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Dia de reflexão

por Cristina Nobre Soares, em 29.09.17

Um dia, alguém ainda me irá explicar porque raio é que amanhã a minha opção de voto pode influenciar alguém e hoje até à meia-noite, não.

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Sobre a proposta da Joana Amaral Dias

por Cristina Nobre Soares, em 27.09.17

A proposta da Joana Amaral Dias é estúpida, aberrante e facilitista. Mas acima de tudo custa-me que tenha sido uma mulher a propô-la. Custa-me, mas não me espanta. Muita da descriminação que sofri na pele nos meus 43 anos de existência foi feita por outras mulheres. Muitas das vezes em que me chamaram histérica por ser feminista foram outras mulheres que o fizeram. Os avisos “cuidado com a fama”, por causa dos namorados, foram outras mulheres que o fizeram. Por isso, custa-me, mas não me surpreende. Assim como me custa ver, por essas caixas de comentários, outras mulheres (sim, outras mulheres) chamarem “loura burra” e "cabra" e outras coisas piores à Joana Amaral Dias. Se gosto da Joana Amaral Dias como política? Não. Se me identifico com as politicas que defende? Não. Assim como não me identifico com uma série de homens que anda para aí a fazer peso à terra no que diz respeito à vida politica. A Joana Amaral Dias fez uma proposta sem classificação possível, é verdade. Mas já agora, caras mulheres que lhe chamam "loura burra" e cabra, quando é foi a última vez que participaram num acto cívico ou político? Sim, é isso, também devo ser uma cabra.

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Falar sobre o tempo

por Cristina Nobre Soares, em 26.09.17

Falo muito sobre tempo. Tenho prazer em constatar trivialidades que toda a gente vê como: “hoje está fechado a chover” ou “está um rico dia de sol”. Constatar trivialidades dá imenso jeito, principalmente se a conversa me aborrece ou se não tenho mais nada de interessante para dizer, o que, diga-se de passagem, me acontece amiúde. Para além de que o tempo pode ser uma metáfora para qualquer tema. Qualquer um. Por exemplo, no outro dia falavam, à mesa do café, sobre os mercados europeus e os indicadores económicos e eu comentei, vem lá chuva. Olharam todos pela janela e disseram, não, estas nuvens são passageiras, daqui a pouco abre, isto é cíclico, é só questão de nos precavermos com um guarda-chuva. Com isto o assunto sobre os mercado europeus ficou arrumado e  eu pedi um pastel de nata.

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Maria Laura

por Cristina Nobre Soares, em 25.09.17

Maria Laura servia primeiro os homens, escolhia-lhes os bifes mais tenros, as batatas mais coradas, a melhor fruta. Perdoava-lhes os atrasos à mesa. São homens, dizia na sua voz melosa. Sempre que os homens falavam punha o ar mais atento, mesmo que não percebesse nada do que diziam, mesmo que não concordasse, são homens, ela não tinha de compreender nada, só de sorrir. Se acaso eles se exaltassem pousava-lhes ao de leve a mão no braço e olhava-os com os seus olhos de cordeiro. Um eterna serva, sempre à disposição, para o que fosse preciso, sem ouvidos para os insultos, para os desprezos, as humilhações, e sorria-lhes a eles, a eles que eram homens. 
Mas as mulheres, essas Maria Laura tratava-as mal e raramente lhes sorria. Tratava-as com rispidez, com autoritarismo, a menina comporte-se, tenha modos, tento, decência. Maria Laura sabia-se temida pelas outras mulheres, mas tinha de ser assim, porque as mulheres são criaturas que precisam de ser domesticadas, educadas, ensinadas, castradas. E o medo é quem ensina melhor. Maria Laura era uma capataz, uma feitora de uma ordem certa das coisas. Morreu amada por todos. Até pelas outras mulheres

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Os estóicos

por Cristina Nobre Soares, em 22.09.17

Diz-me que não pode comer chocolate. Que lhe deixa a cara cheia de borbulhas, um castigo. Descreve-me as borbulhas com todos os pormenores escatológicos. Fala-me do sacrifício que é passar uma vida inteira sem comer chocolate. Nem um quadradinho, nada! Mas não em tom de lamento, com orgulho. Um imenso orgulho pelo seu voto de abstinência cumprido com irrepreensível força de vontade. Já não a oiço. Aborrecem-me os estóicos. São burocratas do heroísmo, incapazes de cometerem uma loucura, um que-se-lixe-que-estou-farto-desta-merda. Não, que horror! Ainda podiam ser autuados por isso. Um tédio, estas criaturas.

