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Crónicas da escritora a dias #1

por Cristina Nobre Soares, em 31.03.16


Às vezes tenho saudades da engenharia. Do tempo em que fazia coisas chamadas convolução cúbica ou krigagem por blocos. E podia fazê-las sem consonâncias verbais, na voz passiva e a exclamar a torto e a direito, que ninguém dava por nada. A clientela da ciência é, em média, bastante menos ruidosa.

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Tempo

por Cristina Nobre Soares, em 29.03.16

Reparo que a pereira, do outro lado do muro, já não tem os ramos nus. Na semana passada ainda estavam. O chão está coberto de azedas. Também ainda não tinha reparado. Talvez porque os prenúncios de chuva nos ocupem demasiado o espírito. E os dias. Que às vezes me dão a sensação que só passam nas janelas. E nos espelhos.

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Do valor da carne

por Cristina Nobre Soares, em 27.03.16

A carne branca vale mais que as outras. A carne dos arianos valia mais do que a dos judeus. A carne dos que nascem ricos vale mais do que a dos pobres. A carne dos homens vale mais do que a das mulheres. A carne dos que nos são próximos vale mais do que a daqueles a quem não conhecemos o nome. E a nossa carne, de espectadores impávidos, vale quanto?

 
 
 
 

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Regresso

por Cristina Nobre Soares, em 27.03.16

Há dias que fico com a ideia que regressamos todos a uma vida única, igual em dias e distâncias. Uma vida algures entre a calçada de Carriche e a área de serviço onde paramos para esticar as pernas.

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Das seis badaladas do sino de Páscoa

por Cristina Nobre Soares, em 27.03.16

Sempre que imaginava as coisas mais do que três vezes, elas aconteciam. Aconteceu com o vizinho, que foi encontrado morto na cama, de rosto e olhos retorcidos. Tal e qual como ela o imaginou das três vezes que ele, viscoso, lhe respirou para cima do decote. Aconteceu com o irmão, cuja mota viu espatifada ribanceira abaixo. Três vezes. Soube que ia ter uma filha chamada Maria do Amparo, três dias antes da noite em que a fez contra o muro coberto com maracujazeiro. Três vezes. Por causa disso, ganhou medo aos próprios pensamentos. E passou a escrevê-los. Uma vez apenas. Para não acontecerem. Dobrava as folhas de papel e guardava-as no guarda-fatos, dentro de uma caixa de sapatos (tinha preferido uma de sândalo, como nos livros, mas só anos depois percebeu que sândalo era uma madeira rara). Escrever os pensamentos foi coisa que lhe deu jeito quando começou a perder a memória. Porque se lembrava sempre das coisas antes delas acontecerem. Mas esqueceu-se de escrever que ia morrer à sexta badalada do sino de Domingo de Páscoa. E quando o imaginou três vezes, soube que já não havia remédio. Por isso, pediu à filha que fizesse dois vestidos brancos. A minha mortalha e o outro para noivares. A filha temeu que a memória também lhe tivesse levado o juízo, não tenho noivo, mas comprou o pano e a renda na mesma. O da mãe, teve-o de coser ao corpo porque a morte começara a mirrá-la no primeiro dia de quaresma. O dela, deixou-o na arca, até porque perdera a esperança de noivar. O sino da Páscoa tocou. Uma vez, anda à minha beira, Amparo, duas vezes, quando casares, leva os jarros brancos que vão crescer por detrás do tanque, três vezes, o maracujazeiro floriu antes do tempo, quatro vezes, um rapaz de pele cor de azeitona parou junto a muro, cinco vezes, Hermínia apertou a mão da filha, é aquele, seis vezes, os dedos ficaram lassos, a filha olhou pela janela, sorriu ao rapaz e ela disse baixinho, é agora.

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De um modo geral, nunca acho grande piada ao que escrevo

