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Dos espíritos

por Cristina Nobre Soares, em 18.01.18

 

Resolvo terminar o trabalho por hoje. Foi um dia produtivo, mas também cansativo. Olho pela janela. O fim de tarde enevoou. As árvores nuas em contra luz ganham um contorno de espíritos. De espíritos, não de fantasmas. Quando era criança tinha muito medo de fantasmas. A Patrícia contava-me histórias arrepiantes de mortos e almas penadas só para me assustar. Eu ficava aterrorizada e, à noite, não conseguia a adormecer. Todos os sons da casa ganhavam corpo e medo. Só o vulto das árvores da praceta, por detrás do cortinado, me tranquilizava. Lembrava-me de uma história que tinha lido, uma lenda índia norte-americana, que contava que as árvores eram grandes espíritos que olhavam pelos homens. Elas já cá estavam quando chegámos e olham por nós. Acreditar nisso fazia-me adormecer. Contei-a à minha filha quando ela era pequena. E contei-lhe das sequóias da América do Norte, que dizem que alguma são tão grandes e tão velhas, que se consegue ouvir a água a correr-lhes pelos vasos. Como se tivessem um coração por dentro. Como se fossem velhos espíritos. As histórias, mesmo as mais improváveis, serão sempre a melhor forma de enfrentarmos os medos.

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Barricadas

por Cristina Nobre Soares, em 17.01.18

Uma vez, a propósito de um caso de uma mulher da vizinhança, que, após anos a levar pancada do marido, tinha saído de casa com os filhos e feito queixa na polícia, alguém disse: sempre se soube que ele lhe batia e agora é que anda toda a gente a falar nisto. Antes ninguém fez nada. Fingiam que não viam. E era verdade. Até a mulher dar o grito do Ipiranga, toda a gente fingia que não via, cumprimentavam o homem com se nada fosse. E mesmo sabendo que as sessões de pancada aconteciam sempre que ele bebia, nunca este homem terá bebido sem a companhia dos “amigos do costume”. Às vezes, falava-se por detrás, nas costas, coitada, a cruz que aquela mulher tem, coitada. Mas não passava disso. Quando a mulher saiu de casa, aí sim, soube-se dos podres todos, com todos os detalhes sórdidos. O sórdido que todo a gente conhecia, mas sobre o qual ninguém dizia nada. Ninguém queria chatices. Até ao dia em que a mulher resolveu mudar as coisas. E, já se sabe, à conta deste caso, mais um ou outro vieram a lume. Há coragens que só se ganham a quente. E também há vinganças que só acontecem à boleia. Aliás, as vinganças gostam muito de aproveitar a sombra das revoluções.

Porque as revoluções são assim. Há sempre 2 tipos de revolucionários: os que abrem os olhos quando ainda dói e lutam para que as coisas mudem, custe o que custar e os que se calam e só se manifestam depois da revolução estar feita. Os que só têm voz na turbamulta. Os que no dia antes da revolução ainda dizem, “fala mais baixo, que as paredes têm ouvidos” e que no dia seguinte participam em manifestações libertárias. Hipócritas? Talvez. Eu acredito mais em pessoas com medo e com alguma coisa a perder. Que constituem cerca de 95% da humanidade. Depois também há os oportunistas, os que aproveitam as revoluções para resolver pendências pessoais e vingançazinhas. E estes oportunistas muitas vezes acabam por pôr em causa a justiça de uma revolução. E novas vítimas se fazem. Estes oportunistas também surgem porque as revoluções têm um terreno muito fértil para que eles cresçam: as barricadas. Tu ou és ou não és dos nossos. Dos nossos, nunca de todos. Sendo que os nossos são sempre os bons. Obviamente. As revoluções sofrem da tentação crónica da tomada de partidos. O meio-termo nunca foi muito revolucionário, infelizmente. Aliás o meio-termo acaba sempre por apanhar com uma bala perdida em tempos de revolução. E é pena, porque o meio-termo costuma ser o gajo mais lúcido do processo. É aquele tipo que vê as coisas como elas são dos dois lados. As vantagens e os perigos. É o gajo que no bairro é capaz de dar uma ajuda à mulher que apanhava pancada, mas que também não apedreja todos os outros que apenas levantam ligeiramente a voz. É o gajo que perante os apedrejamentos diz, cautela, qualquer dia qualquer um leva com um calhau e, pior, qualquer dia um caso destes torna-se banal. Mas também é o gajo que diz, ainda bem que a mulher deu o grito do Ipiranga e ainda bem que à conta da coragem dela houve outras que também ganharam coragem, isto assim é capaz de mudar. Mas ninguém quer saber destes gajos de consenso. As barricadas são mais atraentes, trazem-nos mais comparsas. Mais "nossos" a quem pertencemos. Mas também trazem feridas. Que podem demorar muitas décadas a passar. Quando passam. Há cicatrizes que, de tão fundas, doem sempre que o tempo muda. 
Com o #metoo será a mesma coisa.

