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Peregrinação

por Cristina Nobre Soares, em 29.12.17

Pergunto-me quantos milhões de pessoas estarão neste momento a fazer planos, resoluções. Quantos se perguntarão, talvez a medo, o que o novo ano lhes trará. Se vai ser melhor, se é desta que encontram o grande amor, o trabalho ideal, o tal reconhecimento que nunca chegou, a paz de espírito, a boa sorte, a saúde que os irá fazer chegar a velhos. Se é este ano que todos os cinzentos, todas as nuvens, névoas e neblinas irão passar. Quantos estarão neste momento a acender velas invisíveis aos pés de um santo sem religião chamado tempo? Que o tempo tudo muda, tudo traz, tudo ensina, tudo cura. No fundo, a vida é uma peregrinação que todos os anos se nos repete

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As prendas que os meus pais não me deram

por Cristina Nobre Soares, em 26.12.17

Lembro-me de querer coisas, como todos os miúdos querem, aquelas coisas que achamos fundamentais para ser felizes. Felizes como toda a gente que tem essas coisas parece ser. Mas esqueci-me de que coisas eram. Outras, muito poucas, por querê-las tanto, juntei dinheiro para as comprar. Como as calças de ganga da El Charro, que acabei por ter de comprar umas de contrabando. De resto, é estranho, mas não me consigo lembrar que coisas tão importantes eram essas que eu tinha de ter. Talvez porque não fossem. Nunca são, mesmo quando as temos. As coisas têm esse problema, por mais que se esforcem nunca se tornam importantes. Caso contrário não seriam coisas. Seriam por exemplo, pessoas, conquistas, tempo. Destas sim, lembramo-nos para sempre. Pena que os pais, como eu, que decerto também não se lembram das prendas que os pais deles não lhes deram, não se lembrem mais que o ter coisas é uma coisa que se esquece depressa.

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Sonhos com calda

por Cristina Nobre Soares, em 22.12.17

Os únicos fritos de Natal que eu gostava quando era miúda, eram os sonhos com calda que a minha mãe fazia. Todo o processo tinha um ritual completo. Pedia ao meu pai ou ao meu irmão para lhe baterem os sonhos, com uma colher de pau enorme, à qual ela chamava a “colher dos sonhos”. Este ano ficaram bonitos, dizia, mesmo sabendo que todos os anos ficavam. Depois fazia uma calda de açúcar que sabia muito a limão e que era servida na molheira do serviço chinês que viera de Moçambique. O das chávenas de chá em cujo fundo a contraluz se via a cara de uma chinesa. Abríamos um sonho e deitávamos a calda lá dentro, os dedos e os cantos da boca peganhentos, não deites tanta, o doce a arranhar a garganta, olha que ficas com dores de barriga, eu a desfazer o cristalizado da calda, que ficava sempre cristalizada no dia 25, com o rabo da colher, não deites tanta e o cheiro a canela e a pinheiro a escorrer na humidade das janelas. Nunca aprendi a fazer sonhos. Há mistérios que é preciso manter para que as memórias fiquem intactas. Cristalizadas como a calda de açúcar.

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Sobre as resoluções de ano novo

por Cristina Nobre Soares, em 21.12.17

Com a chegada do novo ano começam as listas cheiinhas de resoluções. Este ano é que vai ser, vamos mudar de trabalho, de marido, de mulher, de vida, vamos fazer caminhadas todos os dias, deixar de adormecer em frente à televisão, de comer fritos e açúcar, ficar imensamente saudáveis. Vamos passar mais tempo com a família, com os amigos, tempo de qualidade, note-se. Vamos voltar a pintar, a dançar, aprender a tocar viola, piano, ferrinhos, aprender a fazer a roda, a cambalhota para trás, andar de parapente, canoa, saltar de uma ponte preso por em elástico. Vamos ler os 427 livros que andamos para ler há imenso tempo, e tudo clássicos, que este ano não há lugar para foleirada. Fazer aquela viagem, ou duas, ou três, que 12 meses dá para ir a muito sítio. Vamos fazer tudo o que nunca fizemos até agora. Nunca mais vamos falhar um prazo, nem uma reunião, vamos ter tudo marcado e atempado. Vamos perder menos tempo com merdas, deixar de aturar gente que não interessa, deixar de ser cobardolas e dizer o que nos anda entalado há tanto tempo. Vamos fazer as pazes com quem estamos zangados, pedir as desculpas que tardam, dizer o quanto gostamos uns dos outros. O ano que vem vai ser sempre estupidamente diferente e extraordinário. E se não for, paciência. Para o ano há ano novo outra vez.

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Assentar ideias

por Cristina Nobre Soares, em 20.12.17

Perguntam-me se eu não preciso de ir escrevendo, assentando ideias. Para não me esquecer delas. Digo que não. Que a partir do momento em que as escrevo é que as esqueço. Como se a escrita me esvaziasse a memória. Enquanto ficarem cá dentro estou condenada a lembrar-me delas.

