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O homem das castanhas

por Cristina Nobre Soares, em 31.05.17

Naquela tarde cheguei da Feira do Livro com a obra poética do Ary dos Santos. O meu pai olhou de soslaio para a chancela. Trocámos umas palavras azedas sobre política. Depois umas frases exaltadas, até que ficámos em silêncio, naquele silêncio que era sempre mais uma surdez, porque o ressentimento é surdo, não é mudo. Então, eu li-lhe o homem das castanhas. No fim, ele olhou para mim com aqueles olhos irónicos e esverdeados e disse-me, realmente ele escreveu poemas muito bons. Apesar de tudo. Eu podia ter retomado a discussão a partir do apesar de tudo. Em vez disso li-lhe outro poema. E depois outro. Até que a minha mãe nos chamou para jantar.

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Acasos

por Cristina Nobre Soares, em 29.05.17

Ontem, conheci alguém que me disse: a tua língua faz parte daquilo que és. Daquilo que queres deixar no mundo. Falámos de identidade, de poesia, do brincar com as palavras, da riqueza imensa da oralidade, daquela que não se escreve por se acreditar menor. Se calhar nunca mais nos vamos ver. Mas isso não importa. Há encontros que nos acontecem apenas para nos lembrar o que já nos fazia sentido há muito tempo. Quando falo de acasos, de sorte, é disto que falo. Ontem, foi um dia de sorte.

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Do amor entre os homens

por Cristina Nobre Soares, em 27.05.17

Diz-me que temos de ter uma atitude mais generosa para com o mundo. Que o grande problema da incompreensão, dos conflitos entre os homens é a falta de amor. Que as pessoas deviam abraçar mais e julgar menos. E eu digo, olha, isso dava um bom texto para eu escrever no meu blogue. Ela revira ligeiramente os olhos, que bom para ti, diz-me, eu cá não tenho tempo para blogues nem para estar sempre no facebook.

 
 
 
 

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Acordo tácito

por Cristina Nobre Soares, em 26.05.17

Andava no 9º ano quando comecei a ouvir The Cure. Vestia-me de preto, usava gravata e um blazer que tinha sido do meu irmão. Tinha aulas nuns pavilhões pré-fabricados e discutia o sentido da vida com um grupo de amigos angustiados. Desconfiávamos que um de nós era gay. Ele nunca assumiu e nós também nunca lhe perguntámos. Era um acordo tácito. Na altura ainda era assim. Éramos bons miúdos, mas não sei se teríamos tido o peito dos miúdos de Vagos.

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Das sobremesas "light"

por Cristina Nobre Soares, em 25.05.17

Como uma daquelas sobremesas "light", que prometem todo o prazer sem culpa. Provo. Não sei qual é ideia de prazer que têm os senhores que criam estas sobremesas, mas deve ser de uma coisa desenxabida, muito bege e abotoadinha até ao pescoço. Uma pessoa depois de comer isto até fica pronta para ir rezar uma novena. Que desconsolo, valha-me Deus

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Há dias mais longos

por Cristina Nobre Soares, em 24.05.17

Há dias mais longos. Mas não em horas e minutos. São dias de um longo sem qualquer métrica, que se prolonga tanto, mas tanto, que acaba por nos passar ao largo e tornar-se tempo outra vez. São dias que nos doem no corpo, neste corpo insuportavelmente pequeno, minúsculo, insignificante. Mas é nessa percepção da nossa massa ordinária feita de carbono e hidrogénio, como todas as massas de carbono e hidrogénio do universo, que conseguimos ser um bocadinho mais. E o dia termina.

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Qual é o seu pior defeito?

por Cristina Nobre Soares, em 24.05.17

Perguntam à entrevistada qual é o seu pior defeito. Ela responde sem hesitação: a teimosia. É normal. Se não tivesse dito teimosia teria dito impaciência. Ou então, “sou demasiado frontal”. A teimosia, a impaciência e o excesso de frontalidade são uma espécie de defeitos de sair à rua. Não têm as gelhas e as nódoas de uma mentira ou de uma inveja. Ficam arranjadinhos numa entrevista e com jeito conseguem passar por qualidades esforçadas. Ainda assim, divirto-me a imaginar os entrevistados a responderem coisas do género: olhe, sou uma cabra egoísta ou sou um cobardolas rebarbado, invejoso como o catano. Isto sim, seria ser demasiado frontal. Uma besta, portanto.

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Vantagens de se ter mais de 40 anos

por Cristina Nobre Soares, em 23.05.17

1. Deixas de dar passos maiores que as pernas, pois já conheces bem o tamanho das tuas pernas. E quando tens um metro e sessenta não dá para teres grandes ilusões sobre isto.
2. Aprendes a dizer as coisas como és e não como achas que os outros gostariam de ouvir.
3. Percebes que tens de dormir, que aquela coisa das directas e da noite dentro é para quem tem vinte anos ou para quem tem quem lhe limpe a casa e ature os filhos.
4. Aprendes a mandar à fava. E à merda. E é libertador.
5. Mas também aprendes a dizer: fazes-me falta. O que é ainda mais libertador.

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23 de Maio

por Cristina Nobre Soares, em 23.05.17

A minha filha gosta de Ariana Grande. É este o medo com que temos de aprender a viver.

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Canícula

por Cristina Nobre Soares, em 22.05.17

Olho de relance para agenda. Esta semana que começa, mais me parece um mês inteiro. Suspiro. Lá fora está uma luz muito clara, mas acinzentada. E lembro-me da palavra canícula. A primeira vez que li essa palavra foi nas "Pupilas do Senhor Reitor". A minha mãe decidira que eu tinha de ler Júlio Dinis e deixou-me na mesa-de-cabeceira as Pupilas e a Morgadinha. Não gostei. E a minha mãe não gostou nada que eu não tivesse gostado. São clássicos, disse-me ela. Que sejam, não gostei. Durante muitos anos sempre que eu dizia a alguém que achava Júlio Dinis uma estopada acabava sempre por levar um sermão. Até que deixei de dizer, e, ao nome dele, limitava-me a sorrir. Um sorriso do género daquele que a minha mãe punha quando alguém dizia alguma coisa inconveniente. Um dia mais tarde voltei a tentar. Há aquela coisa dos livros se lerem de forma diferente consoante a idade. Neste caso não mudei de opinião. De qualquer das formas acho que a luz de hoje não tem nada a ver com canícula. O João Semana ia cheio de calor e levava uma sombrinha. Aqui o dia está frescote.

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