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Chegou o tempo dos marmelos

por Cristina Nobre Soares, em 20.09.17

Chegou o tempo dos marmelos. Desenganem-se, que o meu entusiasmo não é por causa da marmelada, que sempre me enjoou. Principalmente a mais branca, muito doce, cheia de açúcar cristalizado no rebordo das tigelas. O meu pai dava-me os comprimidos, que eu não conseguia engolir, esmagados numa fatia de marmelada metida por entre duas bolachas Maria, vá, anda, assim não notas, é doce. Era um sacrifício para mim. Mas nunca lhe disse para que não se acabasse aquele mimo. Valia a pena a agonia. Chegou o tempo dos marmelos. Mas vou assá-los com vinho do Porto. Ficam uma maravilha.

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"Top"

por Cristina Nobre Soares, em 19.09.17

Pessoas que passam a vida a dizer que lêem imenso, que liam Sartre e Tolstoi no jardim de infância, enquanto os outros cantavam o fungagá da bicharada, que têm um vício, uma compulsão, que só param quando começam a chorar da vista, que têm sonhos húmidos com livreiros e que snifam linhas de mofo para fugirem da aridez de um mundo sem literatura, façam-me um favor: não digam que último livro que leram foi “top”. Epá, por amor da santa: não.

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Este Domingo não vou fazer nada

por Cristina Nobre Soares, em 17.09.17

Este Domingo não vou fazer nada. Rigorosamente nada. Vou esticar-me no sofá e ler um livro. Que ninguém me peça para fazer nada, ouviram? Só me levanto para ir fazer um chá. Quando for apanhar as folhas, aproveito para mudar a erva-príncipe de vaso e mudar a lúcia-lima para um sítio com mais luz. Se calhar até fico cá fora a ler. Mas antes tenho de dar uma limpeza às cadeiras e pintar a que falta. Mas depois sento-me, ouviram? Logo a seguir a apanhar a roupa que está no estendal desde ontem, ainda se me ruça. Mas isso também se faz num instantinho, e é capaz de ainda me sobrar tempo para rever o texto que tenho de entregar amanhã. Aproveito e organizo a semana. Coisa pouca. Depois sim, vou esticar-me e achar que cada vez anoitece mais cedo. Bolas, agora também já não vale a pena, não tarda tenho de ir fazer o jantar. Para a semana há Domingo outra vez. Nesse é que não vou fazer mesmo nada. Vão ver.

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Chegaram os estorninhos

por Cristina Nobre Soares, em 15.09.17

Chegaram os estorninhos. Vi-os há pouco, ao fim da tarde, quando voltava a casa. Fiquei um bocadinho a descansar os olhos enquanto a nuvem parda se fazia e desfazia no ar. Depois desapareceram. Ficou apenas o lusco-fusco a pingar das folhas das oliveiras em frente e eu entrei em casa. Cada um tem as "sunset parties" que pode.

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As pessoas não percebem o fenómeno do Tony Carreira

por Cristina Nobre Soares, em 14.09.17

As pessoas não percebem o fenómeno do Tony Carreira porque não percebem que o Tony não é as canções foleiras que ele canta. Nem as foleiras que ele copiou. O Tony é outra coisa . É o rapaz da terra, “um dos nossos”. Por acaso canta. Mas podia fazer casas, ser médico, professor ou exportar pêra de calibre grande para Inglaterra, que era a mesma coisa. Toda a gente ia dizer, que bem que o Tony está na vida! Ele merece, sempre foi bom rapazinho, pôs a pata na poça, mas o mal que dizem dele para aí é só inveja. E que alegria ia ser sempre que o Tony fosse à terra pelas festas! Que é o que acontece sempre que ouvem as músicas do Tony: ele vai à terra. As pessoas não percebem isto porque lhes falta um pedaço de aldeia na sua larga visão do mundo.

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