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Tens o que mereces porque não podes gostar de sexo. Não podes gostar do teu corpo. Tens o que mereces porque gostas que olhem para ti, porque não baixas os olhos, porque te ris alto, porque bebes, porque fumas, porque danças como uma puta. Tens o que mereces porque és ordinária, porque andas por onde não deves, que as miúdas decentes sabem que só devem andar em certos sítios, a certas horas. Tens o que mereces porque vives num raio de um mundo hipócrita que precisa que trinta homens te rebentem o corpo para que sejas notícia. Porque se calhar, se tivesse sido só um, já não seria caso para isso. Tens o que mereces porque quem insiste em culpar-te não tem o que merece.

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Satie

por Cristina Nobre Soares, em 28.05.16

Um dia, ele deu-me um CD de Erik Satie. Conheces? Eu disse que não. Acho que vais gostar. Tem a ver contigo. Nesse dia percebi que há pessoas a quem temos de pertencer por serem mais nós que nós próprios.

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Ceroulas

por Cristina Nobre Soares, em 27.05.16

Sempre apanhei os sotaques e trejeitos de falar dos sítios por onde passo. Não sei porquê. Talvez para fingir que lhes pertenço. Mas fazem-me confusão os imitadores de vidas, que insistem em vestir as roupas de sair ao mundo dos outros. São uma espécie de coleccionadores de espontaneidades alheias. Mas, da mesma maneira, que depressa as minhas vogais abertas denunciam os meus vinte e muitos anos de lisboeta, também os gestos dos outros depressa se esgaçam nesses corpos sem imaginação. Coitados. Mal sabem eles que por esse esgaçado espreitará sempre uma vida triste e parda que usa ceroulas.

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Escrita de feriado

por Cristina Nobre Soares, em 26.05.16
Os feriados de sol são dias que pouco têm que se escreva. Tirando a preguiça dos corpos, o morno das conversas dos outros, talvez o mar, sempre o mar, mas só para quem insista em ser marginal, as trivialidades à mesa, o rosto sobre as mãos, a pensar sabe-se lá em quê, o sol a semicerrar-nos os olhos, as janelas que se espreitam do lado de fora, nada mais têm de relevante, estes dias. Talvez por isso, as páginas em branco também sejam poesia.

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Domingo de manhã

por Cristina Nobre Soares, em 22.05.16

Está sol, quase, quase a fazer-nos lembrar que é Maio. Um texto sobre amendoeiras e telhados pretos, outros, demasiados, para entregar, o vento com cheiro a mar que me dá vontade de escrever à mão. Um dia destes, disseram-me que eu recolhia migalhas de poesia, e eu penso que deve ter sido das migalhas mais bonitas que me disseram.

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Telhados pretos e a lenda das amendoeiras.

por Cristina Nobre Soares, em 22.05.16

Quando eu era miúda e as viagens de carro eram longas, pouco mais havia para fazer para além de dormir ou olhar pela janela. Não havia quase auto-estradas, as viagens faziam-se num ziguezaguear lento de estradas nacionais, que atravessavam vilas e aldeias. O país parecia interminável de tão pequeno que era. Lembro-me de gostar de contar as casas, com os seus telhados avermelhados. Por vezes apareciam umas casas diferentes. De telhados pretos, muito inclinados. Eu achava-as mais bonitas do que as outras. Por serem diferentes. Apontava-as e a minha mãe dizia, mas essas não são de cá. E explicava-me que as primeiras casas de telhados pretos, que tinham aparecido, deviam ser casas de emigrantes da Suíça e da França. Que os telhados lá eram pretos e inclinados por causa do frio e da neve. Depois, havia quem tivesse achado bonito, mesmo nunca tendo ido a França ou à Suíça, mandasse fazer a sua casa igual, com um telhado preto inclinado. Muitas vezes, numa terra onde nunca se teria visto cair neve.

Hoje, lembro-me recorrentemente das casas de telhados pretos, sempre que oiço terminologia inglesa metida à martelada no meio de conversas profissionais. Fica mais hype, mais moderno, é verdade. Mas em conversas feitas numa língua meridional, de verões quentes, secos e esdrúxulos, a neve e o frio verbal soarão sempre a postiço.

