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Dos vestidos dos Óscares

por Cristina Nobre Soares, em 29.02.16

Gosto de vestidos. Muito. E de sapatos de salto e eyeliner (mas não uso brincos nem pinto as unhas, lamento). Gosto mesmo muito de vestidos, daqueles em muito lindo dos Óscares. Mas nas outras, porque em mim tenho a sensação que rapidamente iria descoser a bainha com o salto ou pespegar-lhe com uma nódoa dessas fingerfoods modernas. Mas seria pedir muito não reduzir as actrizes às mais e menos bonitas da noite? É chato. Digo eu.

 

p.s O Leonardo também ia muito bem naquele smoking que lhe acentua as curvas e o branco da camisa favorece-lhe o azul dos olhos. Mas já repete o modelo há uns anos.

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Domingo à tarde

por Cristina Nobre Soares, em 28.02.16

 

Reparo, com alívio, que está menos frio do que ontem. Devia estar a escrever mas não me apetece, há dias assim. E nunca me apetece escrever aos Domingos. Lembro-me que tenho saudades de dar aulas. As saudades são dores fininhas que se nos metem pelo avesso adentro e que só doem quando temos frio de alguma coisa. Preguiço os olhos pela internet. Já se calaram com os pais de Cristo. O que vale é que tudo passa depressa. Vai lá com uma sopa ou outros líquidos quentes. Estava a falar do frio.

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Ainda sobre os temas bíblicos

por Cristina Nobre Soares, em 27.02.16

 

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Da minha embirração pelo Avatar

por Cristina Nobre Soares, em 25.02.16

No outro dia a minha filha pediu-me para rever o Avatar, o filme do James Cameron (Claro que ela não sabe que foi o James Cameron quem o realizou, isto foi só para dar uma introdução erudita ao texto). É aquele sobre um mundo bonito e azul, mãe. Que os homens querem destruir aquilo por causa do dinheiro, depois de já terem dado cabo da Terra. E realmente, o Avatar resumido é isto. Uma história muito linda sobre o paraíso perdido e a maldade dos homens. Onde os bons são os azuis que tentam defender o seu mundo, feito de luz e equilíbrio, dos maus e corrompidos homens que deixam um rasto de destruição por onde passam. É também sobre um homem que perdeu o rumo e as pernas, e que vende a alma por uma segunda  vida onde pode andar e começar de novo. Esse homem, cínico e desiludido, acaba por se redimir  pelo amor. Afinal o amor, essa invenção humana, redime tudo. Mas depois há uma personagem secundária, uma cientista chamada Grace, interpretada pela Sigourney Weaver que tenta uma coisa quase tão impossível como respirar a atmosfera rica em amoníaco de Pandora: O consenso. O meio termo. O melhor de dois mundos. No principio do filme, Grace ensina as crianças na’vi a ler. E passeia-se por Pandora, fascinada por por aprender mais sobre aquele novo mundo. Pobre Grace que não sabe que conhecimento às vezes é tão irrespirável como o amoníaco. E pronto, morre. Tem de morrer. Os homens maus ferem-na de morte e a árvore mãe não lhe perdoa a humanidade. Não há lugar nem espaço para moderados. São criaturas sem terra que tiram a simplicidade às histórias. Porque só lhes interessam os porquês. Que são uma maçada. Nesse ano saiu outro filme do qual já falei por aqui: Ágora, de Alejandro Amenábar, sobre a filósofa e matemática Hipatia de Alexandria (outra mulher moderada que morre). E enquanto digo à minha filha que sim, que pode alugar o filme, lembro-me de uma frase da Hipátia, falando com o seu aluno Cinésio: “Tu não questionas ou não podes questionar aquilo em que acreditas. Eu tenho de o fazer “ Se calhar é por isto que não tenho paciência para histórias simples.

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Dos bandos

por Cristina Nobre Soares, em 24.02.16

Há um bando de pássaros que voa sobre a lagoa. Engraçado, porque dentro dos bandos, os pássaros deixam de ser pássaros. Tornam-se numa única criatura. Uma nuvem de pontos com asas que batem em uníssono. Há um que se afasta. Talvez se tenha distraído com alguma coisa. Ou talvez tenha asas assíncronas. Aquele vai perder-se dos outros, aflige-se a minha filha. E eu penso, se calhar é daqueles que escreve.

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Tio Alfredo

por Cristina Nobre Soares, em 22.02.16

Tio Alfredo

Lá fora, a luz oblíqua descia sobre os cães deitados na gravilha. Vens? Perguntavam-me eles. Sim, e nós corríamos pela estrada de terra batida. Na curva, à entrada da vinha, estava sempre um homem sem uma perna, apoiado por uma muleta. Com as unhas escuras abria pevides e depois cuspia as cascas para o lado. Perdeu-a na guerra, dizia baixinho um dos rapazes. Os olhos apagados e magros do homem baixavam-se à nossa passagem. Quantos pretos matou lá, tio Alfredo? Os olhos dele avermelhavam-se e a espuma cobria-lhe os cantos da boca. Estupores, gritava enquanto fugíamos pelo caminho de gravilha, meus grandes estupores. Lá em baixo os cães ladravam, nós a correr pela encosta, os rapazes a rir e eu com medo do homem, meus grandes estupores. Até que um me dizia, mas tu também nasceste lá, na terra dos pretos. És preta. E eu a dizer que não, que era branca, e ele escarninho a dizer, és preta por baixo. O homem ainda a gritar, estupores, e eu a morder os lábios para não chorar, até que outro deles, o que me dava a sempre a mão para saltar a silvas, me dizia ao ouvido, não faz mal, mesmo que sejas preta por baixo, quando crescer, eu caso contigo.

