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Delito de opinião

por Cristina Nobre Soares, em 13.04.17

Tenho um namoro de janela, já com alguns anos, com o blogue "Delito de Opinião". Fiquei toda contente quando o Pedro Correia me pediu um texto, como quem diz, sobe e entra um bocadinho. E eu não me fiz de rogada.

(Obrigda, Pedro)

 

 

 

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Bombons de ginja

por Cristina Nobre Soares, em 12.04.17

No supermercado, junto à caixa, há uma pilha de "Mon chéri". Estão em promoção por causa da Páscoa. Não gosto de "Mon chéri", sabem-me a bagaço. Bombons de ginja bons eram uns da Regina, embrulhados em papel de prata azul e branca, que o meu pai costumava comprar à minha mãe. Estes são para a vossa mãe, avisava-nos. Para reforçar a segurança a minha mãe guardava-os numa bomboneira de cristal, na última prateleira da estante da sala. Mas nem isso me demovia. Punha-me em bicos dos pés num dos tamboretes e levantava com muito cuidado a tampa, mas o raio da bomboneira denunciava-me sempre com um gemer agudo que se ouvia ao fundo do corredor. O que é certo é que valiam a pena a trabalheira e o ralhete que vinha depois. Ou se calhar valiam a pena por causa disso. Os gostos também se fazem daquilo que nos vale a pena lembrar.

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Tremoços

por Cristina Nobre Soares, em 09.04.17

Vejo pela enésima vez o filme “Love actually”. Já nem me dou ao trabalho de o ver desde o início. Não preciso. Conheço os diálogos de cor, antecipo-os. Antecipar uma fala de um filme é como acabar a frase de alguém que conhecemos muito bem, um sinal de cumplicidade. Uma vez citei uma frase deste filme num jantar de pessoas muito cultas. Mas citei-a com a mesma convicção de quem fala de François Truffaut ou de Tarkovsky. Ainda assim a minha intervenção pareceu um prato de tremoços num jantar de lagosta suada. Paciência, o meu sentido de oportunidade nunca foi dos melhores. Para além disso prefiro de longe um prato de tremoços a um de lagosta. Não precisam de mesa posta e tenho a ideia de que não há receita para fazer tremoços fingidos.

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A Rosa

por Cristina Nobre Soares, em 08.04.17

A Rosa era da minha turma do sétimo ano. Era um ano mais velha e já tinha corpo de mulher feita, com as mamas muito espetadas e uma cinturinha que ela exibia com uns cintos elásticos que se compravam na retrosaria. Era uma morenaça de olhos muito grandes. Sempre que os rapazes falavam com ela ria-se muito, mas sem ser aquele riso parvo e vermelhusco que as outras faziam. Era um riso levezinho, com uns dentes brancos e certinhos, de cabeça ligeiramente inclinada. A Rosa era a miúda mais gira da turma. Todas as raparigas queriam ser como ela. Imitavam-na na forma de vestir e de espetar o peito. Eu também cheguei a comprar um cinto elástico, mas fazia-me imenso calor e saía do sítio sempre eu me mexia, simplesmente porque eu não tinha cintura, e acabei por mandá-lo às urtigas. Não valia a pena, a Rosa estava uns campeonatos acima do meu. Fiquei desolada. Até que o Luís Miguel, que era o melhor aluno da turma, convidou-me, com os olhos a meia haste, para ir resolver equações com ele. E disse-me baixinho, sabes, eu gosto mais de raparigas espertas. Enfim, o Luís Miguel era um bocadinho tótó, mas pelo menos tinha olhos azuis. Nesse dia aprendi duas coisas: a carneirada é um nicho de mercado que não interessa um caracol e a noção da realidade traz-nos seguramente mais vantagens que uma cinturinha fina.

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A Dona Odete

por Cristina Nobre Soares, em 05.04.17

Há uma mulher a falar ao telemóvel no meio da rua. Fala excessivamente alto, toda a gente ouve a conversa. Usa um vestido com padrão animal ainda mais estridente que o tom de voz. Há qualquer coisa nela que me faz lembrar a Dona Odete, a dona da papelaria do meu bairro. A Dona Odete usava um cabelo muito armado e uns vestidos garridos. Tinha um ar agastado e estava a sempre a discutir com o marido, que era quem tirava as fotocópias. Mas o pior era a filha, a Célia. A Dona Odete nunca sabia da filha e vinha chamá-la para a porta da papelaria, com uma voz esganiçada que estoirava dentro da cabeça de quem passava: Ó Céeeelia! Ó Céeeelia! A Célia, que era uma adolescente terrivelmente enjoada, acabava sempre por aparecer. Quando a mãe lhe perguntava onde é que ela tinha estado metida respondia, estava ali na praceta a pintar as unhas. Os clientes entreolhavam-se e sorriam de fininho. Não sei se alguma vez a Dona Odete chegou a descobrir que a manicure da Célia se chamava João Paulo e tinha uma mota em segunda mão.

