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Chegou o tempo dos marmelos

por Cristina Nobre Soares, em 20.09.17

Chegou o tempo dos marmelos. Desenganem-se, que o meu entusiasmo não é por causa da marmelada, que sempre me enjoou. Principalmente a mais branca, muito doce, cheia de açúcar cristalizado no rebordo das tigelas. O meu pai dava-me os comprimidos, que eu não conseguia engolir, esmagados numa fatia de marmelada metida por entre duas bolachas Maria, vá, anda, assim não notas, é doce. Era um sacrifício para mim. Mas nunca lhe disse para que não se acabasse aquele mimo. Valia a pena a agonia. Chegou o tempo dos marmelos. Mas vou assá-los com vinho do Porto. Ficam uma maravilha.

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"Top"

por Cristina Nobre Soares, em 19.09.17

Pessoas que passam a vida a dizer que lêem imenso, que liam Sartre e Tolstoi no jardim de infância, enquanto os outros cantavam o fungagá da bicharada, que têm um vício, uma compulsão, que só param quando começam a chorar da vista, que têm sonhos húmidos com livreiros e que snifam linhas de mofo para fugirem da aridez de um mundo sem literatura, façam-me um favor: não digam que último livro que leram foi “top”. Epá, por amor da santa: não.

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Este Domingo não vou fazer nada

por Cristina Nobre Soares, em 17.09.17

Este Domingo não vou fazer nada. Rigorosamente nada. Vou esticar-me no sofá e ler um livro. Que ninguém me peça para fazer nada, ouviram? Só me levanto para ir fazer um chá. Quando for apanhar as folhas, aproveito para mudar a erva-príncipe de vaso e mudar a lúcia-lima para um sítio com mais luz. Se calhar até fico cá fora a ler. Mas antes tenho de dar uma limpeza às cadeiras e pintar a que falta. Mas depois sento-me, ouviram? Logo a seguir a apanhar a roupa que está no estendal desde ontem, ainda se me ruça. Mas isso também se faz num instantinho, e é capaz de ainda me sobrar tempo para rever o texto que tenho de entregar amanhã. Aproveito e organizo a semana. Coisa pouca. Depois sim, vou esticar-me e achar que cada vez anoitece mais cedo. Bolas, agora também já não vale a pena, não tarda tenho de ir fazer o jantar. Para a semana há Domingo outra vez. Nesse é que não vou fazer mesmo nada. Vão ver.

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Chegaram os estorninhos

por Cristina Nobre Soares, em 15.09.17

Chegaram os estorninhos. Vi-os há pouco, ao fim da tarde, quando voltava a casa. Fiquei um bocadinho a descansar os olhos enquanto a nuvem parda se fazia e desfazia no ar. Depois desapareceram. Ficou apenas o lusco-fusco a pingar das folhas das oliveiras em frente e eu entrei em casa. Cada um tem as "sunset parties" que pode.

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As pessoas não percebem o fenómeno do Tony Carreira

por Cristina Nobre Soares, em 14.09.17

As pessoas não percebem o fenómeno do Tony Carreira porque não percebem que o Tony não é as canções foleiras que ele canta. Nem as foleiras que ele copiou. O Tony é outra coisa . É o rapaz da terra, “um dos nossos”. Por acaso canta. Mas podia fazer casas, ser médico, professor ou exportar pêra de calibre grande para Inglaterra, que era a mesma coisa. Toda a gente ia dizer, que bem que o Tony está na vida! Ele merece, sempre foi bom rapazinho, pôs a pata na poça, mas o mal que dizem dele para aí é só inveja. E que alegria ia ser sempre que o Tony fosse à terra pelas festas! Que é o que acontece sempre que ouvem as músicas do Tony: ele vai à terra. As pessoas não percebem isto porque lhes falta um pedaço de aldeia na sua larga visão do mundo.

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A escola ficava numa curva

por Cristina Nobre Soares, em 12.09.17

Íamos em grupo para o Ciclo, que ficava a uns vinte minutos a pé a partir da casa da avó da Patrícia, onde era o nosso ponto de encontro. Vinte minutos à ida, porque à vinda, por ser a sempre a subir, demorava mais, a atirar para a meia hora. Íamos sozinhos, sem pais. Estávamos por nossa conta e sentíamo-nos importantes por isso. Só o Nuno Luís ia de carro com a mãe. Mas ele não precisava da aventura de ir sozinho para se sentir importante. Era rico e a gente começava a aprender que os ricos não precisavam de ganhar importância. A mãe do Nuno Luís parava o carro azul-escuro, muito grande e muito polido, junto ao portão, ajeitava-lhe o cabelo cortado à tigela, ele entrava connosco e mesmo vestido com os seus pullovers finos passava a ser um de nós. Dava o primeiro toque da manhã e o pátio ficava vazio. A escola ficava numa curva, entre um bairro da lata e os prédios de gente bem. Lá em cima, na colina, ficava o nosso bairro de prédios todos iguais. O resto era caminho.

