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A vida na província #1

por Cristina Nobre Soares, em 27.12.16

Perguntam-me muitas vezes como é viver na província. Noto-lhes nos olhos, cansados das rotinas urbanas, uma espécie de desejo de terra prometida. E para lhes preservar o idílio digo-lhes o que querem ouvir. Falo-lhes da tranquilidade, do tempo que parece ser maior, da ausência de cinzento e horas perdidas no trânsito. Não lhes minto, que isto é uma grande verdade. A verdade que me vai fazendo ficar, apesar das saudades da cidade. A outra verdade, a que tem menos pássaros pela manhã, guardo-a para mim. Não lhes conto que viver na província é ser estrangeiro para sempre. Troca-se o anonimato da cidade pelo rótulo “não é de cá”. Na província as pessoas cresceram juntas, conhecem sempre alguém que conhece outro alguém. Uma cadeia de ligações que nunca nos toca, porque desemboca sempre no passado. Num passado que aconteceu um dia antes de chegarmos à província. Não, isto eu não conto às pessoas da cidade. Em vez disso, continuo a falar da qualidade de vida, do faisão que sobe e desce a minha rua, sem vergonha nenhuma, do homem que me cumprimenta sempre no cruzamento, e de quem eu não sei o nome, mas sei que ele saberá o meu e onde moro, que tenho um filha e que não sou de cá. As pessoas da cidade suspiram e dizem que um dia farão como eu. Eu sorrio e respondo sempre a mesma coisa: um dia também regresso à cidade. Afinal, para ser estrangeira preciso de ter um sítio onde voltar. Um lá. Que é de onde sempre fui: de lá. Os de cá têm a sua razão.

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Feliz Natal em linha recta

por Cristina Nobre Soares, em 22.12.16

O Natal da minha infância tinha um presépio, com bocados de carpete verde a fazer de musgo, numa lareira postiça que afinal era um bar. O Natal da minha infância tinha sonhos com calda e azevias de grão. Mas acima de tudo o Natal da minha infância era música. No gira-discos do meu pai ou na televisão. E no Natal da minha infância havia eu, sentada com as pernas à chinês, a ouvir a música ao pé do presépio que tinha bocados de carpete verde a fazer de musgo.

Tenham um feliz Natal. :)

 

 

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Um chão feito de avesso

por Cristina Nobre Soares, em 18.12.16

A meio do livro a contadora de histórias canta uma canção tradicional alentejana. E tu, que não és de sítio nenhum, por breves segundos deixas que as palavras cantadas te emprestem uma pertença. Uma pertença sem geografia que mora na boca de quem fala a mesma língua do que tu. Engraçado que não haja palavras que definam este chão feito de um avesso só nosso.

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A universidade é feita de pessoas, para pessoas

por Cristina Nobre Soares, em 16.12.16

A  minha crónica de hoje, no P3.

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Um post fofinho de Natal

por Cristina Nobre Soares, em 15.12.16

Cada vez mais me aborrece esta correria natalícia. Não tenho paciência, dá-me nervos. Bichas em todo o lado, gente aos magotes com uma urgência de comprar sem explicação. Em dar, dizem elas. Mas eu, como ex-consumista, me confesso: o dar tem costas largas. O comprar, aquele ter imediato, aquela posse cheia brilho, só porque toda a gente tem, é que é o cerne da questão. O comprar, por mais generoso que seja, é que nos vai preenchendo os pequenos vazios que teimamos em ignorar. Simplesmente por não termos tempo para olhar para eles com atenção. E não temos tempo, muitas vezes, porque já o gastámos a comprar. O engraçado é que depois vai tudo bater àquele lugar-comum, batidíssimo (por ser dito, e não por ser praticado), que a vida não se compra. Pois não, mas gasta-se.
Há uns anos eu não teria esta conversa. Há uns anos eu era daquelas que consumia brilho de Natal "made in China" em quantidades industriais. E ainda pedia para embrulhar com papel bonito. Se calhar para tapar o baço que trazia comigo. Que os vazios são muito baços, tão baços que a gente passa uma vida inteira sem dar por eles. Mas um dia percebes que já não estás a ir para nova e abres a pestana, resolves fazer aquela coisa das prioridades da vida, e vejam lá, os vazios preenchem-se e deixa de haver espaço para brilhos postiços. E percebes, também, que a única coisa que enche mesmo esses vazios é o tempo, que é estupidamente escasso e que passa num tirinho, raios o partam. A dada altura entra-nos pelos olhos adentro que o único presente que vale a pena ter é aquele que é feito de horas, minutos e que depois se torna em memórias. E toda a gente sabe que o Natal sem memórias é uma espécie de bacalhau sem couves, ou uma coisa que se aquece no microondas e que uma semana depois já ninguém se lembra. O Natal é como o resto da vidinha, senhores: vive-se. Não se embala em fábrica, muito menos se compra. Vá. Fica aqui o meu post fofinho de Natal. Cheiinho de lugares-comuns ensopados em calda de açúcar. Tinha de ser. Nem a coisa lá ia de outra maneira.

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Que mala levarias?

por Cristina Nobre Soares, em 13.12.16

Sou daquelas pessoas que tem pena de não ter vivido noutros países. Como experiência. Como apeadeiros para aprender coisas diferentes. Mas que, como bons apeadeiros, me permitissem regressar sempre que quisesse, sempre com o voltar a casa por cima do ombro. Talvez ainda isso ainda me esteja destinado, sabe-se lá. E penso que, num mundo cada vez mais globalizado, isto ainda faz mais sentido. Mas também acho que se doura muito a pílula quando se fala de emigração. Porque muitas vezes esta tem uma moeda de troca emocional pesadíssima, que torna o prato da balança da experiência de vida e da aprendizagem dolorosamente mais leve. Partir porque queres é uma coisa. A mala é feita à medida. Partir porque não tens grande escolha é outra, porque quando isso acontece descobres não há malas suficientemente grandes para levar uma vida inteira. E as novas vidas também são feitas do que já foi.