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Esforço

por Cristina Nobre Soares, em 05.04.17

A minha filha pergunta-me se com esforço conseguimos tudo. E eu minto-lho e digo-lhe que sim, quase tudo. Não lhe falo do acaso, da sorte, do azar, das coincidências, dos absurdos, da ironia da vida. Não lhe conto que a vida, muitas vezes, é um resultado matemático de probabilidades, com quatro ou cinco casas decimais à direita do zero. Ínfimo. Sim, se te esforçares consegues, repito. A minha função é fazê-la acreditar nisto. A dela é descobrir que o esforço é apenas o nome suado que damos à esperança

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A propósito do dia mundial do livro infantil

por Cristina Nobre Soares, em 02.04.17

Livro Os Sotãos Furados Verbo.jpg

 

Não me lembro quantos anos teria quando me deram este livro. Mas lembro-me que o li tantas vezes que a capa acabou por se descolar. Um grupo de miúdos que vai furando os sótãos de um quarteirão de prédios e aumentando o grupo de amigos. A minha primeira lição sobre deitar abaixo barreiras. Sobre o verdadeiro tesouro que pode estar do outro lado da parede: os outros.
O livro trazia ainda outra história, sobre uma menina chinesa que se liberta da horrenda tradição chinesa dos pés-de-lótus. Os livros têm disto: abrirem-nos o mundo para sempre. E quanto mais cedo melhor. 

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Toda a gente diz mentiras

por Cristina Nobre Soares, em 01.04.17

Toda a gente diz mentiras. Todo o tipo de mentiras. A mentira piedosa. A que dá jeito. A que nos safa o pêlo. A hipócrita. A corbadolas. A que se diz para não parecer mal. A tapa-buracos. A descarada, sem pingo de sentimento de culpa. A culpada, desajeitada, de olhos no chão. A que lança areia para os olhos, dos nossos e dos outros. A que nos tapa as vergonhas. A despeitada, a contorcer-se de dor de corno. A que de tão repetida que quase que acreditamos nela. A omissa, que que por ficar calada acha que é menos mentira que as outras. A armada aos cágados. A que gosta de fazer os outros de parvos. A que se diz para nos fazer parecer espertos. Toda a gente diz mentiras. A começar por quem jura que nunca as disse.

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Percepção

por Cristina Nobre Soares, em 31.03.17

Fim de Março: pessoas em t-shirt ao lado de outras de gola alta e casacão. A percepção do mundo que cada um tem é realmente um mistério tramado para desvendar.

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Guia de tipos de posts do Facebook

por Cristina Nobre Soares, em 29.03.17

A boca – É o mais comum dos posts. Um bom utilizador do Facebook terá que dominar em pleno este estilo. É uma manifestação rápida acerca de um tema sobre o qual toda a gente fala. Por norma é constituído por uma, máximo duas frases, não mais.

O remoque – É uma variação da boca, mas possuindo uma larga dose de despeito e rebarbação. É sempre dirigido a alguém, embora nunca se diga a quem. Por norma este tipo de post começa com “Há pessoas que…”.

O bitaite – Outra variação da boca. Distingue-se desta se começado por “Eu acho que…” ou “ Na minha opinião…”. O bitaite só é bitaite quando escrito em tom de verdade absoluta, caso contrário poderá ser facilmente confundido com uma simples boca.

A piadola - Toda a gente acha que consegue fazê-la, mas nem por isso. Mais uma variação da boca, nem sempre atinge o seu objectivo, por não ter piada nenhuma. A única forma de a distinguir é pela quantidade de "ahahahah", "eheheheh" e de "     ", na caixa de comentários.

A abespinhação – Começou por ser uma espécie de superlativo indignado do bitaite, no entanto tem ganho um número cada vez maior de adeptos, fazendo escola no tipo de posts de Facebook. Reconhece-se facilmente pelo tom zangado não só do próprio post como dos comentários respectivos. O comentário a uma abespinhação não poderá ser, em situação alguma, razoável ou de opinião neutra. A abespinhação alimenta-se de outra abespinhações.

A declaração de interesses - Este tipo de post engloba uma série de temáticas, sendo obrigatoriamente exclamativo. Poderá ser sobre coisas tão díspares como a opinião sobre um hambúrguer gourmet, um filme (Gostei muito! Adorei!!) ou mesmo para fazer declarações fofinhas a terceiros, do género: És a luz que me ilumina! Adoro-te!

A lamúria - Variação menor da declaração de interesses, normalmente em tom de choradinho, sobre alguém, a chuva, o frio, as segundas-feiras, a falta de wi-fi . Ninguém liga muito a este tipo de post.

A citação – Na sua grande maioria da autoria de Einstein, é muitas vezes uma alternativa eficiente ao remoque, uma vez que “não fui eu quem disse, mas sim uma pessoa credível e famosa”.

A posta de pescada – Combina a boca com a declaração de interesses, mas de forma erudita, citando e partilhando fontes credíveis. Há também a posta de pescada em vertente lírica, por norma carregada com pelo menos quatro adjectivos e usando vocabulário em desuso desde o século XIX.

O relambório – Ainda por definir. Ninguém lê.

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