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Azul turquesa

por Cristina Nobre Soares, em 21.02.16

Às vezes a minha mãe encontrava-as quando ia à praça. Traziam os casacos de malha por cima dos ombros a taparem vestidos de cores garridas que mais ninguém usava. Esta é a sua filha que nasceu lá? A minha mãe respondia, sim, esta nasceu lá. Lá. O sítio onde eu tinha nascido não tinha nome. Ou se calhar as pessoas faziam por esquecê-lo. O que era estranho, porque a única coisa que os meus pais faziam quando encontravam outros retornados era recordar. Todos tinham seguido com as suas vidas e o que os ligava era o lembrarem-se todos da mesmas coisas. Lá, mais do que uma terra, era uma saudade. E toda a gente sabe que as saudades não têm nome. Uma das mulheres de vestido garrido fazia-me uma festa na cara. E tu? Lembras-te da tua terra? Eu dizia que não e a minha mãe justificava, veio de lá muito pequenina, ainda de colo. Elas ficavam quase desiludidas. Se eu não me lembrava então não era uma delas. Mas devias lá voltar um dia, diziam-me. Que a tua terra é bem bonita. Mas como é que se volta a um sítio, que não é um lugar, mas um tempo preso na memória dos outros? Elas despediam-se, e eu olhava-as por cima do ombro enquanto desciam a rua, a aconchegarem-se nos casacos. A memória, que eu nunca tive, sofria com o inverno do hemisfério norte e vestia azul turquesa.

 

Hoje, na Preguiça Magazine (A memória não é uma coisa vintage)

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Uma história de amor (que eu não quero que vos falte nada)

por Cristina Nobre Soares, em 14.02.16

Ele era sindicalista e arrastava ligeiramente uma perna. Ela usava um decote generoso e ouvia sempre a mesma cassete de música francesa. Foi na Guiné, dizia-lhe, quando ela se debruçava por cima do balcão. E contava-lhe de novo a história da emboscada. E ela, suspirando, punha-lhe um dedal de aguardente na bica sem que o patrão visse. Um dia, ele pegou-lhe na mão e olhando-lhe os peitos, disse, és bonita. Ela baixou os olhos, corou e respondeu, obrigada. Nessa tarde, na pensão Luanda, depois de desapertar os colchetes, ela cruzou os braços sobre o peito e disse, tenho uma coisa para te contar. Por dentro do soutien ponho algodão em rama. Ele dobrou cuidadosamente as calças, não faz mal, nunca estive na Guiné, foi a poliomielite que me deixou assim.

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Ir para velho

por Cristina Nobre Soares, em 10.02.16

Hoje de manhã, no instante antes de entrar no autocarro, reparei no grito das gaivotas por entre a chuva miudinha. O grito das gaivotas deve ter um nome que não conheço e há quem chame morrinha a esta chuva. Também não gosto de gaivotas. Nem de chuva morrinha. Mas hoje fiz de conta que tinha saudades. Ir para velho deve ser isto.

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Não tem mal termos medo

por Cristina Nobre Soares, em 08.02.16

Diz-me que viu um vídeo de uma cidade destruída. É na Síria, não é, mãe? Respondo-lhe que sim. Por isso é que eles têm de fugir. Fica em silêncio enquanto toma o pequeno-almoço. Depois pergunta-me novamente sobre os atentados de Paris. Sobre as mulheres violadas na Alemanha. Comenta que ouviu, não sei onde, que as mulheres sírias se recusam a ser vistas por médicos do sexo masculino. Silêncio de novo. Não tens medo, mãe? Fecho a torneira do lava- loiça e enquanto limpo as mãos ao pano, penso o que lhe responder. Digo-lhe sim. Que claro que tenho. Que o mundo não vai ficar igual ao que conhecemos. Que vai mudar. Irremediavelmente. Que sim, tenho medo sempre que há um atentado algures na nossa imaculada Europa.  Que tenho dúvidas quando vejo mulheres de cabeça tapada, irmãs adultas que obedecem a irmãos pequenos, mulheres que se recusam a serem vistas por médicos. Sim, tenho medo, digo-lhe. Que tenho dúvidas. Mas que é normal termos medo. Que é o nosso instinto de sobrevivência. O mesmo que leva as pessoas a cometerem erros, a fazerem más escolhas, a terem preconceito. Silêncio de novo. Eu também tenho medo, mãe. Mas também tenho pena. Já viste se fossemos nós? Encosto-me ao lava-loiça, e digo-lhe, mas podíamos ser nós. Não tem mal termos medo. Pensa que da mesma forma que teremos de conviver com os lenços que lhes tapam as cabeças, também elas terão de conviver com as nossas cabeças destapadas. E isso não é medo. É confiança. Não tem mal termos medo. O que tem mal é o que fazemos com ele.

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