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Um dia ainda o trago à rua

por Cristina Nobre Soares, em 27.04.17

Faço uma pausa antes de um último trabalho. Quando se passa o dia a redigir sobre coisas tão díspares como cerâmica, tecnologia e vinhos tem que se parar de vez em quando para deixar a cabeça respirar. Gosto quando chega esta hora de terminar. Porque sei que daqui a pouco, quando já for noite e a casa estiver sossegada, vou despir este fato-macaco de redigir. E vou vestir um outro que eu acho que me assenta sempre bem. Com ele tenho sempre um ar arranjadinho e para mais faz-me sobressair a cor dos olhos. O fato de contar histórias. Um dia, ainda o trago à rua.

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Das ideias

por Cristina Nobre Soares, em 26.04.17

Há as más ideias, as ideias péssimas, as assim-assim ou as nem por isso. Também há as boas ideias, as que têm potencial, as que têm cabeça, tronco e membros e também pernas para andar. E depois há aquelas que se nos metem pelo corpo adentro como uma força tamanha e tão tramada que têm mesmo de ser. Nem temos outro remédio. Porque se não fizermos caso delas ficam-nos ali, como uma dor moinha. E há não cruz pior que uma vida de dores moinhas. É muito pior do que uma vida sem ideias.

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A liberdade não tem floreados

por Cristina Nobre Soares, em 25.04.17

Celebrar o dia de hoje também é poder escrever isto sem ter de pedir licença, sem medo, sem ter de dizer mais nada. A liberdade não tem floreados.

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Emprestar um livro

por Cristina Nobre Soares, em 23.04.17

Quando emprestamos um livro também emprestamos um bocadinho de nós. Dizemos, adorei este livro, tens de o ler e ficamos na esperança que a pessoa nos encontre nos sítios onde nos perdemos. Emprestar um livro nunca é um gesto desinteressado. É um fio de Ariadne para coisas nossas que só nos livros se conhecem.

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Dos nomes dos pratos

por Cristina Nobre Soares, em 22.04.17

Há dias em que me dá saudades dos pratos sem imaginação nenhuma e com nome de pessoas, tipo “Bacalhau à Pacheco” ou “Arroz de couve à moda da Ermelinda”. E uma pessoa perguntava, isto leva o quê? E invariavelmente descobria-se que era um prato igual a tantos outros, com mais ou menos cebolada e azeitonas por cima. Agora os nomes dos pratos precisam de duas linhas, pontuação e de pelo menos um curso de formação para percebemos o que leva, do estilo: coxa de pato desfiada em confit de laranja amarga sobre cama de pastinaca carmelizada, redução glaceada de três vinhos adamados e crocante de batata chilena. E tudo servido em tábuas ou plaquinhas de xisto, em doses para gente que puxa pouco pelo corpinho para trabalhar. Sou uma saloia, é o que é.

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Vacinas: eu sei uma coisa que tu não sabes.

por Cristina Nobre Soares, em 19.04.17

Muitas vezes, quando alguém não nos consegue transmitir uma ideia de forma clara ficamos com a sensação de que nos está a esconder alguma coisa. Seja pelo vocabulário rebuscado que usou e que não sabemos o que quer dizer. Seja por transmitir ideias incompletas.

Eu estava na 32ª semana de gravidez quando o meu obstetra, que era uma besta, a meio de uma consulta de rotina de me diz: temos de fazer uma ecocardiografia fetal. E eu, obviamente assustada, perguntei: Porquê? Ao que ele me respondeu, sem mais justificações (e acreditem que foram pedidas), porque desconfio que o bebé possa ter um problema cardíaco. Foram dias de uma angústia tremenda, com medo de uma coisa que eu nem sequer sabia bem o que era. Mas era imenso. O maior medo que alguém pode alguma vez sentir: o de perder um filho.

O médico que fez a ecocardiografia não era uma besta. Muito pelo contrário. Percebeu o nosso pânico no momento em que entrámos no consultório. E explicou-nos tudo: riscos, possibilidades, o que estava em causa, o que fazer, o que não fazer. No fim, para nosso alívio, disse-nos que estava tudo bem com o bebé. Mas para além do imenso alivio que senti, o que me ficou foi a clareza e a objetividade com que ele falou connosco. A forma simples como respondeu a todas as nossas questões, explicando termos médicos quando não sabíamos o que queriam dizer. Sem paternalismos, sem arrogâncias. E isso deu-me a mim, e ao meu marido, segurança. Saber o que estava em causa deu-nos capacidade de escolha, chão. Um chão, que poderia ter sido fundamental, caso o diagnóstico tivesse sido o pior. Felizmente não foi.