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Meadas de palavras

por Cristina Nobre Soares, em 18.12.17

Sabem? Aqueles dias em que sentimos que tanto temos para dizer acabam por ser aqueles dias em que nada conseguimos escrever. Porque nada se faz nada com uma meada de palavras em bruto. Precisamos de a dobar primeiro, torná-la num novelo limpo, sem nós, nem embaraços. Um fio contínuo e ágil para depois com ele tecermos histórias ou outros lavores que se leiam. Estes dias de silêncio servem para isso. Para dobarmos as palavras que tanto nos sobram.

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Gaiola de Faraday

por Cristina Nobre Soares, em 18.12.17

Gosto de ir em silêncio quando ando de carro. Mas um silêncio só meu, que não implica ausência de palavras. Por causa desse silêncio, foi num carro em movimento que tive as melhores ideias, conversas, confissões, revelações, sonhos. Momentos suspensos numa viagem que só acontecia lá fora. Uma vez explicaram-me que os carros funcionam como gaiolas da Faraday. E que por isso estamos protegidos das trovoadas num carro em movimento. Se calhar é por isso que tal me acontece. Pois quem diz de trovoadas, diz da vida no geral.

 

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Um dia, depois de chegar do liceu

por Cristina Nobre Soares, em 15.12.17

Um dia, depois de chegar do liceu, perguntei-te se era verdade que havia brancos que maltratavam os pretos em Moçambique. Olhaste-me com uma raiva tão grande que me sobressaltei. Lembro-me de ter tido vontade de dar um passo atrás, mas, em vez disso, olhei-te também, em tom de desafio, com aquela firmeza forçada de quem tem medo de ouvir a verdade. Cerraste os punhos, a mãe aproximou-se de nós para evitar a conversa, mas antes que ela interrompesse despejei o que a Margarida da minha turma me tinha contado sobre o que a madrinha dela fazia aos criados, não pestanejaste, tem calma, homem, disse a mãe, eu não desviei os olhos e tu não disseste nada. Nada. E vi que nos teus olhos não era raiva, mais sim mágoa. Voltaste-me as costas. Eu só queria compreender, perceber, porque ninguém pertence ao que não conhece. Nesse dia larguei a terra que diziam ser minha ao te afastares do que nos ficava por dizer. Só lá regressaste muitos anos depois, tu já eras velho e eu mãe, ali na minha casa, sentado num dos cadeirões de que tanto gostavas, numa última tarde de Outono. As histórias que me contaste nessa tarde não eram as aventuras e peripécias de África do costume, eram histórias que eu nunca tinha ouvido. Algumas delas, nem a mãe, confessou-me ela depois. Fiquei a olhar-te, como naquele dia em que chegara do liceu, mas agora sem desafio. Pela primeira vez na minha vida vi-te vulnerável, homem, muito maior que um pai. Não disse nada. Tive medo que a uma palavra minha, uma única que fosse, tu saísses de novo e desaparecesses ao fundo do corredor. Fiquei imóvel, muda, como fazia em criança, quando tu punhas os teus discos de ópera e eu sustinha a respiração para que a magia não se quebrasse. Se não desses por mim não me mandavas embora. Quando saíste já era tarde, mas ainda a tempo e deste-me uma palmadinha no rosto. Saíste. Nunca mais voltaste. Já me tinhas respondido. E ao fazê-lo devolveste-me a terra onde nasci.

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Do dominar uma língua

por Cristina Nobre Soares, em 11.12.17

Há muitos anos estive na Grécia. Na altura, poucos gregos falavam inglês, só mesmo os miúdos mais novos ou alguns profissionais de turismo. Fora dos grandes centros urbanos, então, isso era para esquecer. Foram dias cómicos a tentar decifrar as placas escritas em alfabeto grego, soletrando as letras que identificávamos da matemática. Isso, juntamente com um manual com frases básicas e o belo do apontar, deu para nos safarmos lindamente. Mas, lentamente, sem darmos por isso, fomo-nos habituando aos sons das palavras, à entoação, até conseguirmos perceber quais as sílabas e fonemas que carregavam maior emoção sempre que alguém se ria, zangava, emocionava. Aprendi mais sobre os gregos e a Grécia nesse exercício de observação do que talvez possa um dia aprender em cem livros. Mas não aprendi a falar grego. Aliás, esses dias “lost in translation” ensinaram-me que dominar uma língua não é saber falá-la, escrevê-la impecavelmente. É muito mais do que isso. Nem sequer é torná-la na nossa primeira, segunda, terceira língua. É sermos dela. E isso só acontece quando essa língua se torna naquela em que sonhamos.

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Lisboa e a amiga famosa

por Cristina Nobre Soares, em 10.12.17

Esta coisa de Lisboa agora ser famosa e sacar os prémios de turismo todos é mais ou menos como a amiga de infância, a que morava ao fundo da rua, se tornar numa estrela de cinema. Ficamos muito felizes por ela e tal, mas vê-la, só pela televisão. E das poucas vezes que conseguimos estar com ela é sempre com uma multidão atrás.

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