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Uma hora de atraso

por Cristina Nobre Soares, em 26.03.17

Enquanto bebo o café penso que tenho acertar o relógio da cozinha pela hora nova. É o único relógio da casa que precisa do meu ajuste, os outros acordaram como por magia na hora nova. Este não, precisa de mim. Uma vez esteve quase um ano parado porque não lhe mudei as pilhas. A minha preguiça ou indiferença parou-lhe o tempo. Há pessoas que têm esse mesmo poder em nós. Deixam-nos suspensos no tempo delas, presos numa hora antiga, desencontrados dos outros até a um próximo equinócio. Ponho a chávena no lava-loiça e penso que a nossa resignação se calhar é isso: a nossa vontade presa numa hora de atraso.

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O maior perigo de todos

por Cristina Nobre Soares, em 25.03.17

Tenho pensado se escreva alguma coisa sobre o atentado de Londres. Mas não sei o que dizer. Tudo o que eu possa escrever já o terei dito noutras alturas, no atentado de Paris, no de Bruxelas,  Nice, etc. E isso assusta-me. Muito. Quando deixamos de ter alguma coisa para dizer é sinal que a indiferença se instalou. Neste caso porque de alguma forma o começamos a assimilar como normal. E esse é o maior perigo de todos.

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Tenho blogues desde 2007. Com eles conheci muita gente boa, aprendi muito e sem dúvida que foram a minha jangada para voltar àquilo que sempre gostei de fazer: a escrita. Mas, como tudo na vida, tudo tem um lado mau. E o lado mau dos blogues são os chamados “haters” e  “trolls”, que é o nome moderno que se dá a pessoas (a grande maioria anónimas) que não têm mais nada do que fazer senão chatear os outros. À conta dessas pessoas, e de alguns momentos mais azedos que me fizeram passar, passei a moderar os comentários. Não é coisa que me agrade muito, mas a minha caixa de comentários não é o melhor sítio para as pessoas destilarem essas frustrações. Guardem isso para o terapeuta, não para o meu estaminé. 

A maior parte das vezes, se calhar quase todas, não ligo. Apago o comentário e ignoro. Mas às vezes satura. Se satura! Principalmente o facto dessas pessoas escudarem a cobardia atrás do anonimato. Acontece que, como boa humana que sou, também faço asneira e da grossa. À conta dessa minha saturação, esta semana resolvi dar resposta a um comentário, que ainda por cima interpretei mal. Li-o  e pensei, lá vem este gajo outra vez, só com um nickname diferente, chega! Enganei-me e fui tremendamente injusta. E incorrecta. E à conta disso acabei por não ser muito diferente daqueles que me agridem aqui frequentemente.Uma vez disseram-me que as desculpas não se pedem: evitam-se. Neste caso acho que se aplica lindamente, mas a asneira está feita e já não tenho muita volta a dar. Cara Isabel Santos, não sei se irá ler este post, eu no seu caso nunca mais cá passaria, mas caso passe: as minhas desculpas. Mesmo.

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Diário de ausência do Facebook #1

por Cristina Nobre Soares, em 22.03.17

Tudo continua mais ou menos na mesma. A Primavera entrou no mesmo dia e o Inverno foi-se embora e ninguém falou dele, é o costume. Coitado do Inverno, é aquele parente afastado que se atura porque tem de ser, parece mal não o fazer, mas quando vai embora respira-se fundo que já não havia paciência para lhe aturar as neuras. O dia do pai também se passou, digo todos os anos que não vou fazer um post fofinho como toda a gente. Fiz. Vá lá que não publiquei um poema ontem, que era o dia da poesia, mas foi só porque me esqueci. Enfim, não há volta a dar, sou tremendamente igual às outras pessoas. Há muito tempo que desisti de ser genial, cansa-me sobremaneira. Paciência, sou gira, não se pode ter tudo.
Também ainda não tive aquela epifania que dizem que se tem quando se sai do Facebook. Como aquelas pessoas que descobrem que há toda uma vida para além do Facebook, e desatam a publicar fotografias dessa revelação no Instagram. Mas essas coisas também nunca costumam resultar comigo, como da última vez que cortei no açúcar e me pus a adoçar as coisas com tâmaras medjool e bananas. Andei uns dias à espera de acordar extremamente saudável, enérgica e positiva. Nada. Em vez disso, as tâmaras deram-me cabo do fígado e um tom esverdeado à aura.
Vou continuar nesta intermitência mais uns dias. Qualquer coisa de maior dou notícias.

