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Percepção

por Cristina Nobre Soares, em 31.03.17

Fim de Março: pessoas em t-shirt ao lado de outras de gola alta e casacão. A percepção do mundo que cada um tem é realmente um mistério tramado para desvendar.

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Guia de tipos de posts do Facebook

por Cristina Nobre Soares, em 29.03.17

A boca – É o mais comum dos posts. Um bom utilizador do Facebook terá que dominar em pleno este estilo. É uma manifestação rápida acerca de um tema sobre o qual toda a gente fala. Por norma é constituído por uma, máximo duas frases, não mais.

O remoque – É uma variação da boca, mas possuindo uma larga dose de despeito e rebarbação. É sempre dirigido a alguém, embora nunca se diga a quem. Por norma este tipo de post começa com “Há pessoas que…”.

O bitaite – Outra variação da boca. Distingue-se desta se começado por “Eu acho que…” ou “ Na minha opinião…”. O bitaite só é bitaite quando escrito em tom de verdade absoluta, caso contrário poderá ser facilmente confundido com uma simples boca.

A piadola - Toda a gente acha que consegue fazê-la, mas nem por isso. Mais uma variação da boca, nem sempre atinge o seu objectivo, por não ter piada nenhuma. A única forma de a distinguir é pela quantidade de "ahahahah", "eheheheh" e de "     ", na caixa de comentários.

A abespinhação – Começou por ser uma espécie de superlativo indignado do bitaite, no entanto tem ganho um número cada vez maior de adeptos, fazendo escola no tipo de posts de Facebook. Reconhece-se facilmente pelo tom zangado não só do próprio post como dos comentários respectivos. O comentário a uma abespinhação não poderá ser, em situação alguma, razoável ou de opinião neutra. A abespinhação alimenta-se de outra abespinhações.

A declaração de interesses - Este tipo de post engloba uma série de temáticas, sendo obrigatoriamente exclamativo. Poderá ser sobre coisas tão díspares como a opinião sobre um hambúrguer gourmet, um filme (Gostei muito! Adorei!!) ou mesmo para fazer declarações fofinhas a terceiros, do género: És a luz que me ilumina! Adoro-te!

A lamúria - Variação menor da declaração de interesses, normalmente em tom de choradinho, sobre alguém, a chuva, o frio, as segundas-feiras, a falta de wi-fi . Ninguém liga muito a este tipo de post.

A citação – Na sua grande maioria da autoria de Einstein, é muitas vezes uma alternativa eficiente ao remoque, uma vez que “não fui eu quem disse, mas sim uma pessoa credível e famosa”.

A posta de pescada – Combina a boca com a declaração de interesses, mas de forma erudita, citando e partilhando fontes credíveis. Há também a posta de pescada em vertente lírica, por norma carregada com pelo menos quatro adjectivos e usando vocabulário em desuso desde o século XIX.

O relambório – Ainda por definir. Ninguém lê.

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Da falta de tempo

por Cristina Nobre Soares, em 28.03.17

Ontem, durante uma conversa na rádio (muito boa, por sinal) falou-se da crónica falta de disponibilidade das pessoas. Para variar, culpámos a falta de tempo. Mas eu tenho para mim que a falta de tempo, coitada, tem as costas largas. Todos acreditamos que fazemos coisas absolutamente importantes, fundamentais, cruciais, para a vida dos outros. E à conta disso passamos a vida a pormo-nos em bicos de pés, a gesticular e a gritar mais alto, mas sempre tudo de uma forma bonita e que de preferência brilhe muito. Tudo para que reparem em nós. Mas esquecemo-nos que a melhor forma de repararem em nós é gastarmos algum do nosso precioso tempo a repararmos nos outros. Porque a nossa importância mede-se num duplo sentido, numa relação um para um. Dá trabalho, é verdade. Mas a (boa) relação entre as pessoas não é coisa para preguiçosos, nem para agiotas do tempo (dos que cobram juros altíssimos pelo tempo que nos emprestaram). E penso que se calhar a culpa é mesmo da falta de tempo. Mas não da dos outros. Da nossa.

 
 
 

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A propósito do dia mundial do teatro

por Cristina Nobre Soares, em 27.03.17

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A minha filha tinha 5 anos quando lhe comprei este livro. Na altura alguém me disse, isso é uma história muito triste para a criança, ela ainda não percebe. Não quis saber e nesse mesmo dia li-o ao final da tarde, depois de a ir buscar ao infantário. Ela ouviu a história toda sem fazer uma única pergunta. No fim, a chorar disse-me: ó mãe tão triste, mas tão bonita. É a história mais bonita do mundo. Li-lhe as duas últimas páginas, quando Roxane descobre que sempre amou Cyrano e não Cristiano, vezes sem conta. Ficou o nosso livro. Um livro só meu e dela. Chegámos a lê-lo em conjunto na escola, para os outros meninos. Nunca fui uma candidata a mãe-do-ano, daquelas que são permanentes fábricas de recordações felizes. Não lhe fiz quilómetros de fatos em feltro e dracalon e nunca liguei muito às bonecas dela (talvez porque nunca tivesse ligado muito às minhas). Resta-me a consolação que lhe dei Cyrano e a certeza que o amor, a poesia e o teatro são as únicas coisas que nos redimem da nossa humanidade.

