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Cayman Islands

por Cristina Nobre Soares, em 12.06.17

Há dez anos (mais mês, menos mês) eu abria o meu primeiro blogue. Já não escrevia há uns bons anos. Isso ficara lá atrás, nos prémios literários do liceu, no jornal da associação de estudantes, no pasquim literário da faculdade. Umas escrevinhices próprias da juventude, diziam-me as pessoas muito sérias. E eu, que entretanto também me tinha tornado uma pessoa muito séria, também acabei por dizer isso. E deixei de escrever. Até que um dia abri um blogue só porque sim, e com aquele trôpego de quem não dá uso às pernas há muito tempo voltei a escrever. Nesse mesmo dia descobri esta música num outro blogue que já seguia. Hoje dizem-me que é uma música muito “indie”. Não me interessa. Para mim é a música do dia em que voltei a escrever.

 

 

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O vazio das ruas

por Cristina Nobre Soares, em 10.06.17

Estranho sempre as ruas ao fim-de-semana. Fazem-me pena, têm um ar desolado. Não se vê ninguém. Pergunto-me se as pessoas estarão em casa, a tratar das tarefas domésticas ou espojadas no sofá. Ou se calhar a almoçar em casa da mãe, da sogra ou de um amigo que não veem há muito tempo. Como o bom tempo se calhar estão todas na praia. Talvez fujam todas para parte incerta ou convirjam todas para um mesmo sítio que desconheço. É uma coisa que me intriga, este vazio das ruas.

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Do perdoar e do esquecer

por Cristina Nobre Soares, em 08.06.17

Engraçado como as pessoas acham que perdoar é um acto de coração e esquecer um acto racional. Eu acho exactamente o contrário. Perdoar é uma racionalidade generosa. Perdoamos porque queremos, porque achamos que devemos, porque achamos que tem de ser. Esquecer não é assim, é só emoção porque não se controla. Não se decide, eu nunca mais me vou lembrar disto, porque há coisas que se lembram com o corpo inteiro. É o cheiro, a música, a luz daquele dia, a rua que é remotamente parecida, e lá vem aquela moinha que dói, não se sabe bem onde, e lembramos. Não é rancor, é um tempo que passa dentro de nós devagar, tão devagar que demora mais que o envelhecer. Depois, um dia, lembramo-nos que já não nos lembramos daquilo há muito tempo e dizemos, olha, passou. Nesse dia sabemos que podemos voltar a ser estranhos. Que é o mais parecido que temos com o começar de novo

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Glamour

por Cristina Nobre Soares, em 07.06.17

Faço uma pausa no trabalho e venho à janela ver as pessoas passarem. A esta hora já se vê muita gente. Umas leem as notícias e arreliam-se muito. Há uma que protesta por causa de um carro mal estacionado, tem toda a razão sim, senhora, é uma malandragem sem respeito pelos outros. Outra faz anos, há quem lhe acene com os parabéns. A ver se não me esqueço de lhos dar lá mais para a tardinha. Outro avisa que vai de férias, volto para a semana, sortudo do caraças, tomara eu. Uns vão a caminho de qualquer coisa, outros ficam em casa a tirar fotografias aos gatos. Há mesmo muita gataria por aqui. Saio da janela e penso que me dava jeito fumar. Se fumasse diria que apagava o cigarro com um gesto distraído (ou lânguido, que as pessoas lânguidas ficam logo com ar de filme noir). Enquanto apagasse o cigarro lançaria um último olhar à janela e faria uma breve reflexão de metafisica de trazer por casa. Não fumando, lá terei de terminar este texto dizendo que fechei a janela do Facebook sem languidez nenhuma. Só mesmo preguiça. Tenho realmente uma vida sem glamour nenhum.

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A escrita precisa de rugas

por Cristina Nobre Soares, em 06.06.17

Volta e meia dizem-me, gostei muito daquele texto que escreveste. E depois falam-me de uma coisa escrita há muito tempo. Eu agradeço, mas muitas das vezes nem faço ideia de que texto estão a falar ou sequer me lembro de o ter escrito. Depois leio-o e custa-me sempre. Porque mudava isto e aquilo e mais aquele outro. Ou quase tudo, porque não me reconheço em quase nada. Fico sempre com sensação que escrevi aquelas linhas cedo demais. Está tudo forçado e esticadinho, cheio de ingenuidade luzidia e má pontuação. Definitivamente a escrita precisa de ter rugas e alguma oxidação para se escrever.