O que vem de fora sempre foi facilmente absorvido neste nosso pequeno rectângulo, sem grandes questões ou dúvidas. E acima de tudo, sem memória. A propósito disto, costumo citar uma frase dita por João da Ega, no livro “Os Maias”: “Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, (…), tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos de alfândega: e é tudo em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas…”

A neve dos países mais a norte sempre nos fascinou desde o tempo da lenda das amendoeiras. Reza essa lenda, que por amor, um rei do sul, criou uma neve que consolasse os olhos da sua princesa do norte. Mas o rei criou uma neve de terras quentes, que teve de esperar pela primavera. Uma neve feita com as flores brancas de uma árvore que se dá bem nas terras de palavras quentes. Diz que a princesa curou o seu mal de saudade. E que nas terras do sul continuaram os terraços brancos. Foi esperto, este rei.

 

(Texto publicado, hoje, na Preguiça Magazine)

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Escrituras

por Cristina Nobre Soares, em 19.05.16

Às vezes tenho a sensação que se não nos lembrássemos de coisa alguma também nunca pertenceríamos a sitio nenhum. Volta e meia encontramo-nos com uma espécie de papéis velhos, em tardes de arrumação, e que atestam que houve um sítio ou tempo que nos teve. Acho que a esses papeis se dá o nome de memória.

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O medo de cair

por Cristina Nobre Soares, em 14.05.16

No parque há uma mulher sentada no banco do jardim. Observa um miúdo que atira pedacinhos de pão a um bando de pombos. Explica-lhe como deve fazer, mas o miúdo está mais interessado em correr e em assustar os pombos para os fazer voar. Não corras, olha que ainda cais, diz-lhe a mãe. O miúdo ignora e continua a correr. A dada altura desequilibra-se, deixa cair o saco do pão e a mãe, num gesto reflexo estica os dois braços e grita-lhe: ai, que tu cais! Não caiu.

Quando nos morre um pai a nossa própria morte entra-nos pelos olhos adentro. Percebemos que podemos cair a qualquer momento. Como se tomássemos consciência do frágil equilíbrio que é a nossa existência, onde a única coisa garantida é a queda iminente.
Mas quando nos nasce um filho percebemos que temos medo de morrer. Porque passa a ser possível doermo-nos num corpo que não é o nosso. Porque passa a ser possível morrer mais do que uma vez. E mais do que as nossas quedas, passamos a temer as deles.

Quando nos nasce um filho achamos que a perfeição, aquela que não temos, vai ser possível. Porque se os nosso filhos forem perfeitos nunca cairão. Quando nos nasce um filho achamos que vamos ser melhores pais do que os nossos foram. Obviamente. Que vamos educar criaturas que serão absolutamente felizes, a transbordar de recordações perfeitas. Claro que não vamos. Vamos cair e esfolar-nos na mesma.

Fica quieto, não corras. Olha que cais. Ou corre apenas onde o mundo for forrado a tapete de pneu reciclado. Assim, não te aleijas. E eu também não. Num mundo cheio de rankings, cheio de algoritmos e manuais sobre como ser feliz, num mundo cheio de filtros nas fotografias, para limpar as falhas da vida, talvez a nossa maior imperfeição seja o medo de sermos imperfeitos. O medo de cairmos. De vivermos de joelhos e cotovelos esfolados. Olha que cais, gritamos. Mas se não cairmos nunca teremos consciência do peso da nossa existência. E sem essa consciência não conseguimos andar pelas próprias pernas. Muito menos, voar.

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Entre o Marquês e Entrecampos

por Cristina Nobre Soares, em 12.05.16

Há uma mulher que fala ao telefone com um auricular. Parece que fala sozinha. Não te preocupes, é normal, diz. Olha fixamente para o fundo da carruagem como se a outra pessoa estivesse lá. É normal, repete vezes sem conta, marcando uma espécie de compasso que se sobrepõe ao do metro. O homem à minha frente olha o próprio reflexo na janela. Ou talvez não olhe nada. Há duas raparigas que enviam mensagens no telemóvel e há um homem, em pé, a ler as Bucólicas de Virgílio. Os meus olhos estranham-nas, demoram-se na capa e a mulher do auricular repete mais uma vez, é normal. Há também uma criança que choraminga e a mãe, com ar cansado, pede-lhe, cala-te um bocadinho. É normal. Há um casal de namorados que vêm abraçados desde as Picoas, parecem um único corpo. E eu penso, que são sete horas e vinte de dois minutos e neste preciso instante, provavelmente, regressamos todos a casa. É normal.

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Fosse tudo assim

por Cristina Nobre Soares, em 08.05.16

Rimo-nos de coisas parvas. Realmente parvas. Como fazíamos há trinta anos. A amizade é, por si só, um tempo. Sem a obrigação das horas e dos anos. Fosse tudo assim.

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