Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Da geometria das histórias

por Cristina Nobre Soares, em 31.07.16

O meu pai foi dos melhores contadores de histórias que conheci. Até quando contava até à exaustão as mesmas histórias que eu e os meus irmãos crescemos a ouvir. Ao longo da minha vida conheci outros grandes contadores, capazes de me levarem de um ponto ao outro em linha recta, mesmo quando as histórias tinham floreados curvilíneos. Quase todos esses contadores eram homens, que falavam sobre aventuras, viagens e outros horizontes. Já as lengalengas, aprendi-as com mulheres. Os jogos circulares com as palavras. Como se o que a minha mãe e as minhas tias tivessem para contar habitasse um espaço fechado sobre si mesmo. Histórias sobre as várias formas de se fechar um círculo perpétuo. Rematados os detalhes do quotidiano. Quando eu pedia uma história de aventuras à minha mãe, ela respondia, cada um conta as histórias que conhece. E, talvez, com a geometria que o género lhe permita.

 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um bocadinho estranha

por Cristina Nobre Soares, em 30.07.16

Sandes com alface e tomate, sumos de lata da Frami, os outros miúdos a estranharem a alface o tomate dentro do pão, o meu irmão a dizer-me que não precisava de fazer a digestão, os outros miúdos, debaixo do chapéu, a estranharem enquanto esperavam, eu a achar, que se as apertasse com força, conseguia apanhar o sal com as mãos, os outros miúdos a estranharem, eu a contar isto à minha filha e ela encolher os ombros, sempre foste um bocadinho estranha. Se calhar agora disfarças melhor. Acabou-se a poesia.

 
 
 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que importa é que eu me lembre

por Cristina Nobre Soares, em 27.07.16

Cristina, preocupamo-nos contigo e quisemos lembrar o que publicaste há um ano, diz-me o Facebook. E eu lembro-me de uma prima de alguém, que quando tratava da mãe, que era velha e tinha os olhos vidrados por já não ter memória, lhe lembrava as coisas passadas enquanto lhe dava o Nestum à boca. Lembra-se mãe? Ela sorria e batia-lhe no joelho e dizia-lhe que sim, e o vidrado dos olhos aumentava. Lembra-se, mãe? A velha olhava para ela sem a reconhecer, talvez não se lembrasse sequer que tivesse tido filhos. Lembra-se, mãe? A velha acenava com a cabeça, a filha limpava-lhe os cantos da boca, fazia-lhe uma festa no rosto e dizia, eu sei que não, mas não faz mal, o que importa é que eu me lembre.

 
 
 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Movimento

por Cristina Nobre Soares, em 23.07.16

Talvez o nosso problema enquanto humanidade seja uma questão de referencial: o facto de estarmos imóveis e deixarmos que a terra gire por nós não significa que estejamos em movimento. Pelo menos daqueles que nos levam a algum sítio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não olhes

por Cristina Nobre Soares, em 21.07.16

No parque há mães que passeiam os bebés nos carrinhos, velhos sentados nos bancos, duas inglesas com o cabelo pintado de uma cor estranha, algures entre o vermelho e o roxo, e pessoas transparentes. Um homem chega e pára no meio da alameda, vociferando frases sem nexo. Gesticula muito, talvez para se fazer notado. É maluquinho, diria a minha mãe. Não olhes, dir-me-ia ela, não olhes, que mania. Estás a olhar para ver o quê? O homem usa uma t-shirt branca, daquele branco dos lençóis nos entendais, e a luz coada pelas árvores agiganta-lhe os gestos. Não olhes. As pessoas transparentes baixam os olhos e voltam a cabeça. Agora notam-se mais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Também tenho algo a dizer sobre os Pokémons

por Cristina Nobre Soares, em 19.07.16

Ontem fui apanhar Pokémons com a minha filha. É estúpido, realmente. Mas tem a sua piada. Os gambuzinos também eram e não deixavam de ser divertidos. E não me lembro de haver pessoas a favor e contra os gambuzinos. Nem destes serem tema de conversa. Imagino o meu pai a dizer à minha mãe, ó Lurdes, acho que a nossa filha está a ficar alienada porque anda a caçar gambuzinos. E a minha mãe dizer, tens razão, temos de conversar com ela antes que a coisa se agrave. Isto sim, é uma coisa estúpida.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dias colados uns aos outros

por Cristina Nobre Soares, em 19.07.16

Ao lanche, a avó da Patrícia deixava-me comer a carcaça com marmelada, sem o copo de leite. Sabia que eu não gostava e perdoava-me a esquisitice, mas faz-te falta para cresceres, dizia. Enquanto lanchávamos na mesa da cozinha, fazia jogos e adivinhas connosco. Um desses jogos consistia em repetir uma palavra até à exaustão, até que nos deixasse de fazer sentido. Até que fossem apenas letras coladas umas às outras, sem qualquer significado. Engraçado, há coisas e dias na vida que também funcionam assim: quando os repetimos muito, perdem o significado. Tornam-se apenas dias colados uns aos outros.

 
 
 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Zé Carlos

por Cristina Nobre Soares, em 18.07.16

Costumava encontrá-la quando ia buscar a minha filha ao infantário. Falava pelos cotovelos, com imensos detalhes aborrecidos, enquanto dizia, não me posso demorar muito. Mas continuava a falar. Principalmente sobre o marido. O meu Zé Carlos, dizia. Demorava-se na posse do meu, com o esforço de quem procura uma certeza. O meu Zé Carlos isto e aquilo. Era a melhor pessoa do mundo. O marido mais apaixonado. O pai mais dedicado. Mas o Zé Carlos raramente aparecia. Devo tê-lo visto de raspão, uma ou duas vezes. Cheguei a duvidar que existisse. E penso que ela também. Pelo menos um Zé Carlos que fosse realmente dela.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Até amanhã

por Cristina Nobre Soares, em 15.07.16

Hoje, uma amiga lembrou-me, num texto que publicou sobre o que aconteceu em Nice, que talvez as duas palavras mais importantes que tenhamos sejam: “até amanhã”. Que dizê-las, é acreditarmos que estamos lá, amanhã. Vivos. Despertos. Sem medo. Sem medo. Até amanhã.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ciática

por Cristina Nobre Soares, em 12.07.16

A mulher fala alto no autocarro. Queixa-se do companheiro, estou farta de ser tratada desta maneira. Isto é insustentável. Chama-me a atenção a forma como diz insustentável. Pronuncia a palavra bem, daquela forma fluída de quem está habituada a usar palavras caras. É insustentável, repete. Não lhe vejo a cara, só o rabo-de-cavalo louro e as raízes escuras. Cala-se durante um instante para ouvir o que lhe dizem do outro lado. Sim, nem imaginas, responde, chegou a um ponto de ruptura. Mas isto tudo nem é o pior. O pior é a ciática. Sim, a ciática, aquela coisa dos nervos entalados entre duas vértebras. E eu penso: pior, pior, são os nervos que se entalam entre as vidas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pág. 1/2



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

GA



google-site-verification: googledeb34756365df053.html