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A compreensão é lenta

por Cristina Nobre Soares, em 25.07.17

A compreensão é lenta. Porque há palavras que só as compreendemos muito tempo depois. Como se o seu verdadeiro significado, aquele implícito na intenção com que foram ditas, ficasse suspenso entre o que ouvimos e o que realmente quiseram dizer. E um dia, a propósito de uma lembrança, de uma conversa trivial ou por não termos mais nada em que pensar, elas regressam despidas do que subentendemos, nuas, tal como vieram ao mundo. Nesse momento, curiosamente, ao contrário de todas as expectativas e medos, não acontece nada. Rigorosamente nada. Não há sequer desilusão. Apenas compreensão, que é a lucidez resignada da vida.

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Farófias

por Cristina Nobre Soares, em 21.07.17

Não gosto de farófias. Acho que é uma sobremesa deslavada, onde nem o leite-creme se aproveita e aquelas claras em castelo leitosas não me convencem. Ah, isso é porque não nunca provaste as farófias de não-sei-quem, que são uma especialidade. Não vale a pena, já provei farófias de inúmeras autorias e sabem-me sempre ao mesmo: a deslavado. Mas, invariavelmente, não me livro de um catecismo sobre as virtudes das farófias, que deve ser uma sobremesa com imenso pedigree, a quem, pelos vistos, toda a gente deveria prestar vassalagem, assim uma espécie de Ingmar Bergman da doçaria. Que também não aprecio, faz-me sono, tenho uma cabeça fraquita para conversa sueca a preto e branco. Não, não gosto de farófias, insisto. Uma vez argumentei que de pudim Molotof gostava. A pessoa olhou-me horrorizada e esganiçou-se um bocadinho, mas isso não tem nada a ver! É a mesma coisa que estar a comparar caramelos gourmet com aqueles de Badajoz. E eu pensei, ora com piñones são bem bons. E nem precisam de ser de Badajoz, os de Ayamonte também marcham. É por estas e por outras que nunca hei-de chegar a lado nenhum.

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Ressentimento

por Cristina Nobre Soares, em 21.07.17

Às vezes, passam-se anos e ficamos na mesma. Outras vezes basta um mês para envelhecermos anos. Depois temos aquela manhã seguinte em que nos olhamos ao espelho e percebemos que ontem nos passou uma vida inteira pelo corpo. A vida definitivamente tem um ressentimento qualquer com o calendário que lhe inventámos.

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Barulhos próximos

por Cristina Nobre Soares, em 17.07.17

Quando se vive no campo os sons da noite parecem-nos sempre lá ao longe. O ladrar dos cães, o passar de um carro, o sino da igreja, as cigarras, o galo, a conversa ao fundo da rua, os foguetes e a música na outra aldeia. É sempre lá ao longe, sem se saber ao certo onde é. Quanto muito é para os lados de qualquer coisa, que é o sítio onde moram a maior parte dos barulhos que ouvimos no campo. Na cidade não é assim. Os ruídos vivem paredes meias connosco e num sítio bem definido: do outro lado da janela, na casa ao lado, lá em baixo na rua, no andar de cima, no pátio em frente . E essa exactidão sobressalta-nos. Engraçado, na cidade, onde tudo e todos são distantes, só os barulhos parecem ser próximos.

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A memória é uma visita indisciplinada

por Cristina Nobre Soares, em 16.07.17

Enquanto termino um trabalho para amanhã, lembro-me a despropósito do cheiro das glícinias na Avenida de Ceuta. Íamos as duas atrasadas para uma reunião, já era quase noite e estava calor. Eu pedi-lhe, abranda só um bocadinho o passo, só para sentir o cheiro. Não me lembro ao certo quando é que isto foi, nem sequer tenho a certeza se o cheiro seria das glicínias. Nem sequer sei porque me lembrei disto, agora, em Julho, onde o único cheiro que se sente é o da erva seca e só quando o vento sopra do outro lado da casa. Realmente, a memória é uma visita indisciplinada, sem maneiras, que nos entra pela porta adentro e, sem aviso nem autorização prévia, larga-nos lembranças avulsas na mesa. A memória, às vezes, é um bocadinho carroceira, talvez por isso haja quem, mal ela se vai embora, se apresse a varrer e a pôr o sítio o que ela desarrumou. Eu não. Arrecado tudo nestas anotações de trazer por casa. Talvez por serem naturalmente desarrumadas e habituadas a este entra e sai.

