Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Plano Nacional de Leitura e Valter Hugo Mãe.

por Cristina Nobre Soares, em 31.01.17

 

Li "Os Filhos da Droga", de Christiane F., às escondidas. Tinha 14 anos e a minha mãe dizia, ainda não tens idade para leres isso. Mas não quis saber e li-o aos poucos, sempre que ela saía para ir ao supermercado. Não tens idade para leres isso. Aquelas leituras eram uma espécie de descida ao inferno, que duravam o tempo das compras da semana. Havia lá palavras como pívia e mamada. Mas não foram essas que me deixaram chocada. O que me deixou chocada foi descobrir, aos 14 anos, que se pode destruir uma vida inteira com a escolha de um único momento. E isso é uma pornografia inevitável da vida, para a qual não há leitura orientada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os que têm medo

por Cristina Nobre Soares, em 30.01.17

Há os que falam. Os que ficam calados. Os que dizem logo que não. Os que concordam com tudo. Os que não concordam, mas ficam calados. Os que nem sequer têm opinião. Os que querem. Os que teimam. Os que desistem. Os que pensam em voz alta. Os que passam a noite a pensar em silêncio. Os que não gostam de pensar porque dá trabalho. Os que se acomodam. Os que explodem. Os que implodem. Os que entram na arena. Os que ficam na bancada. Os que aplaudem. Os que vaiam. Os que não reagem. Há os que têm ideias. Os que não têm ideia nenhuma e não se importam. Os que fazem sempre igual. Os que copiam as ideias dos outros. Os que invejam. Os que celebram. Os indiferentes. Os cobardes. Os que fingem não ter medo. Os que não têm medo e que por isso não existem. E há os que têm medo e que são todos os anteriores.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As mães de 40 não dizem bué

por Cristina Nobre Soares, em 29.01.17

 

A Alda e o Gamito eram trabalhadores-estudantes e deviam ter mais de cinquenta anos. Ou se calhar não tinham, tinham uns quarenta e tal, mas aos vinte toda a gente com mais de quarenta parece-nos pelo menos cinquenta. A Alda e o Gamito eram simpáticos, mas chatos. Passavam a vida a pedir apontamentos e a fazer perguntas. A Alda e o Gamito eram uns bem dispostos, mas esqueciam-se que já não tinham idade para dizer búe e butes, muito menos para irem beber cerveja para as festas da associação e gostar de U2. Por isso a gente ria-se. Coitados, não se lembravam que já eram velhos, pensávamos nós. Não devia ser fácil ser-se velho e ter de andar naquelas andanças, em vez de estar em casa com a família. Por isso a gente explicava as coisas mais devagar à Alda e ao Gamito, sempre com um sorrisinho condescendente. Um dia também lá chegaríamos a velhos e íamos ver o que era bom para a tosse. E devia ser chato uma pessoa sentir-se acabada, sem poder beber copos por causa do colesterol e da gota, e ainda ter de começar de novo. Tipo tirar um curso ou mudar de vida. Coitados. Por isso a gente até fingia que não achava ridículo eles rirem-se das nossas piadas. Não sei o que é feito da Alda e do Gamito. Mas hoje lembrei-me deles. Disse bué e a minha filha repreendeu-me: podias parecer mais uma mãe de 40. As mães de 40 não dizem bué.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Se nos chovessemos

por Cristina Nobre Soares, em 27.01.17

Parou de chover e o céu abriu um pouco. O ar está mais leve, limpo de poeiras, a deixar-nos o olhar mais nítido. E eu penso no jeito que daria se nos chovessemos de vez em quando. Para depois nos parecer tudo mais límpido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Das coisas tramadas para o caminho da igualdade de género

por Cristina Nobre Soares, em 27.01.17

Das coisas que mais me ultrapassa o entendimento e mais me dói é ver como as mulheres, por vezes, se tratam umas às outras num grupo de trabalho. Corre tudo muito bem enquanto o grupo é pequeno, enquanto está tudo ao mesmo nível, tudo de acordo, mas o caldo entorna-se quando, no meio de um grupo que cresceu, há uma que se destaca. Destaque esse que pode acontecer por uma delas se chegar à frente e tomar iniciativa, ou simplesmente por funcionar noutra frequência. Quando isto acontece gera-se uma espécie de alergia colectiva, que os preconceitos e os julgamentos fáceis são coisas que dão uma comichão terrível. E depois tudo serve para ser levado pessoalmente, a peito e a despeito. O trabalho deixa de ser apenas trabalho e passa a ser um território de fronteiras domésticas muito bem definidas. Aflige-me sobremaneira ver que há mulheres que me parecem ser muito tolerantes a aceitar as diferenças e a liderança dos outros, desde que esses outros não sejam outras. Pena que nós, mulheres, não percebamos que assim só tornamos este caminho da igualdade de género ainda mais pedregoso. Que é como quem diz: tramado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da nudez