 

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Uma hora de atraso

por Cristina Nobre Soares, em 26.03.17

Enquanto bebo o café penso que tenho acertar o relógio da cozinha pela hora nova. É o único relógio da casa que precisa do meu ajuste, os outros acordaram como por magia na hora nova. Este não, precisa de mim. Uma vez esteve quase um ano parado porque não lhe mudei as pilhas. A minha preguiça ou indiferença parou-lhe o tempo. Há pessoas que têm esse mesmo poder em nós. Deixam-nos suspensos no tempo delas, presos numa hora antiga, desencontrados dos outros até a um próximo equinócio. Ponho a chávena no lava-loiça e penso que a nossa resignação se calhar é isso: a nossa vontade presa numa hora de atraso.

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O maior perigo de todos

por Cristina Nobre Soares, em 25.03.17

Tenho pensado se escreva alguma coisa sobre o atentado de Londres. Mas não sei o que dizer. Tudo o que eu possa escrever já o terei dito noutras alturas, no atentado de Paris, no de Bruxelas,  Nice, etc. E isso assusta-me. Muito. Quando deixamos de ter alguma coisa para dizer é sinal que a indiferença se instalou. Neste caso porque de alguma forma o começamos a assimilar como normal. E esse é o maior perigo de todos.

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Tenho blogues desde 2007. Com eles conheci muita gente boa, aprendi muito e sem dúvida que foram a minha jangada para voltar àquilo que sempre gostei de fazer: a escrita. Mas, como tudo na vida, tudo tem um lado mau. E o lado mau dos blogues são os chamados “haters” e  “trolls”, que é o nome moderno que se dá a pessoas (a grande maioria anónimas) que não têm mais nada do que fazer senão chatear os outros. À conta dessas pessoas, e de alguns momentos mais azedos que me fizeram passar, passei a moderar os comentários. Não é coisa que me agrade muito, mas a minha caixa de comentários não é o melhor sítio para as pessoas destilarem essas frustrações. Guardem isso para o terapeuta, não para o meu estaminé. 

A maior parte das vezes, se calhar quase todas, não ligo. Apago o comentário e ignoro. Mas às vezes satura. Se satura! Principalmente o facto dessas pessoas escudarem a cobardia atrás do anonimato. Acontece que, como boa humana que sou, também faço asneira e da grossa. À conta dessa minha saturação, esta semana resolvi dar resposta a um comentário, que ainda por cima interpretei mal. Li-o  e pensei, lá vem este gajo outra vez, só com um nickname diferente, chega! Enganei-me e fui tremendamente injusta. E incorrecta. E à conta disso acabei por não ser muito diferente daqueles que me agridem aqui frequentemente.Uma vez disseram-me que as desculpas não se pedem: evitam-se. Neste caso acho que se aplica lindamente, mas a asneira está feita e já não tenho muita volta a dar. Cara Isabel Santos, não sei se irá ler este post, eu no seu caso nunca mais cá passaria, mas caso passe: as minhas desculpas. Mesmo.

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Diário de ausência do Facebook #1

por Cristina Nobre Soares, em 22.03.17

Tudo continua mais ou menos na mesma. A Primavera entrou no mesmo dia e o Inverno foi-se embora e ninguém falou dele, é o costume. Coitado do Inverno, é aquele parente afastado que se atura porque tem de ser, parece mal não o fazer, mas quando vai embora respira-se fundo que já não havia paciência para lhe aturar as neuras. O dia do pai também se passou, digo todos os anos que não vou fazer um post fofinho como toda a gente. Fiz. Vá lá que não publiquei um poema ontem, que era o dia da poesia, mas foi só porque me esqueci. Enfim, não há volta a dar, sou tremendamente igual às outras pessoas. Há muito tempo que desisti de ser genial, cansa-me sobremaneira. Paciência, sou gira, não se pode ter tudo.
Também ainda não tive aquela epifania que dizem que se tem quando se sai do Facebook. Como aquelas pessoas que descobrem que há toda uma vida para além do Facebook, e desatam a publicar fotografias dessa revelação no Instagram. Mas essas coisas também nunca costumam resultar comigo, como da última vez que cortei no açúcar e me pus a adoçar as coisas com tâmaras medjool e bananas. Andei uns dias à espera de acordar extremamente saudável, enérgica e positiva. Nada. Em vez disso, as tâmaras deram-me cabo do fígado e um tom esverdeado à aura.
Vou continuar nesta intermitência mais uns dias. Qualquer coisa de maior dou notícias.

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Tabaco para cachimbo

por Cristina Nobre Soares, em 19.03.17

Houve um tempo em que eu, neste dia, oferecia tabaco para cachimbo ao meu pai. Hoje pus os olhos no cachimbo ( pedi-o à minha mãe quando o meu pai morreu) e cheirou-me a um tabaco com cânfora que ele fumava. E lembrei-me de mim a entrar na sala e perguntar, então senhor Soares, como vai isso? Ele riu-se, anda lá anda, minha descarada. E eu sentei-me num dos puffs verdes, que eu mandei forrar de branco, e conversámos um bocadinho. Não sei se isto aconteceu. Isso não interessa quando sentimos falta. A memória é um sitio onde também moram as coisas que gostaríamos que tivessem sido.

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Da escrita

por Cristina Nobre Soares, em 16.03.17

Temos de deixar que uma história termine para que depois a possamos escrever. A ficção, por vezes, é apenas isso: o fim de uma espera.

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