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Vinganças e revoluções

por Cristina Nobre Soares, em 16.01.18

Uma revolução, seja ela política ou de costumes, não pode nunca ser confundida com uma revolta e muito menos com uma vingança. As vinganças perpetuam os mesmos erros, só que com protagonistas diferentes. Aliás, as vinganças perpetuam-se a si mesmas. As revoluções, pelo contrário, não vingam nada. Mudam. Permanecem. São maiores do que nós e do que as injustiças e ressentimentos que trazemos no corpo. Seria importante não nos esquecermos disto.

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Fractais

por Cristina Nobre Soares, em 16.01.18

Reparo numa teia de aranha na varanda, cheia de gotículas ínfimas e penso que lhe podia tirar uma fotografia. Depois escreveria qualquer coisa cheia de inspiração, como: “Time fractals” . O que seria um título estúpido porque as teias de aranha não são fractais, mas em estrangeiro marcha tudo. As árvores, sim, são fractais com as suas ramificações. E isso dava um bom texto, do género: “A geometria não-euclidiana das árvores e da vidinha no geral”. Tau, em esperto e em densos. Mas tenho de ir apanhar a roupa, antes que a chuva me amasse as malhas. Não há esperteza que brilhe numa camisola esbeiçada.

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Noite em Lisboa

por Cristina Nobre Soares, em 14.01.18

Do outro lado da rua há um homem que fala ao telefone. Fala baixinho, com aquele tom ridículo que as pessoas apaixonadas põem quando dizem palavras ternas. Na paragem um rapaz acende um cigarro e afasta-se até só lhe conseguir ver os pontos vermelhos incandescentes. O homem do telefone calou-se . Imagino-lhe o embevecido parvo da expressão, mas distraio-me pela brisa amena da noite. Nem parece Janeiro. Lembro-me das mulheres que conheci hoje. Hoje foi um dia bom.

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A psicologia das árvores - Nudez de Janeiro

por Cristina Nobre Soares, em 12.01.18

Olho pela janela e penso que a nudez das caducifólias me parece sempre triste. Estranho-lhes a falta de folhas. No entanto, agradeço-lhes por não me coarem a já de si rala e esquálida luz das tardes de Janeiro. Como se soubessem que nós somos criaturas incapazes de suportar as sombras sem a luz larga dos meses quentes. E, adivinhando-nos sedentos por luz, despem-se. Elas sabem que a nudez será sempre a melhor forma de enfrentarmos a escuridão dos nossos próprios Invernos.

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Reuniões de pais

por Cristina Nobre Soares, em 12.01.18

A inveja que eu tenho das mães que, nas reuniões de pais, sabem todas as datas dos testes, os nomes dos professores todos ( e também dos auxiliares), o horário em detalhe, a ementa da cantina, os itinerários das visitas de estudo, o regulamento de cor de salteado e até os decretos. Ah, que inveja tenho destas criaturas organizadas e impecáveis! Eu, que me limito a ser aquela que tem sempre canetas a mais para emprestar e que se senta sempre na fila de trás na esperança que ninguém note a minha incompetência.

