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A Anita

por Cristina Nobre Soares, em 31.08.17

Tirando as ilustrações, que eu achava (e ainda acho) lindíssimas, nunca tive paciência para a Anita. A Anita fazia a lida da casa, ia ao supermercado, aprendia a cozinhar, tomava conta do irmão, fazia ballet, teatro, pintava, tocava violino (ou violoncelo?), andava na equitação, esquiava, era boa aluna, andava de avião, de comboio, de carro, de bicicleta, fazia férias na praia, no campo, tinha um cão, um gato, os passarinhos e todos os animais fofinhos gostavam muito dela, o carteiro, o leiteiro, o peixeiro e o polícia sinaleiro, também. E, como se isso não bastasse, tinha festas de anos que deviam custar uma pipa de massa, a mãe dela era muito elegante, muito bem vestida e bonita, o pai dela, um pão (adjectivo adequado para os livros da Anita). A Anita era perfeita. Cansativamente perfeita. Tirando o facto de andar de cuecas à mostra e de ouvir o cão a falar. O que era capaz de ser sinal de uma cabeça apoucadita ou de esgotamento nervoso. Pudera. Não aguentou a pressão burguesa.

p.s Desconfio que a Anita seja hoje a mãe do Ruca.

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Carneiros e cigarras

por Cristina Nobre Soares, em 29.08.17

Uma vez, no livro da 3ª classe, lemos um texto sobre um menino que não conseguia dormir. O menino experimentava uma série de coisas que a mãe lhe sugeria, mas o sono não vinha. A última sugestão que a mãe lhe deu foi que contasse carneiros. Mas, enquanto contava carneiros, o menino começou a ouvir as cigarras*  e outros sons da noite. Adormeceu. Tal como em todos os textos tínhamos de responder a perguntas de interpretação. Uma delas era: O que é que fez com que o menino adormecesse? E eu respondi: o som da cigarra e a noite a chegar. A minha professora disse que a resposta estava errada, que não era nada disso, que o menino tinha adormecido por contar carneiros. Eu achei que ela não estava a ver bem o filme, e dessa vez disse, alto e bom som: não acho. E expliquei porquê. Com alguma paciência a minha professora lá tentou explicar o porquê dela. E perguntou-me, percebeste agora? E eu respondi baixinho, percebi, mas continuo a achar que foram as cigarras. Nunca soube se tinha razão. E sinceramente nem é isso que interessa desta história toda. Aliás, raramente o ter razão é o que mais me interessa em qualquer história. O que me interessa é tentar perceber porque é que onde uns vêem carneiros outros só ouvem cigarras. Isso sim, vale a pena.

 

*que afinal deviam ser ralos ou grilos

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Café e silêncio

por Cristina Nobre Soares, em 29.08.17

Que a olhar por aqui, para além da chuva fechada com ar de ter vindo para ficar o dia todo, me dá a ideia que precisamos todos de um bocadinho de silêncio. Daquele silêncio que só encontramos quando paramos para pensar. Eu pelo menos preciso. Disso e de café. Ambos com urgência.

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Abriu

por Cristina Nobre Soares, em 28.08.17

Abriu. A chuva limpou o ar e ficou aquela claridade que lembra que o Verão é apenas uma memória fugaz. Que daqui a uns dias é Setembro, aquele mês que, a mais de meio do ano, nos retoma daquele mesmo sítio onde teimamos ver um ponto de partida. Daqui a uns dias é Setembro, o mês onde começamos a ficar mais pequeninos dentro dos dias. Como se em algum dia de Agosto tivéssemos chegado a ser grandes.

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O velho do terreno da frente

por Cristina Nobre Soares, em 27.08.17

Havia um velho que vinha amanhar o terreno da frente por detrás das oliveiras. Nele fez uma horta com uma cerca de couves galegas. No meio da horta pôs uma cadeira, onde se sentava depois de tratar do que tinha de tratar e ficava ali o resto da tarde. Deixou de vir. A horta sumiu-se como se some tudo o que não é tratado. Ficou a cadeira, vazia, absurdamente sozinha no meio do terreno, a lembrar a ausência, até ao dia em que a levaram. Que foi o dia em que nos começámos a esquecer que tinha havido um velho que amanhava uma horta no terreno da frente, por detrás das oliveiras. Sem provas, nem que seja uma cadeira vazia, tudo acaba por ser apenas uma memória de que ninguém tem bem a certeza que tenha acontecido. Às vezes até parece que não aconteceu, mas é só porque passou muito tempo.Outras não aconteceu mesmo e temos de inventar, construir essa memória, para não ficarmos vazios. E é por isso que há gente que escreve.

