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Quando se muda de vida aos 40

por Cristina Nobre Soares, em 29.04.16

Quando se muda de vida aos vinte, os outros acham imensa piada. Vão beber uns copos connosco, boa sorte, pá. Até porque, quando se muda de vida aos vinte a coisa normalmente passa por uma viagem, por uma temporada no estrangeiro. E isso, toda gente sabe que isso tem uma patine brutal. Boa sorte, pá, dizem-nos, e nós achamos que vai correr tudo bem. Que vai ser a experiência de uma vida. E é. Mesmo que corra mal.

 

Mas quando se muda de vida aos quarenta, a coisa pia mais fino. Os outros tentam achar piada. Mas não acham. Tentam compreender. Mas nem sempre conseguem. Dizem, boa sorte, pá, mas vê lá. Olha que tens uma filha. Olha que já tens quarenta. Tens a certeza que é mesmo isso que queres? Não, claro que não temos. Estamos à rasca, cheinhos de medo. Dificilmente nos convidam para ir beber um copo. Afinal a conversa é séria e convém estarmos sóbrios. Convidam-nos para um café. Ou, se estiverem realmente preocupados, para um almoço. Vê lá, pá. Vê lá o que vais fazer da tua vida.

 

Quando se muda de vida aos quarenta, a viagem é cá dentro. Não, não é dentro de Portugal. É mesmo dentro de nós. Vamos até ao tutano. À massa de que somos feitos. E dói como o raio. Se dói. Choramos imenso, rimos imenso. Parecemos uns tontos, uns putos com pés de galinha e cabelos brancos. Descobrimos que somos mais rijos do que pensávamos. Que somos mais tolerantes, mais abertos, mais flexíveis. Mas a maior descoberta não é a de que somos mais coisa alguma. É a de que somos apenas isto. E ser apenas isto é uma coisa que se chama vida.

 

Mas quando se muda aos quarenta, é um caminho de não retorno. É um bilhete só de ida. Não podemos voltar a casa, porque a casa onde morávamos afinal era uma coisa postiça. E até encontrar uma com as assoalhadas certas, onde caiba esta nossa nova vida, andamos por aí, ao relento. A viver por debaixo das pontes que vamos ter de passar.

 

Depois, um dia, os amigos, que continuaram preocupados connosco, voltam a convidar-nos para almoçar. E é estranho. Porque nós, os que mudámos aos quarenta, voltámos diferentes, tão diferentes que já nem falamos das mesmas coisas, usamos outras palavras, rimos com coisas que nunca tínhamos rido antes. Os amigos têm de conhecer uma pessoa nova, mas com o mesmo nome e a mesma cara. Os amigos acham que parecemos uns miúdos, mas nós sentimos que, por dentro, passámos a ter alma de oitenta anos. Dizem-nos, estás diferente, pá. E nós olhamos para eles, e respondemos com alívio, não, pá, sabes? Agora, finalmente, é que estou igual.

 
 
 

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Já fui gorda

por Cristina Nobre Soares, em 26.04.16

Já fui gorda. Já o tinha dito uma vez, num texto qualquer. Digo-o de novo, já fui gorda. E apesar de agora ser magra, acho que nunca deixei de ser gorda. Porque a gordura é um estigma que se nos mete na pele. Quando somos gordos, os outros quase que têm pena de nós: tão bonitinha e tão gorda, é uma pena. Ainda por cima diz que é muito inteligente. Uma pena, ter-se deixado chegar àquele estado. Ter-se deixado engordar. Porque para os outros, os gordos são criaturas desleixadas, fracas, sem força de vontade. Não engordam, deixam-se engordar. Era só deixar de comer porcarias e mexer o rabo. Mexe-te mais, come menos, olha as outras da tua idade, não comas isso, veste-te de preto, que o preto emagrece e assim, com sorte, ninguém dá por ti. Ser gordo não dói. O que dói é sentir que somos menos por dentro, por não termos essa vontade férrea dos magros a quem lhes assenta tudo bem. Aos gordos nada fica bem. Nem a vida. Essa, então, parece que nos fica sempre arrepanhada nas costuras. A vida foi, de certeza, alinhavada num corpo magrinho. Os números acima não são bem uma vida. É um deixar andar. Ser gordo, não dói. O que dói é a pena nos olhos dos outros, como se fossemos menos. Tão novinha e tão gorda. Tão pesada para a idade. Coitada. Já não sou gorda por fora. Mas há dias que me esqueço e apesar de magra volto a ser gorda por dentro.Se calhar, por dentro, sempre fui pesada para a idade.