Lembro-me quando era criança que quando sabíamos um segredo, gostávamos de arreliar os outros dizendo, sei uma coisa que tu não sabes. E os outros sentiam-se menos, postos de parte. Saber uma coisa que mais ninguém sabe é uma forma cretina de poder. Uma forma de opressão. Porque se não sabemos também não podemos escolher. Não saber oprime-nos a liberdade de escolha.

Num momento que o assunto da vacinação ferve nas redes sociais, e que se procuram tão avidamente os culpados, penso que a comunidade cientifica também tem culpas no cartório. A comunicação, a divulgação científica infelizmente não é feita para todos. É feita, muitas vezes, numa linguagem hermética só percetível pelos seus pares. O comum dos mortais não percebe e sente-se posto à margem. Como os miúdos do recreio. E, tal como todas as distorções, o medo também parece maior à margem. Por outro lado, os gurus da pseudociência sabem como falar ao coração das pessoas. Fazem-nos de uma forma simples, apelando a sentimentos básicos, como o medo, autopreservação e a raiva.

A comunidade científica do alto da sua torre de conhecimento deixou-se ficar para trás. E precisa urgentemente de aprender a passar a sua mensagem. De uma forma simples, que todos percebam. Explicar às pessoas o que significam os riscos de efeitos secundários. Explicar-lhes percentagens e uma coisa chamada probabilidade. Explicar que as vacinas só funcionam colectivamente e porquê. E, acima de tudo, explicar como funciona uma vacina, o que é um anticorpo, o que é imunidade. Para que os pais saibam o que realmente está em causa. E neste rescaldo da adolescente que morreu com sarampo, podemos ver que está demasiado em causa. Ninguém faz más escolhas intencionalmente. Fazemos a melhor escolha possível com os dados e conhecimento que temos na mão. Por isso só conseguimos escolher quando compreendemos. Porque quando não compreendemos só nos resta uma coisa: ter medo. E isso não é uma escolha. É uma crença.

 

 

 

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A morte de um filho

por Cristina Nobre Soares, em 19.04.17

Não é de agora, deste surto de sarampo e de indignação, que me tenho insurgido contra os movimentos anti-vacinas. Esta, para mim, é uma luta já com algum tempo. No entanto acho de uma crueldade sem par este apedrejamento público contra os pais da adolescente que morreu hoje. A morte de um filho é uma dor demasiado grande para ser usada de ânimo leve em praça pública.

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Fuchsia

por Cristina Nobre Soares, em 18.04.17

A mulher à minha frente dorme, com o duplo queixo comprimido contra o peito. Está toda vestida de preto. O cabelo também é preto, daquele preto desleixado pintado em casa. Olho pela janela, por aquela janela onde não se vê mais nada a não ser o nosso reflexo e o passar do tempo exausto da cidade. A mulher de preto acorda dois segundos antes do metro parar. Quando se levanta para sair reparo no fuchsia das suas unhas. Unhas cuidadas. As horas da cidade são como as unhas dela: fugazes segundos de cor num pano de fundo que julgamos preto.

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Os dias a meio gás

por Cristina Nobre Soares, em 17.04.17

Os dias a meio gás são estranhos. São dias que nem chove nem faz sol. Que se trabalha mas nem por isso. Mas é um nem por isso que nem sequer cheira a férias porque afinal trabalha-se. São dias que se empastam, mas que são menos chatos que os outros. Ou os outros é que são mais chatos que estes. São dias em que dizemos, vai pondo o jantar ao lume que eu hoje saio mais cedo, o que não tem sentido porque nestes dias que se arrastam jantamos sempre mais tarde. São estranhos estes dias. Ou se calhar somos nós que ficamos estranhos por causa destes meios dias que parecem uma pessoa inteira.

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Gabriel García Marquez

por Cristina Nobre Soares, em 17.04.17

Tinha dezanove anos quando o conheci numa tarde de Julho, em Lagos. Cruzei-me com ele, por mero acaso, durante uma tarde em que todos dormiam e eu, que sempre detestei dormir a sesta, ficava a ler no sofá numa meia penumbra. As paixões são assim: surgem sem presságio e engolem-nos sem aviso. Não há magia nisso. Só vida. Mágico é saber dar por ela.

 

 

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 Gabriel García Marquez : Aracataca, 6 de Março de 1927 - Cidade do México, 17 de Abril de 2014.

 

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