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O pai-Estado

por Cristina Nobre Soares, em 25.08.17

Somos o país da intervenção estatal, da legislação. Se usam mal os pesticidas na agricultura, faz-se uma lei para não haver abusos. Se na restauração a rebaldaria é total em termos de higiene, faz-se uma lei para limparem o estabelecimento. Se continua a não haver respeito por quem tem deficiência, fazem-se leis para obrigar a respeitá-los. Se os partidos políticos continuam a ignorar o mérito das mulheres que neles participam, cria-se uma lei de quotas. Claro que têm de haver leis reguladoras. Acredito que o Estado tem a obrigação de proteger os seus cidadãos, daí muitas vezes achar que estas leis são um mal necessário para que a sociedade evolua, avance. Mas não deixo de ficar apreensiva a pensar que não há maneira de nos tornarmos um país crescidinho, capaz de distinguir o certo do errado sem a mãozinha castigadora do pai-estado. Um país onde, por exemplo, livros sexistas simplesmente não vendam, ou nem sequer faça sentido que sejam publicados, porque os pais sabem que comprá-los só perpetua a descriminação a que são sujeitas as suas filhas. Um país onde não tivesse de haver um “ralhete” do estado a uma editora para retirar uma edição cretina e dessa forma ensinar os seus cidadãos o que comprar e como educar os seus filhos. Isso sim seria um país crescidinho.

(E escusam de vir com tangas e calhoadas para os comentários, porque se há mulher que luta contra a discriminação de género e sem ser só nas redes sociais, mesmo a dar o litro e a cara na vida real, sou eu.)

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Escolhas

por Cristina Nobre Soares, em 23.08.17

Conhecemo-nos no primeiro dia de escola da primária. Ela tinha um cabelo louro, liso, muito bonito. Eu tinha o cabelo preto e encaracolado que nem com totós se domava. Eu era muito tímida. Ela não tinha medo de nada. Eu gostava de sonhar de olhos abertos. Ela sempre foi muito prática e despachada. Quando brincávamos aos "Cinco" ela era a Ana e eu a Zé. Crescemos juntas. A dada altura ela começou a sonhar com uma vida de família. Eu queria mudar o mundo sozinha. Ela dizia que queria uma casinha no campo. Eu sonhava em viver um ano em cada cidade do mundo. Eu dizia que um dia ia ganhar a vida a escrever, mas no fundo nunca acreditei muito. Ela nunca duvidou disso. Hoje sou eu quem vive no campo com a minha família. Ela já correu e viveu em meio mundo. Continua com um cabelo louro lindo e eu sem conseguir fazer nada do meu. É normal, é a única coisa que nunca dependeu das nossas escolhas. Isso e ser rapariga.

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A patine da realeza

por Cristina Nobre Soares, em 23.08.17

Uma vez, teria ela uns 6 anos, a minha filha perguntou-me o que era preciso fazer para se tornar princesa. Respondi-lhe que para isso teria de ser filha de um rei ou casar-se com um príncipe. Só isso? Sim, só isso. Perguntou-me se ainda havia príncipes e reis. Eu disse que sim, falei-lhe da família real de Espanha e contei-lhe que a Rainha da Holanda ia à mercearia de bicicleta. Olhou-me muito desiludida, então ela não tem um criado para fazer as compras? Coitada. Afinal, quando for grande não quero ser princesa. Prefiro ser a Dora Exploradora. Pelo menos essa tem uma mochila que fala. Nada como um bom gadget para dar cabo da patine da realeza.

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Aos que têm ambições de fazer humor nas redes sociais

por Cristina Nobre Soares, em 21.08.17

Aos que têm ambições de fazer humor nas redes sociais recomendo vivamente que invistam apenas em piadas de salão. As piadas de salão não são propriamente piadas, são mais dichotes, trocadilhos marotos mas inócuos, para dispor bem os convivas. É suposto reagir às piadas de salão com uma risadinha discreta, ou melhor ainda, com um sorriso mais rasgado e um acenar de cabeça a assinalar a compreensão da piadola. Não fica bem rir à gargalhada com uma piada de salão, é descomposto e fora de tom. As gargalhadas são para conversa de taberna, coisas de gente sem moral e decência. Há todo um código para as piadas de salão: não brincam com coisas sérias como religião ou política e muito menos são sobre coisas imorais ou escatológicas. Se por alguma ventura uma piada de salão roçar a vulgaridade, bastará um qualquer sobrolho vigilante a assinalar a o risco vermelho. Pigarrear-se-á e dar-se-á o deslize por esquecido, sem maior troca de palavras. Por isso nem por aí virá mal de maior. Só o tédio, um enorme e imenso tédio a tresandar a naftalina e a naperons engomados. Mas pelo menos o tédio, que não tem piada nenhuma, é compostinho e não melindra ninguém. E dá likes. Muitos likes. E isso é o que mais interessa.

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Maria Amélia

por Cristina Nobre Soares, em 20.08.17

Maria Amélia era uma mulher que, como tantas outras ou quase todas que conhecera, tinha uma vida sem nada de notável. Era uma pessoa normalíssima, sem grandes rasgos de inteligência, marcos de orgulho ou feitos heróicos. Nada. Daquelas que de tanto fazerem por passarem despercebidas acabam por se tornar invisíveis. Até aos próprios olhos. Tanto que se sobressaltava sempre que passava por um espelho. Ver-se, dar por si mesma, era sempre uma visita inesperada, quase um feliz reencontro. Devíamos ser mais assim, como a Maria Amélia.

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