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Vem lá um comboio

por Cristina Nobre Soares, em 25.04.16

Eu gostava de espreitar os murais quando passávamos na 24 de Julho, no Cortina com o volante do lado contrário. Soletrava as palavras de ordem, devagarinho. O que é a liberdade, mãe? Um instante de silêncio. É uma coisa que as pessoas só dão valor quando perdem. E tu perdeste-a, mãe? Mais outro instante de silêncio, as rodas do carro nos carris do eléctrico, se calhar, nunca a tive, suspirou. Depois, disfarçou e disse, olha, vem lá um comboio.

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Das visões e dos presságios

por Cristina Nobre Soares, em 23.04.16

Beatriz da Conceição soube a filha embeiçada pelo mais velho do Júlio Clemêncio, quando, naquela manhã, ao deitar-lhe o café na chávena, a viu branca, de olhos vidrados num pressentimento qualquer. Pegou-lhe na mão, sentiu-lhe o frio, então rapariga? E o vidrado dos olhos dela partiu-se em mil pedaços, tantos como o coração, ó minha mãe, que ele morreu-se-me. Beatriz da Conceição, que conhecia as manhas das visões e dos presságios, ia para mais de trinta e seis anos e cinquenta e cinco dias, pegou-lhe no rosto com as duas mãos e disse-lhe, não, não morreu. Mas, escuta-me, que ele já não te volta. Porque as lembranças, as que levava de ti, deixou-as do lado de cá da fronteira. E ninguém ama sem conseguir lembrar.

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Purple Rain

por Cristina Nobre Soares, em 22.04.16

E quando a cassete chegava à parte do Purple Rain, havia dois tipos de pessoas: os que estavam sozinhos no quarto a carpir um desgosto amoroso, qualquer e aqueles que, convenientemente acompanhados, pensavam, é agora.

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Hoje reparei que estava mais velha

por Cristina Nobre Soares, em 16.04.16

Hoje reparei que estava mais velha. Engraçado, ontem não dei por isso. Mas bastou um dia para que eu percebesse que tinha passado um ano. Ou dois. A ver se amanhã não me dá para pensar nisto.

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Da vidência

por Cristina Nobre Soares, em 15.04.16

 

São três, à entrada do metro. Uma delas, que tem um avental verde por cima do vestido preto, aproxima-se, quer saber a sua sorte, menina? Rio-me, mais por causa do menina, do que da sorte, digo que não, e continuo a andar. Ela segue-me, ah, há alguém que lhe quer muito mal, digo-lhe que sim, enquanto carrego o cartão do metro, é possível, olho-a, sim, até estou a ver quem é. Ui, nem imagina a raça de criatura que é aquilo. A cigana fica a olhar para mim, de boca aberta, sem saber o que dizer. Vai-se embora, a encolher os ombros. Sempre tive a ideia que o sarcasmo era uma forma de vidência.

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Os clichés dão-me nervos

por Cristina Nobre Soares, em 10.04.16

Há um cliché que diz que não devemos voltar ao sítio onde fomos felizes. Os clichés irritam-me. Dão-me nervos. Principalmente quando nos entram pelos olhos adentro. Mas se calhar é isso mesmo, não devemos voltar a esses tais sítios. Para mantermos intocáveis os idílios que construímos, em toda uma ficção original. Perfeitinha, escorreita. Mas só nossa. Os sítios ganham bolor nas paredes, ervas na calçada, ferrugem nos gradeamentos. E silêncio. Daquele silêncio feito de pó fininho que se entranha nas frinchas dos móveis. E as memórias não conseguem ganhar corpo nesses sítios. Tornam-se ossadas tristes, corpos raquíticos que nunca apanham sol. É isso, os clichés dão-me nervos. A vida, também. Que é o maior cliché de todos.

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Passar a ponte

por Cristina Nobre Soares, em 09.04.16

O som rouco dos carros sobre o rio, e eu, miúda, de cara no vidro a pedir ao meu pai para ir sobre a grelha, só para poder espreitar o rio pelos quadradinhos, ele a dizer que não, que lhe fazia impressão, tem paciência, tu, hoje, a dizeres a mesma coisa, e o rio, lá em baixo, a engolir a tarde, o dia a esmorecer-se nas margens de Lisboa , eu contar-te que ia de cacilheiro para a Trafaria e dali a pé para a Costa, tu a rires-te, isso é que era andar, e eu pensar que vamos chegar ao outro lado ao mesmo tempo que a noite. Mas não. Chegámos antes. Seis metros e meio antes.

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Das propriedades mecânicas dos materiais

por Cristina Nobre Soares, em 08.04.16

 

Fragilidade: quando levam uma primeira pancada partem-se aos bocadinhos.

Ductilidade: quando levam uma pancada ficam retorcidos para sempre. 

Elasticidade: deformam na altura, mas depois voltam ao mesmo que eram

Plasticidade: deformam, mas poucochinho.

Com as pessoas, a coisa funciona mais ou menos da mesma maneira. A física ao serviço da psicologia de algibeira.

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