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Avenida Carolina Michaëlis de Vasconcelos

por Cristina Nobre Soares, em 29.11.16

A pensar no rio e nesta mania que tenho em achar que a vidinha é um perpétuo estuário. Pensei em usar eterno em vez de perpétuo, mas acho as eternidades foleiras de tão branquinhas e imaculadas que são. E perpétuo dá um certo ar de pensamento sério, coisa encartada no dicionário Michaëlis. Curioso, a rua de quando eu era miúda entroncava na avenida Carolina Michaëlis de Vasconcelos, que tinha prédios cor-de-laranja e brancos. Uma amiga minha morava num desses prédios. Da marquise dela, se nos debruçássemos sobre o estendal, coisa que ela fazia para que a mãe não descobrisse que ela fumava, conseguíamos ver um pedacinho do rio, que ali já era estuário. Na altura não me parecia perpétuo, mas nesse tempo eu também não pensava muito na vidinha.

 
 
 

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Aconchego

por Cristina Nobre Soares, em 29.11.16

Havia um pátio por detrás dos prédios onde os estendais se cruzavam, curvados com o peso da roupa molhada. Havia, também, um gato pardo e um muro. Para lá do muro, ao fim da manhã, ouvia-se o som do amola-tesouras. Havia, nesse pátio, pelo menos uma janela entreaberta por onde saía o som do noticiário da rádio, vozes exaltadas ou o ladrar de um cão. Havia no rés do chão do número trinta e quatro, lado esquerdo, uma mulher que fazia bolos para fora. Uma mulher de rosto gordo e corado e que todas as manhãs vinha à janela, juntamente com o cheiro pastoso da manteiga. E havia um homem, que todos os dias vinha remexer no lixo e ficava a olhá-la com a fome de quem não tinha mulher há muito tempo. Volta e meia dizia-lhe em voz bem alta, precisavas mas era de um bom aconchego. Ela, fingindo que não o ouvia, desviava os olhos da boca dele, cheia de dentes amarelos e ausentes. E eu era homem para te dar um aconchego dos bons, ele a dizer, enquanto atava as caixas de cartão desmanchadas com os cordéis velhos que trazia no bolso. Ela, continuava a fingir que não o ouvia e voltava para dentro da cozinha. E suspirava, se ao menos tomasses um banho.

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Arrumações

por Cristina Nobre Soares, em 27.11.16

Olho para a estante da sala e penso que tenho de arrumar os livros. Não que precise que fiquem ordenados por ordem alfabética ou temas. Gosto deles assim, misturados. Gosto de procurar um livro e encontrá-lo num sítio improvável, dá-me a ilusão de que tem vida própria. Não é por isso que os quero arrumar, mas porque preciso de tocar nas coisas para me lembrar porque é que as tenho. Às vezes basta esse toque para perceber que já não me pertencem. Ou que nunca sequer foram minhas, eu é que à distância pensei que sim. Com as pessoas, por vezes, também funciona da mesma maneira. Volta e meia temos de as arrumar.

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FIdel Castro

por Cristina Nobre Soares, em 26.11.16

Fidel Castro foi uma personagem marcante do século XX. Convém que as pessoas se lembrem das razões que tornaram necessária a revolução cubana. Fidel Castro foi um ditador. Convém que ninguém esqueça todos os que morreram às mãos da sua ditadura. Fidel Castro morreu ontem. Leio o que se fala sobre a morte dele. E penso que um dia ainda gostava de perceber os mecanismos da memória que apagam o que não interessa à ideologia de cada um.

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Folhagem

por Cristina Nobre Soares, em 24.11.16

Ontem, enquanto subia a rua, reparei que as árvores ainda tinham folhas verdes. Percebo-as. Às vezes sabe bem fingir que o tempo não passa. Que continua tudo igual a um qualquer Verão passado, mesmo que já caminhemos na inevitabilidade da luz oblíqua de Novembro. Há coisas em nós que precisam de acreditar que têm folhagem perene.

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Ver no escuro não é para todos

por Cristina Nobre Soares, em 22.11.16

Perdi a noção do tempo e nem me apercebi que já tinha escurecido. Acontecia-me o mesmo quando era miúda. Eu arregalava os olhos para que se  habituasse à penumbra, antes que a minha mãe viesse acender a luz do quarto. Achava engraçado distinguir as coisas só pelo contorno cinzento. De dia as formas são sempre iguais na sua nitidez, e os olhos tornam-se preguiçosos por causa do óbvio. À noite não, porque o cinzento é exigente. Obriga-nos a ver mais. Dizem que os bastonetes, as células que nos fazem ver nos escuro, são muito mais sensíveis à luz do que os cones. Tem sentido. Ver no escuro não é para todos.

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A doença mental incomoda

por Cristina Nobre Soares, em 20.11.16

Falamos sobre alguém que descompensou. Mas por meias palavras, que são as palavras que usamos quando algo nos incomoda ou causa medo. Engraçado que a doença física não nos causa tanto incómodo. Talvez porque tenha um certo ar de acaso, e o acaso é um medo velho a quem já conhecemos algumas manhas. Já a doença mental é mantida à mesma distância a que mantemos os estranhos. Porque quando se chega perto obriga-nos a perguntar a quantos centímetros de vida estamos daquela pessoa a quem chamámos maluco. E isso assusta. Talvez pela eventual proximidade.

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Sábado à tarde

por Cristina Nobre Soares, em 19.11.16

Do outro lado da parede ouve-se a máquina de lavar roupa do vizinho. Por cima desse barulho a bebé choraminga e ouve-se uma voz, que deve ser da mãe, a cantarolar e a falar com ela. Pelo entreaberto da janela, que ficou esquecida por causa do cheiro do almoço, oiço um pássaro que deve estar na pereira em frente. Não sei que pássaro será, nunca fui boa a distingui-los. O bicho cala-se e fica apenas o restolhar do vento nas folhas do chão. Que não é bem um barulho, é imaginação. Fecho a janela, o céu está carregado, a anunciar temporal. A bebé já não chora, nem a mulher canta. A máquina também parou. Espero que não estenda a roupa. Vem aí chuva.

 
 
 
 

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Cada um tem a sua

por Cristina Nobre Soares, em 17.11.16

Talvez eu esteja a ser do contra, mas ontem, e apesar de já estar a ficar comida do lado decrescente, a lua pareceu-me maior do que no dia em que foi super lua. Não contesto a astronomia, com os seus cálculos complexos. Nada disso. Mas as luas são como cada um, cada um tem a sua, aquela que  mesmo a minguar lhe parece sempre a maior.

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Cortinas de fumo

por Cristina Nobre Soares, em 15.11.16

Todos nós, de alguma forma, acabamos por erguer as nossas barricadas. Nem que seja para não vermos. Ou para não sermos vistos. O que não se vê está defendido. Deve ser para isso que servem as cortinas de fumo.

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