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Rosmaninho e alecrim pelo chão

por Cristina Nobre Soares, em 10.09.17

 

Vir cá fora, logo de manhã, já pede um agasalho. É um frio ainda tímido. Tenho ideia que há um ano, por esta altura, escrevi qualquer coisa semelhante. Sei que foi por esta altura porque havia festa na vila. Os Domingos de festa acordam sempre com um silêncio cansado, mas é breve, daí a pouco devem ouvir-se os sinos e os foguetes. A procissão deve ter sido ontem. Não passa perto da minha casa, também se passasse eu decerto que não a iria ver à janela, apesar de dizer umas horas antes: a ver se é este ano que vejo a procissão passar. Eu digo que vou fazer muita coisa que acabo por não fazer. Mas a verdade é que não ligo nenhuma a procissões, não sei porque digo isto. Deve ter-me ficado de pequena, quando o meu pai punha o "single" do João Villaret a dizer “A procissão” do António Lopes Ribeiro. Eu gostava muito e cantarolava aquilo, muito trapalhona. Era muito pequena, tão pequena que só me lembro disto da minha mãe contar. Já se ouve algum movimento na rua. Não tarda, tocam os sinos. Mas não há rosmaninho, nem alecrim pelo chão

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Os que dão, os que tiram e os que apenas retribuem

por Cristina Nobre Soares, em 08.09.17

No outro dia, falava com uma amiga sobre existirem dois tipos de pessoa: os que dão e os que tiram. Os generosos e disponíveis que estão sempre lá, que sabemos que podemos bater-lhes à porta, mesmo fora de horas. E os que levam. De quem não podemos esperar nada porque não sabem o que é a gratidão. São recolectores da boa vontade alheia. Mas, para mim, existe ainda um terceiro tipo: os que apenas retribuem. Os que só reagem, que nunca se chegam à frente primeiro, que nunca surpreendem, que acham que a generosidade é uma conta de mercearia. Nunca chegam a ser ingratos porque cumprem cirurgicamente essa relação de deve e de haver. Mantêm a ficha limpa. Inclusive limpa de quem gosta deles. Destes ninguém fala. É normal. Ninguém gosta de falar das desilusões.

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Sozinhos somos mais fáceis de morrer

por Cristina Nobre Soares, em 07.09.17

No autocarro da manhã quase todos aproveitam a viagem para dormir a hora que lhes faltou à cama. Todos, menos os velhos, que vão sempre despertos, de cabeça bem levantada, mão apoiada nas costas do banco da frente. Sempre que acontece algo, uma buzina que toca, uma travagem inesperada, procuram os olhos mais próximos e fazem um esgar, como quem pergunta:o que aconteceu? Mas, o que na verdade essa busca quer dizer é: estou aqui. Ainda estou aqui. Os velhos, por pressentirem a morte, são ansiosos. Um breve olhar, trocado com o desconhecido do banco ao lado, tranquiliza-os. A presença dos outros é a prova de que estamos vivos. Nós não bastamos. Sozinhos somos mais fáceis de morrer.

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Passe L1

por Cristina Nobre Soares, em 06.09.17

A cidade acabava na praça ao pé da estação de Algés. Ali, como quem descia do Restelo. Da rua dos eléctricos em diante já não era cidade, era subúrbio. Dali em diante o passe da Carris passava a ter números à frente do L. Quanto mais embrenhado no subúrbio mais números tinha. Enquanto o autocarro subia até ao meu bairro, a cidade ia ficando para trás. A cidade, esse centro de tudo, feito de depuradas linhagens urbanas, garantidas pelos limites dos bairros certos. Dali para a frente não havia nada disso. No subúrbio não havia raízes, porque não há raízes que consigam deitar corpo no cimento e no pré-fabricado. As raízes do subúrbio tinham ficado lá, na terra aonde todos os suburbanos iam sempre que podiam. Um suburbano não era um urbano. Era alguém, que à semelhança do passe da Carris, tinha um prefixo a revelar que não pertencia à palavra original. Era um acrescento, um anexo da casa principal onde se deixam as roupas do campo para não enxovalharem a sala. O autocarro parava. O meu bairro ficava num dos terminais. Era o fim da linha. Mas um fim de linha onde nunca se chegava. Só se partia.

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