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Ausência de acontecimentos

por Cristina Nobre Soares, em 05.06.17

Falamos sobre ir a concertos, a festivais, ao cinema, a feiras, a arraiais, a lançamentos, a apresentações, a festas, a jantares, a almoços, a workshops, a oficinas, a aulas, pós-graduações, a seminários. E enquanto esta conversa de vozes avulsas vai ficando ao longe e intermitente, eu lembro-me da última vez em que fiquei sem fazer nada, sem esperar ninguém a não ser a mim mesma, nem nenhuma hora ou atraso, sem aprender nada de novo e absolutamente interessante, sem fotografar, nem fazer qualquer tipo de registo ou partilha. Havia flores de choupo no ar e eu desejei, enquanto uma velhota parecida com uma tia minha passava por mim, que a Primavera acabasse depressa por causa das minhas alergias e tive um bocadinho de frio por causa da blusa verde de manga cava, que trazia vestida. Foi uma memória nítida como as que temos sobre as coisas importantes. Algo de muito estranho se passa nas nossas vidas quando o maior acontecimento é a ausência de acontecimentos.

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Uma personagem do Corto Maltese

por Cristina Nobre Soares, em 03.06.17

Perto de uma das bancas há uma mulher a fumar. A luz do candeeiro ilumina-lhe parte da cara. Faz-me lembrar uma personagem do Corto Maltese. Fala com alguém de outra banca. Enquanto fala vêem-se-lhe umas gengivas muito escuras e leva o polegar da mão do cigarro ao maxilar. A Maria da minha turma do nono ano tinha as gengivas assim, escuras, o mesmo tique a fumar e um namorado muito mais velho. Gabava-se das proezas que fazia com o namorado e dos charros que fumavam. O namorado era um betinho que tinha uma casa no Restelo e outra no Algarve. A dada altura a Maria deixou de vir às aulas. Contaram-se muitas histórias sobre a Maria. Que tinha engravidado do namorado, que tinha deixado de estudar. Que se tinha metido em cenas pesadas e estava a fazer uma desintoxicação. Nunca soubemos o que lhe aconteceu. Uma vez, há muitos anos, tenho a certeza que vi a Maria. Eu descia a Casal Ribeiro e ela estava debaixo de um candeeiro com um trólei na mão. Um carro passou, ela acenou e riu-se com as gengivas muito escuras. 

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Treze coisas que aprendi nestes teus treze anos:

por Cristina Nobre Soares, em 02.06.17

 

1. Que não se põe um gorro de lã, em Julho, na cabeça de um bebé.
2. Que os dentes aparecem quando bem lhes apetece. Assim como o andar. E a fala. Não vale a pena. Os manuais e os percentis são uma grande treta. Não gastes dinheiro nisso.
3. Que os bebés choram numa frequência que te leva à loucura em 5 segundos. Darwin é capaz de explicar isso.
4. Que quem fica à rasca no primeiro dia de infantário somos nós e não a criança.
5. Que os senhores da Fisher-Price deviam deixar-se de mariquices e passar a vender caixas de molas para a roupa. Apenas.
6. Que as idas à praia nunca mais serão as mesmas
7. Nem as idas à casa de banho.
8. Que todas as mães gritam e perdem a paciência. (Não acredites se te disserem o contrário. São umas falsas. E a mãe do Ruca não conta)
9. Que há pediatras com uma paciência de santo.
10. Que tens um ouvido apurado para as aflições. Mesmo quando os filhos não dizem nada, as dores deles são estridentes cá dentro. E que esse “está tudo bem” não convence ninguém.
11. Que nos trinta segundos que demoras a atender o telemóvel, sou capaz imaginar 724 coisas diferentes e verdadeiramente horriveis que te podem ter acontecido.
12. Que vais ter trinta anos e ainda vou gostar de te ver dormir. E aconchegar a roupa. E ficar-me ali a babar.
13. Que eu até posso prometer que não te vou ligar todos os dias quando fores crescida. Mas é mentira. Paciência.

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Livros que me marcaram

por Cristina Nobre Soares, em 01.06.17

Abre hoje a Feira do Livro. Talvez por isso me peçam para indicar dois ou três livros que me tenham marcado. Depois de reflectir bastante sobre a minha bagagem literária cheguei à conclusão que foram estes:

• O meu missal ( Só tinha a parte chata da missa, as canções eram compradas à parte. E a minha mãe nunca foi na fita.)
• Cálculo diferencial e integral (É que nunca mais fui a mesma. Nunca mais.)
• Nigella Express (engordei 5 quilos à conta deste livro)

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O homem das castanhas

por Cristina Nobre Soares, em 31.05.17

Naquela tarde cheguei da Feira do Livro com a obra poética do Ary dos Santos. O meu pai olhou de soslaio para a chancela. Trocámos umas palavras azedas sobre política. Depois umas frases exaltadas, até que ficámos em silêncio, naquele silêncio que era sempre mais uma surdez, porque o ressentimento é surdo, não é mudo. Então, eu li-lhe o homem das castanhas. No fim, ele olhou para mim com aqueles olhos irónicos e esverdeados e disse-me, realmente ele escreveu poemas muito bons. Apesar de tudo. Eu podia ter retomado a discussão a partir do apesar de tudo. Em vez disso li-lhe outro poema. E depois outro. Até que a minha mãe nos chamou para jantar.

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