por Cristina Nobre Soares, em 24.01.17

Engraçado como a nudez do nosso corpo não nos choca. Conhecemos-lhe todas as falhas e cicatrizes, os sinais deformados, as pregas de carne, os sítios onde gostamos que nos toquem. Mas a nudez do nosso avesso, daquilo que realmente somos, é diferente. Como se a nossa verdade estivesse sempre vestida, sempre muito composta e decente. E nos raros momentos em que ela, por perder o juízo, se despe, baixamos os olhos e corremos a tapá-la com uma manta. E dizemos-lhe, compõe-te, que isso não são propósitos. Mas ela não se rala. Porque a verdade é uma dor sem vergonha nenhuma.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dos professores

por Cristina Nobre Soares, em 21.01.17

Hoje, durante as voltas habituais de Sábado de manhã, encontrámos uma das professoras preferidas da minha filha. Deu-lhe história no 6º ano. Lembro-me que nunca gostei muito da disciplina de história. Para mim era uma daquelas disciplinas tipo rebuçados para a tosse: mal não fazia, mas eu dispensava. Geografia era outra disciplina que eu metia nesse saco. Até ao nono ano, em que me calhou um professor daqueles que não se esquecem. Pela paixão com que ensinava, paixão essa capaz de transformar uma pirâmide demográfica numa história arrebatadora. As aulas dele apesar de serem dadas com giz e retroprojector, como as outras, pareciam mais pequenas. As boas histórias, bem contadas, têm esse poder: o de nos encurtar o tempo. E de nos fazer lembrar, mesmo muitos anos mais tarde, tudo aquilo que ouvimos. As duas despedem-se, e a minha filha comenta enquanto nos afastamos, todos os professores deviam ser assim. E eu penso que sim, deviam ser. Porque um bom professor pode fazer milagres com uma má pedagogia. Mas a melhor das pedagogias pouco fará por um mau professor. Pena que não pensemos nisto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Jeito para a matemática

por Cristina Nobre Soares, em 18.01.17

No café falamos sobre coisas que nos marcam. Momentos decisivos. E todos os restantes lugares comuns que costumam caber nestas conversas. Falamos da vida como se esta fosse uma sucessão de pontos, discretos, sem aparente ligação entre si. Torço o nariz, digo que me parece que somos mais um fenómeno contínuo, uma linha mal-amanhada que vai ligando esses pontos que nos acontecem. Faço um desenho no guardanapo a tentar explicar isso. Olha para o meu gatafunho e diz-me, com visível desinteresse, nunca tive jeito para a matemática. E eu amarroto o guardanapo e penso que já eu nunca tive jeito para me armar em esperta. Nem a matemática me safa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Das coisas bonitas do Inverno

por Cristina Nobre Soares, em 17.01.17

Das coisas bonitas do Inverno: levantares os olhos e perceberes que o ao longe se tornou mais nítido por causa da luz fria de uma manhã de Janeiro. À parte disso tenho o nariz frio. Paciência.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A janela do Facebook

por Cristina Nobre Soares, em 13.01.17

Depois de acabar o curso o primeiro trabalho que tive foi como bolseira. Passava o dia debruçada sobre uma lupa a identificar insectos aquáticos conservados em formol. Toda uma emoção, portanto. Volta e meia levantava-me para desentorpecer as pernas e ia à janela. De uma delas via-se uma nesga da ponte. E a ponte dava-me uma sensação absurda de movimento só por ver os carros passarem. Eles não me viam, mas entretinham-me. Depois voltava para o meu trabalho solitário, feito de silêncio. Hoje, felizmente, faço uma coisa muito diferente desse tempo. Mas igual em solidão e silêncio. Volta e meia vou à janela do Facebook. Dá-me uma sensação absurda de ver gente. Não nos vemos, mas entretemo-nos

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pág. 1/2



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

GA



google-site-verification: googledeb34756365df053.html