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Sedução, assédio e poder

por Cristina Nobre Soares, em 11.01.18

Quem diz que nunca seduziu ou tentou seduzir mente. Ou isso ou tem uma vida muito triste. A sedução faz parte desta coisa de se estar vivo (sim, também é o contrário de estar morto. Quem nunca seduziu, digamos, está de certa forma falecido.) Ser alvo de sedução também faz parte do processo e da vida. E quando consentido, não me lixem, sabe bem e muito bem. Sim, ao ego e a outras coisas. É um jogo de regras conhecidas e claras. Sim, claras. E com claras obviamente não quero dizer explícitas. Ninguém tenta seduzir com: A senhora/menina importa-se que eu a tente seduzir? Ou, a senhora/menina, permite que eu lhe ponha a mão na perna, assim 3 ou 4 cm acima do joelho e lhe faça umas festinhas enquanto lhe mando dois ou três piropos marotos? A bem da inteligência da humanidade espero, sinceramente, que isto não aconteça. A tal clareza das regras do jogo reside no perceber se o outro lado está para aí virado ou não. Se corresponde, se alinha. Quem não consegue perceber isto é melhor ficar quieto. E já agora, calado. Ah, mas não corro risco da outra parte não perceber? Não é melhor entrar logo à bruta para que se perceba o que quero? Tipo apalpar como se não houvesse amanhã, e a pés juntos? Não, isso é mesmo má ideia. Até porque não me recordo de nenhuma paixão tórrida começada no 27 ou no 38, fruto do tal apalpão no calor do trânsito. Sim, há quem goste de sedução à bruta e violenta. Mas isso também se descobre depressa (normalmente numa fase posterior). Não, Catherine, não tem de ser um jogo violento, nem isto é sempre um filme do Buñuel. E é esta clareza que torna a sedução num jogo de igual para igual. Mesmo quando essa sedução é usada como moeda de troca. Sim, troca. Uma cena mais velha que a Sé de Braga usada tanto por homens como por mulheres para vários fins e propósitos. Então, perguntarão os mais distraídos, e quando é que isto é assédio? Ora, caros distraídos, quando acontecem 1 destas 2 coisas (ou as 2 ao mesmo tempo). Quando o alvo da sedução diz que não e a malta insiste. E insiste. Ou quando essa sedução é feita tendo por base um desnível de poder. Estilo, quando é o patrão, o chefe, a pessoa com poder de decisão sobre algum factor da nossa vida. Ah, mas a gaja pode sempre dar-lhe um banano e bater com a porta. Pois pode (e deve). Mas não limpa o assédio. Nem o abuso de poder. E caras pessoas distraídas, é sobre isto que fala o #metoo. Sobre abuso de poder. Abuso de poder. Simples, certo? Certo.

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Ainda sobre o #metoo ( e o discurso da Oprah)

por Cristina Nobre Soares, em 08.01.18

Tenho pena que ainda não se tenha percebido que a campanha do #metoo não é apenas sobre o assédio em Hollywood. Que não é sequer apenas sobre assédio. Nem se querer é só sobre sexo. É sobre quebrar o silêncio sobre a injustiça, a humilhação no trabalho, na educação, nas oportunidades, na liberdade, nos direitos, nas obrigações, nas moralidades, e sim, também na sexualidade. É dizer que nem sempre quem cala consente e que saberem ao que iam não torna a coisa melhor. Tenho pena que ainda haja quem não tenha percebido que isto não é apenas sobre um caso de alguém que apalpou as mamas a uma gaja boa que se pôs a jeito ou sobre outra que conseguiu o papel na horizontal. E que não é sobre coitadinhas. É exactamente o contrário. É sobre deixar de haver coitadinhas e desgraçadinhas e estas darem lugar a mulheres donas da sua vontade e da sua voz. Pena que o cinismo em que vivemos não nos permita ver isto. Pena.

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O Inverno não me convence

por Cristina Nobre Soares, em 07.01.18

Gostava de ser daquelas pessoas que exaltam os benefícios do frio. Que dá vigor e nos enrija a saúde e o carácter, dizem. Isso e os banhos frios do Carlos da Maia. Acredito, mas sou uma fraca que precisa de dias um tudo-nada mais quentes. Fora deles ando encolhida. E não é uma questão de agasalho, mas de desconsolo. Nem com um gorro na alma eu ganharia viço. O frio engelha-me a disposição. Lamento, caros estoicos do frio, mas o Inverno não me convence.

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