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Banalidades

por Cristina Nobre Soares, em 30.06.16

Hoje é dia de jogo. A cidade esvaziou-se e o silêncio arrendondou-lhe as esquadrias. Ocorre-me um pensamento qualquer sobre a luz de Junho ser arranhada pelos fins de tarde, mas lembro-me que não descongelei os bifes para o jantar, paciência, faço umas omeletas, e a ideia passa-me. A poesia é uma criatura que amua facilmente com as banalidades. Feitios.

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Era uma tília

por Cristina Nobre Soares, em 29.06.16

Ontem, lembrei-me que há mais de vinte anos a Sara ligou-me a contar que tinhas tido um acidente de carro no Dafundo. Contra um eléctrico. Lembro-me do silêncio que ela fez antes de me dizer: já não havia nada a fazer quando chegou ao hospital. Evitamos conjugar o verbo morrer para não morrermos também. Eu continuei em silêncio. Nunca sabemos o que dizer quando nos contam que alguém morreu. Porque tudo soa a supérfluo, a postiço. Também nunca sabemos o que dizer quando queremos pedir uma desculpa tardia, porque as desculpas pedem-se a quente. As tardias, são cobardes, requentadas, sem sentido, e  enquanto ela falava do outro lado do telefone, eu lembrar-me de ti, a perguntares-me depois do beijo desajeitado, que árvore é esta? Não sei, disse-te eu, também não interessa, nunca nada interessa porque achamos que não vamos precisar de lembrar, a Sara a falar do outro lado e eu calada, até que comentou, então, não dizes nada? E eu respondi com um fio de voz, lembrei-me que nunca lhe pedi desculpa.

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Quem tem culpa do Brexit?

por Cristina Nobre Soares, em 26.06.16

• As pessoas que têm medo dos que vêm de fora.

• Os que chegam de fora, por fazerem medo aos de dentro.

• Os velhos que votaram na saída, por terem medo do que é novo.

• Os novos que não votaram em nada, por terem medo do que é velho.

• Os que teimam em acreditar numa Europa que já não é.

• Os que nunca acreditaram numa Europa que podia ter sido.

• Os que culpam para não serem culpados.

• E os que não querem pensar que temos todos culpa.

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As datas têm disto

por Cristina Nobre Soares, em 23.06.16

Às vezes, nas noites quentes de Verão, o meu pai vinha para a varanda fumar. Queixava-se do calor, e abria os botões da camisa. Lembro-me do eco morno na praceta, do recorte, lá ao fundo, do moinho de água, a lembrar que aquele bairro suburbano já tinha sido uma aldeia, e da luz pequenina e vermelha do cigarro dele. Queixava-se do calor e a minha mãe comentava, lembras-te como era lá? Ele dizia sim, a sorrir, que isso é que era calor a valer, e os olhos dele voltavam ao hemisfério, de onde acho que nunca partiram.
As datas têm disto: memórias avulsas para darem sentido às ausências.

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Um instante antes

por Cristina Nobre Soares, em 22.06.16

Faltava pouco para chegar a casa, quando reparei que o dia já só era uma linha de névoa rosada no horizonte. Ainda chego a casa antes da noite, pensei. Queremos sempre chegar um instante antes da noite. Talvez a vida seja isto.

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Hoje no P3

por Cristina Nobre Soares, em 20.06.16

Hoje diz que estou no P3 com esta crónica (sim, que já andou por aqui). 

 

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• Subitamente somos todos muito tolerantes com a homossexualidade. Somos? Se calhar, é sinal que todos os que chamaram maricas e paneleiro ao colega de liceu, ou os que, mesmo não dizendo nada, faziam das tripas coração para nunca serem vistos com ele, (porque isto toda a gente sabe que quem anda com coxo, ao terceiro dia coxeia) devem ter desaparecido ou tido uma epifania.



• Somos todos uns mãos largas com a liberdade de expressão e tal, principalmente com a nossa, quando se trata de arranjar a correr culpados, de preferência de outra religião e raça, que isto do medo é uma coisinha que mora paredes meias com a culpa. Apontar o dedo é uma coisa dá realmente menos trabalho do que pensar. Mas os gajos (as gajas, então, é melhor nem falar) que pensam têm a mania, e é à conta deles que o mundo está como está e ainda nos lixamos todos com tanta filosofia.



• Ainda não li nada sobre aquele detalhezinho (insignificante) de se venderem armas em supermercados, em muitos dos estados deste país civilizado, chamado Estados Unidos da América, tão cheio de brancos heterossexuais sem culpa de coisa nenhuma. Os outros é que se põem a jeito de levar com uma bala de um doido que só pode ser estrangeiro. Fossem normais e decentes como toda gente, e não deixassem entrar malucos estrangeiros, que não acontecia nada disto. Até porque isso do desequilíbrio mental é coisa que dá sempre mais nessa gente esquisita que vêm de fora. Os nossos são sempre bons. E nós somos muito nossos.

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Pés molhados

por Cristina Nobre Soares, em 14.06.16

Aquele momento em que dizes mal da vida porque estás com os pés molhados, porque chove em Lisboa numa tarde de Junho, e tu tiveste a triste ideia de calçar sandálias, e há um raio de um cheiro a cidade molhada e os jacarandás em flor, ao fundo, no Marquês, que te fazem sorrir e pensas que o maldito vício da poesia de algibeira ainda vai ser a tua desgraça.

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Às vezes dá-me a sensação que perdemos a capacidade de estarmos sozinhos. Ou que ganhámos um medo terrível de estarmos sozinhos. Que tememos o silêncio, aquele silêncio que só existe quando reflectimos e dizemos, olha, é engraçado, nunca tinha reparado. Quando estamos sozinhos, é mais fácil repararmos. Sem ruído, só com a nitidez possível dos nossos olhos. E o mais engraçado é que passámos esse medo aos nossos filhos. Raramente os deixamos sozinhos, a olhar para anteontem. Não, os miúdos têm de estar sempre acompanhados, em actividades, orientados por alguém. Em experiências, como lhes chamamos. Engraçado, que achemos que experimentar sob as guias de alguém seja viver mais do que olhar e pensar sem as regras de ninguém.

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É bom saber que há coisas menos instáveis que o clima

por Cristina Nobre Soares, em 09.06.16

Chovia. E as pessoas queixavam-se. Fazia frio. E as pessoas queixavam-se. Faz sol e calor, e as pessoas queixam-se. É bom saber que há coisas menos instáveis que o clima.

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