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O Pai Natal

por Cristina Nobre Soares, em 12.12.16

 

Vejo por aí uma série de artigos sobre se devemos contar, ou não, a história do Pai Natal às crianças. Muitos defendem que não, que isso é estar a mentir deliberadamente, que as crianças vão ficar irremediavelmente traumatizadas e com a confiança no mundo profundamente abalada. E eu penso que a fantasia é uma coisa que deve ter caído em desuso, de tal forma que as pessoas a confundem com mentiras. Essa mesma fantasia que em criança nos fazia imaginar que voávamos só porque tínhamos uma capa ao pescoço ou que conseguimos esvaziar o mar inteiro com o balde da praia. E depois havia aqueles adultos que nos perguntavam o que estávamos a fazer. Nós dizíamos e (espantoso!) eles riam-se e alinhavam na brincadeira. Não eram adultos a negar-nos a verdade do mundo. Eram adultos que entravam connosco num mundo de fantasia. Adultos corajosos, portanto. Boa, acho que o mar já está um bocadinho mais vazio, diziam. Até que um dia descobríamos a verdade. Era chato. Pronto, às vezes era um drama, principalmente se passávamos horas a acartar baldes de água. Mas fez parte, como fez parte a encenação que a minha família criava à volta do Pai Natal. Que, para grande irritação minha, chegava sempre durante uma conveniente ida minha ao cinema. Mas era um momento mágico. Quando descobri que ele não existia fiquei zangada. Chorei baba e ranho.Tal como a minha filha chorou. Ontem estivemos as duas a lembrarmo-nos disso. E descobrimos que somos umas sortudas: temos histórias para contar. Uns dizem que são mentira. Nós ainda achamos que há ali qualquer coisa de magia.

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1. Se trabalhas mais horas é porque és mais dedicado. Não. Isto geralmente só significa que vais ficando porque tens medo de perder o trabalho.
2. Se trabalhas mais horas tens mais ideias, fazes mais coisas. Não. Há uma coisa chamada cansaço. Que dá cabo de qualquer motivação hype. E não vai lá com cafezinhos. Nem com chá verde.
4. Se respondes a emails, mensagens e telefonemas depois das 8 da noite é porque é mais dedicado. Ver ponto 1.
5. Entrar tarde é ter horário flexível. Não, não é. É treta. Principalmente para quem tem filhos. Horário flexível é tu teres a liberdade de escolher o teu horário. Há pessoas, tipo eu, que às 8 da manhã já estão ao computador. Pena é que os telefonemas e mails só comecem a ser respondidos lá para as 10. Mas adiante.
6. Já agora, senhores que passam a vida a bramar contra as horas que as criancinhas passam na escola, enquanto esta mentalidade no trabalho não mudar, as criancinhas vão continuar a penar o dia inteiro na escola. A menos que as queiram deixar à porta. Também é capaz de ser uma possibilidade pedagógica.

A próxima vez que se escandalizarem com artigos sobre a tristeza dos portugueses, pensem nisto. Deve contribuir. Digo eu.

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Retornado

por Cristina Nobre Soares, em 09.12.16

Uma vez voltávamos de Sintra, no Cortina de volante ao contrário. O meu pai às vezes levava-nos lá ao fim-de-semana. À vinda apanhámos trânsito e a dada altura o carro de trás começou buzinar. Ultrapassou-nos, o vidro do pendura abriu-se e de lá de dentro alguém gritou: logo vi que eras um filho da puta de um retornado. Devias lá ter ficado com os pretos. Retornado. A palavra era dita com a raiva a separar as sílabas para garantir que era ouvida. Re-tor-na-do. A minha mãe, vendo os olhos do meu pai a ficarem vermelhos, disse-lhe, deixa lá, homem, não ligues. Não ligues. Que era o que ela também me dizia quando eu me queixava que havia, na escola, miúdos que diziam que eu devia voltar para a minha terra. Não ligues. Quando, no ciclo preparatório, metade da turma me deixou de falar porque contei uma anedota sobre o Samora Machel, és mesmo uma racista, uma retornada. Não ligues. Quando alguém, depois de me contar que o tio tinha morrido na guerra do Ultramar me disse, os retornados é que deviam ter morrido lá todos. Não ligues. Retornado não era bem um insulto, era uma palavra de ferida aberta. Que doía a quem a ouvia e a quem a dizia. Cicatrizou como muitas das coisas cicatrizam em Portugal, com silêncio e a não ligar. Mas engraçado como a própria palavra era um retorno em si. Um retornar ao que se queria esquecer. E se calhar era por isso que tinha tanto peso, que impedia que se tornasse uma palavra igual às outras, integrada na mesma língua. O outro carro afastou-se, a minha mãe disse mais uma vez, não ligues. Já era noite quando regressámos a casa. Se bem que nessa tarde tenho ideia que voltámos a retornar. Mas nunca mais não falámos sobre isso. Não ligámos.

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Há dias assim

por Cristina Nobre Soares, em 07.12.16

Há dias em que tudo parece possível, mais leve, fácil de trazer no bolso. Há dias em que só se escrevem coisas que se atiram para o sofá, sem a preocupação das costas direitas de se ser levado a sério. Dias estupidamente nítidos, onde nos vemos bem ao longe.

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