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Da hora de Inverno

por Cristina Nobre Soares, em 30.10.16

Aborrece-me a hora de Inverno, das tardes que se fazem de noite antes do tempo. As noites maiores chamam ao recolhimento, à reflexão, dizem-me com uma pontinha de condescendência. Nunca percebi muito bem essa necessidade de escuridão para reflectir. Às escuras não se vê grande coisa, muito menos reflexos. Mas também toda a gente sabe que o paternalismo foi coisa nunca se deu muito bem com os espelhos.

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Das licenciaturas falsas

por Cristina Nobre Soares, em 29.10.16

A questão é que ser engenheiro, arquitecto ou doutor é ter uma profissão, não é ter um estatuto. A universidade não é um andaime social senhores. É uma coisa muito diferente, que pelos vistos nos "fica curta nas mangas". É chato comermos gato por lebre, pois é. Mas se calhar só acontece porque continuamos a achar que a lebre é comida fina.

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Os outros é que envelhecem

por Cristina Nobre Soares, em 25.10.16

No outro dia, enquanto esperava a minha filha à saída da escola, vi-me no vidro de um café. Assustei-me. Às vezes acontece-me isso, assustar-me muito quando me vejo. Nunca estou à espera. Até porque quando me cruzo comigo nunca estou arranjadinha. Com uma corzinha na cara, como diz a minha mãe. Ou um sapatinho de salto. Não, estou sempre ponta-a-cima-ponta-a-baixo. O que não ajuda. Olho-me de novo. Assim, de esguelha, pareço uma gaja de quarenta anos. O que é estranho, porque os outros é que já têm ar de quarenta. Eu não, eu tenho mais de quarenta, mas não pareço. Obviamente. Eu sou aquela pessoa que não envelhece. Em vez disso amadurece sabiamente, continuando radiosa e esticadinha. Não percebo como é que isto aconteceu sem eu dar por isso. Certamente que se estivesse mesmo a envelhecer tinha dado conta, como damos conta quando estamos com gripe, ou gastroenterite. A gente sente a má disposição, as dores no corpo, às vezes até dá febre. Envelhecer, não. Não se sente nada. Pior, os outros dão pelos sintomas primeiro do que nós. E pensam, fogo, ainda bem que eu não estou assim. Olho outra vez e dou com a senhora do café a rir-se para mim. Finjo que estou a ver o menu do dia, mas não percebo bem a letra. Ou isso, ou estou a ver mal ao longe. Devo estar a precisar de óculos. Só me faltava esta.

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Amarelo vivo

por Cristina Nobre Soares, em 25.10.16

A pensar que a Luís de Camões já deve estar coberta com as folhas dos lodãos bastardos. Que são amarelas vivas, e não douradinhas como as pintam na poesia de trazer por casa. Amarelo vivo. Não é torrado, nem limão. É vivo. Do que escorrega como manteiga por debaixo dos pés. Não tem nada de dourado. Só lhe vê dourado quem nunca se estatelou na calçada, à conta das folhas. Só é dourado para quem vê o Outono da janela, com uma mantinha nos joelhos. Os clichés nunca deixam nódoas negras.

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Arranhões

por Cristina Nobre Soares, em 22.10.16

Tinha dez anos quando aprendi a andar de bicicleta. O meu primo mais velho segurou-me, prometendo que não me largava. Largou. E eu acabei numa valeta cheia de silvas, como o orgulho todo esfolado e cheio de nódoas roxas. Queres ir lavar os joelhos? Perguntou-me ele, a rir-se. Não, respondi eu, a engolir as lágrimas. Montei outra vez na bicicleta, e o meu primo largou-me de novo. Mas dessa vez a teimosia equilibrou-me. Sem dúvida que há arranhões na vida que são toda uma constante gravitacional.

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Não nos ensinam a falar ao pé da morte

por Cristina Nobre Soares, em 18.10.16

Não nos ensinam a falar ao pé da morte. Ao pé dela nunca sabemos o que dizer. Ficamos ali, agarrados aos chavões, os meus sentimentos, os meus pêsames, porque não nos sai mais nada. Nadinha. A boca abre-se e nada. Nada. Os meus pêsames e nós ali, de corpo presente, com tanta coisa para dizer, todas aquelas que devíamos ter dito antes e não dissemos, já se sabe, é sempre a mesma merda, mas a vida é tramada, o tempo não chega, amanhã ligo. Ou para semana. Ou para mês que vem, ou o raio que o parta. E ficamos ali, a olhar para a biqueira dos sapatos, para as coroas de flores, para os velhos que não percebem porque é que há gente nova que vai à frente, e nada. Não sai nada de jeito. Nada. E a morte ali, a olhar para nós, escarninha, como quem diz: querias falar? Falasses antes.

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O chá preto

por Cristina Nobre Soares, em 17.10.16

Uma das coisas boas do tempo frio é o chá quente. O preto. Que as tisanas não me convencem. São boas para quando estamos mal do estômago ou para tomar com aspirina. As tisanas são politicamente correctas, bonitinhas e sentam-se de costas direitas. São agradáveis, mas não apetecem. O chá preto é diferente, tem personalidade forte, pêlo na venta. Nem toda gente tem estômago para o chá preto. Até porque o chá preto está-se nas tintas para quem o bebe, não trata de grande coisa. Só a alma. E é preciso que ele queira.

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Talvez seja amor

por Cristina Nobre Soares, em 16.10.16

Disseram que vinha aí uma carga de água. Já chegou. Eu, que passo a vida a dizer que gosto do Outono, não gosto de chuva. Os casais também se queixam de coisas banais, como as máquinas de roupa ou os filmes que se escolhem nas tardes de chuva. E faz parte. Como faz parte do Outono a chuva de que de que não gosto. Por isso talvez não seja incoerência. Talvez seja amor.

 
 
 

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Informação de interesse público

por Cristina Nobre Soares, em 15.10.16

Diz que na próxima sexta feira, dia 21, vou estar com o Movimento Desconstroi, no Cowork Lisboa a falar de escrita. E a escrever convosco. Com lápis e em voz alta. A ver o rio e a ponte.

Acho que é coisa para valer a pena. 

 

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Das trovoadas

por Cristina Nobre Soares, em 12.10.16

Há pouco trovejou. Não gosto de trovadas. Não lhes vejo a beleza épica, que algumas pessoas descrevem. Há sempre campos abertos e passeios destemidos nas histórias delas. E dizem-me, com um certo ar de triunfo, ora, não mete medo nenhum. Eu encolho os ombros e digo, a mim mete. Mas por exemplo, eu não tenho medo de ratos. Isso é diferente, respondem. Talvez. Realmente, não ter medo de ratos é uma coragem de trazer por casa, daquelas que sai à rua de bata e chinelos. Não ter medo de trovoadas é coragem que veste bem, coisa com bom corte, comprada em loja cara. Até os medos têm classes sociais.

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