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Folhagem

por Cristina Nobre Soares, em 14.07.17

Antes de fechar o computador olho pela janela. É um hábito que tenho, como se com ele medisse a luz que ainda resta ao dia. Por entre a folhagem do carvalho passa a luz abaunilhada dos dias que já se vão apartando do solstício. As folhas das árvores têm essa capacidade de reflectir a luz mais ténue e dar-lhe outra cor. Lembro-me de uma vez falar nesse efeito da folhagem, numa aula que dei. Não me lembro bem do que disse, mas a dada altura um aluno, sentado no fundo da sala, comentou, a professora gosta mesmo disto, não gosta?. Não sei, respondi-lhe, porque do que gosto mesmo é de observar as coisas.Riram-se. Mas é verdade, pagassem-me e passaria os dias nisto, a ver a luz abaunilhada de fim de dia a coar-se por entre uma folhagem qualquer.

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As pessoas não querem verdade, querem conforto

por Cristina Nobre Soares, em 11.07.17

As pessoas não querem verdade, querem conforto. As pessoas não querem que lhes abram os olhos, querem que gostem delas mesmo de olhos fechados. Ninguém lida bem com a verdade, mesmo quem a pede. A verdade tem um toque áspero à pele e quem diz que veste a verdade todos os dias, não se iludam, fá-lo com uma camisolinha por baixo para arranhar menos. Toda a gente diz que quer a ouvir a verdade, mas é mentira. Não querem nada. Ninguém quer ouvir que tem uma vida de merda, que está com mau aspecto, que os filhos são umas crianças mimadas e insuportáveis, que é incompetente. Ninguém quer por perto pessoas que digam a verdade. São uma espécie de assombrações e não há registo de quem goste de conviver com fantasmas de qualquer espécie. Por isso deixem lá as verdades em paz e sossego e aprendam a dizer que sim com a cabeça sempre a franqueza vos assaltar. Mesmo que achem que dizem as verdades com a melhor das intenções, lembrem-se o inferno deve estar cheiinho de pessoas que falaram demais. E o céu deve estar a abarrotar dos que souberam calar-se. Deve ser por isso é que tão tranquilo. Desenganem-se, as pessoas não andam nesta vida para ouvir verdades. Nascem para ser felizes. Mesmo que o sejam a fingir.

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Nada para dizer

por Cristina Nobre Soares, em 10.07.17

Engraçado como às vezes o facto de não nos apetecer dizer nada pode ser sinal do muito que trazemos dentro de nós.

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Velocidades diferentes

por Cristina Nobre Soares, em 07.07.17

Há dias em que tenho para mim que os últimos três anos não foram três, mas pelo menos uns vinte. Uns vinte anos que se sucederam ali, a semana passada, numa urgência parva, entre Domingo e Sexta-feira. Há dias que tenho a sensação que os dias se comprimem à nossa volta ao mesmo tempo que se expandem dentro de nós. Definitivamente envelhecemos a duas velocidades diferentes. É a vida.

 

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O universo faz olheiras

por Cristina Nobre Soares, em 06.07.17

Quando era miúda veio parar-me às mãos um livro chamado “Dois corações generosos” (Jules de Peyrrony), da Colecção Azul. O livro começava com uma espécie de aposta entre dois anjos da guarda. Um de uma menina muito rica e outro de uma menina muito pobre. Os dois apostaram entre si qual das duas teria mais hipóteses de ser boa pessoa. No fim, tal como seria de esperar num livro com boa moral, ambas se revelaram pessoas extraordinárias, de uma bondade formidável, a lembrar que o bem e as boas acções tudo vencem, sendo sempre recompensados, nem que seja um ou dois minutinhos antes de uma pessoa ir desta para melhor. Mas o livro teve a sua piada, porque apesar de meter anjos da guarda, nenhuma das personagens tinha o destino traçado. Cada uma delas foi fazendo escolhas, algumas delas com imenso potencial para darem para o torto. Bastava uma delas ter-se passado da marmita que a história teria outro desfecho, provavelmente bastante menos fofinho. Até porque aqueles anjos da guarda eram um bocado desocupados e andaram ali a encher chouriço, e quem teve a trabalheira toda foram elas. Não houve ali um destino traçado nem um universo alinhado em atirar flores à passagem delas. Elas é que se fizeram ao caminho da melhor forma que sabiam. Hoje, disse a alguém que o universo me fazia olheiras. E daquelas até ao queixo. É uma criatura difícil de se agarrar esse tal do universo. Mas vale a pena. Porque isso do esperar sentados à espera do retorno que há-de vir, só mesmo para anjos desocupados.

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