum.

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