por Cristina Nobre Soares, em 23.03.16

De um modo geral, nunca acho grande piada ao que escrevo. A quente ainda sou capaz de achar que ficou bom, mas passa-me depressa e quando volto ao que escrevi acho que está péssimo e acabo por reescrever tudo. O que é coisa para ter potencial para nunca estar terminada. O único livro que até hoje publiquei, acho-o horrível. Pedante, melodramático, mal escrito. Por isso quando me dizem, gostava muito de ler o teu livro, eu finjo que não ouço e mudo de assunto. Escrever é uma forma de vida tramada. Mas a gente habitua-se a tudo. Quer dizer, a quase tudo. Coisas como “escreve-me aí uma coisinha”, ou “deixa estar, que eu pego no que escreveste e dou-lhe a minha volta”, continuam a causar-me azia. Toda a gente acha que sabe escrever. Até eu. E realmente toda a gente, mal ou bem, o faz desde os seis anos. Escrever nem sequer é bem um talento. A Marta da minha turma da primária tinha um talento, que era desenhar. A Ana Sofia sabia fazer a ponte e a roda e a Patrícia era muito afinidinha a cantar. E alta. Eu? Eu escrevia composições. Estava ao nível do Luís Miguel que sabia a tabuada de cor e fazia contas de dividir em menos de um fósforo. Escrever é mais uma habilidade do que um talento. Daquelas que até podem ser utilizadas em doses ou prestações. Ninguém se lembra de usar um terço de um logótipo, ou metade daquele retrato a carvão que nos fizeram na esplanada em Albufeira. Ninguém diz ao dinamarquês vestido de peruano, olha, levo só metade da cara, que o resto eu faço à minha maneira. Pois. Ninguém faz isto. Já na escrita, é um ver se te avias de corte e costura. Mas também há momentos bons. Ontem tive um desses. Uma cliente, a quem enviei um texto sobre o projecto dela, ficou tão contente que tive de ir verificar ao email se lhe tinha enviado o texto certo. Tinha. Era mesmo aquele. Até que enfim que alguém conseguiu pôr em palavras o que eu andava há anos a pensar, disse-me ela. E eu sorri. Um daqueles sorrisos de missão cumprida. Um dia destes ainda monto uma banca de escrita em Albufeira.

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Les ombres du temp. Um desafio da Estelle Valente

por Cristina Nobre Soares, em 22.03.16

Um texto para uma fotografia da Estelle Valente.Um desafio que me apaixonou.O resultado foi este. No blogue Les ombres du temp.

 

Lembro-me pouco daquela vida. Lembro-me que era uma vida com uma varanda de ferro forjado e retorcido. Talvez pelo tempo. Lembro-me que a vizinha do primeiro esquerdo chegava sempre às seis e vinte. Era uma mulher de cabelo crespo e usava um casaco azul clarinho com cotoveleiras de bombazina a taparem o coçado. Lembramo-nos sempre de coisas que não interessam para podermos esquecer as que nos doem. Lembro-me que o candeeiro da rua acendia às sete menos dez. De Inverno. Porque de Verão não tinha hora certa. De Verão não é preciso. Lembro-me que as portadas verdes do meu quarto chiavam quando as fechava. Por isso deixava-as sempre entreabertas, para deixar entrar o fresco da noite, dizia. Lembro-me de pensar, um dia vou mandar pôr uns estores, daqueles que deixam entrar fiozinhos de luz da manhã pelos buracos de plástico. Lembro-me que o vizinho do rés-do-chão, que era reformado da marinha, me dizia, tem de ver daquelas portadas, com a ladroagem que para aí anda, todo o cuidado é pouco. Lembro-me do silêncio. De não estares. De não estares. E do silêncio. Lembro-me de esperar uma qualquer coisa que nunca me batia à porta. Também não importa. Já não moro lá. Arrendei uma outra vida, só com duas assoalhadas e estores eléctricos. Fica na periferia do que quis. A uma hora de carro do que fomos.

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Nestum com mel

por Cristina Nobre Soares, em 20.03.16

Aqui, hoje, na Preguiça Magazine. Sim, é isso. Domingo é dia de Preguiça e de falar sobre memórias. A de hoje é sobre o Nestum com mel.

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Elis Regina

por Cristina Nobre Soares, em 17.03.16

Ouvi isto pela primeira vez em casa da Patrícia. Às vezes. quando voltávamos do ciclo, lanchávamos em casa da avó dela. Ela tinha um gira discos velho, e a mãe dela gostava de música brasileira. Um dia, pôs esta música. Achei-a tão triste e tão sem esperança que a tive de ouvir até ao fim. A avó dela chegou à porta da cozinha e disse, isso é aquela, a que cantava a música do Casarão.

 

 

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Um quarto para as duas.

por Cristina Nobre Soares, em 16.03.16

Estão as duas sentadas no átrio, encostadas ao vidro. Uma tem rastas e uns collants às bolas. A outra come de um tupperware e tem umas botas iguais a umas que eu tive há vinte cinco anos. Há uma mulher que chega com um saco do pingo doce, daqueles que custam cinquenta cêntimos e pousa-o ao pé delas. Começa a falar, reclama de uma aula que nunca deve ter acontecido. Tira um caderno de dentro do saco e lê em voz alta uns supostos apontamentos, isto não pode ser, vai dizendo em tom de refrão. As raparigas olham em frente, sem expressão, isto não pode ser, estão a ver? A rapariga das rastas contém o riso, a outra olha para as botas, isto não pode ser. Depois ficam as três em silêncio. A mulher guarda o caderno no saco, olha para o tupperware da rapariga das botas, isso fica melhor com tomate. Faz uma cara de nojo. E depois eu é que sou maluca.

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