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Tabaco para cachimbo

por Cristina Nobre Soares, em 19.03.17

Houve um tempo em que eu, neste dia, oferecia tabaco para cachimbo ao meu pai. Hoje pus os olhos no cachimbo ( pedi-o à minha mãe quando o meu pai morreu) e cheirou-me a um tabaco com cânfora que ele fumava. E lembrei-me de mim a entrar na sala e perguntar, então senhor Soares, como vai isso? Ele riu-se, anda lá anda, minha descarada. E eu sentei-me num dos puffs verdes, que eu mandei forrar de branco, e conversámos um bocadinho. Não sei se isto aconteceu. Isso não interessa quando sentimos falta. A memória é um sitio onde também moram as coisas que gostaríamos que tivessem sido.

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Da escrita

por Cristina Nobre Soares, em 16.03.17

Temos de deixar que uma história termine para que depois a possamos escrever. A ficção, por vezes, é apenas isso: o fim de uma espera.

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A dor de cotovelo das outras gajas

por Cristina Nobre Soares, em 16.03.17

A dor de cotovelo é uma dor que só as outras é que têm. Nós, não. Nós somos imunes à dor de cotovelo. Superiores. Nós não nos importamos que fulana seja mais gira, mais magra. Nem que não tenha rugas, um pé de galinha sequer, a parvalhona. Nada disso, gostamos muito de como somos, isso é que importa, que ainda no outro dia li que as pessoas bem-sucedidas só se importam com elas próprias, e nós somos muito iguais as nós próprias, mesmo quando imitamos alguém. E para a gaja estar assim não deve fazer mais nada e gastar rios de dinheiro, se calhar fisgou um gajo rico, olha assim também eu, devias era ter a minha vida para veres o que é bom para tosse. Não a dor de cotovelo não nos assiste, nem com aquela tipa, vinda sabe-se lá de onde, a passar-nos a perna no trabalho, que isto mais vale cair em graça do que ser engraçado, já se sabe. Quem é que ela julga que é, que chega aqui e manda nisto tudo, afinal a idade ainda é um posto. Tem a mania que é esperta, nariz empinado, mas deixa, que mais dia menos dia ainda se espalha, está bom de ver. Mas adiante, que nós não ligamos, somos superiores a isso, temos uma vida muito preenchida. Mas há coisas que não se percebem. Olha toda a gente a fazer like na fotografia de perfil dela. Por favor, ainda por cima a gaja é vesga. Se não é, parece e só não deve notar mais por causa das carradas de Photoshop nas fotografias. Ah, pois que aquilo não é natural, vê-se daqui. Não, a dor de cotovelo é coisa que não nos assiste. Só às outras. Obviamente.

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Nas bancas

por Cristina Nobre Soares, em 14.03.17

"A única ligação que tenho ao Norte faz-se nos sotaques e nas palavras. E quem diz ao Norte diz a qualquer outro lado do país aonde chego e apanho o sotaque ao fim de um dia. É normal. Como não sou de parte alguma, sou da forma como falo."

Diz que este mês me podem ler em papel. Aqui.

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Os ciprestes

por Cristina Nobre Soares, em 13.03.17

Lá em baixo, no pátio, os ciprestes agitam-se com o vento de uma forma ortopédica. Os ciprestes são árvores infelizes. Durante muito tempo condenadas a ensombrarem os cemitérios, hoje são obrigadas a serem figurantes mediterrânicos nestas Ágoras modernas, sem gente, nem movimento. São, por isso, árvores habituadas ao vazio e ao silêncio. Árvores feitas para que não reparem nelas, pois até a própria sombra não é mais do que uma faixa magra e inútil no chão. São criaturas que aprendem a ser invisíveis. É o que se espera delas: que se deixem ficar sem se fazerem notadas. E eu penso no tanto que poderíamos aprender sobre as pessoas se olhássemos mais para as árvores. 

 

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Pensar no impossível

por Cristina Nobre Soares, em 12.03.17

Houve um tempo que eu fazia muitos quilómetros de carro. Às vezes regressava a casa já pela noite dentro. E eu, que nunca gostei de conduzir, aprendi a gostar dessas viagens, desses regressos de horas de silêncio. Fiz muitos planos durante essas horas ao volante. Mas planos disparatados, daqueles que sabemos ser impossíveis de concretizar. Até porque a piada de fazer esses planos é sabermos que nunca vão acontecer, porque servem apenas para serem pensados. E é libertador fazê-los. É um flirt com uma vida que nunca passará mais do que uma noite na nossa cama. Não temos nada a perder com esses planos. Amanhã já não nos lembramos deles. Nunca mais nos voltamos a ver. Nem é suposto. Só temos de ficar com a sensação que nos causaram. Uma loucura sem consequências. Pensar no impossível é isso: uma espécie de loucura em ampolas clinicamente testadas. Que se devem tomar uma vez ao dia, diluídas num copo com água,  para dar boas cores.

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