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A vida na província #2

por Cristina Nobre Soares, em 31.01.16

Fez uma horta no terreno em frente à janela do meu quarto. Separou-a das oliveiras com uma sebe de couves galegas. São muito tenrinhas, diz-me. Trouxe uma cadeira velha, daquelas de escola primária, que põe a meio da horta onde se senta e por vezes se deixa adormecer. É para afastar os sacanas dos pássaros. Dão-me cabo das couves. A minha mulher faz um caldo verde com elas que é uma maravilha. Hoje olho pela janela e reparo que já não o vejo há algum tempo. A cadeira continua lá, esquecida no meio da horta. Mas as azedas infestam o pedaço de terreno, lembrando que a sua ausência já é longa. Pergunto se lhe terá acontecido alguma coisa. Dizem-me que não. Que mudou a horta para outro terreno. Deve-se ter fartado dos sacanas dos pássaros.

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Memória e café cheio

por Cristina Nobre Soares, em 30.01.16

Antes de tirar o café penso que a memória não é um passado absoluto. A memória reconstrói-se. Todos os dias, à medida que o presente nos molda. A memória distorce-se, distorce-nos. Ainda assim, todo o debruçar que façamos sobre ela será sempre o mais lúcido começo de qualquer futuro. A máquina apita e reparo que o café ficou curto. Não me lembro quando é que os comecei a beber cheios.

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Vergílio Ferreira

por Cristina Nobre Soares, em 27.01.16

A sobriedade da capa azul escura chamou-me a atenção. Manhã submersa. Manhã submersa. Pareceu-me um título lindíssimo. Olha que é capaz de ser um bocadinho pesado para ti, disse-me a minha mãe. Eu tinha dezasseis anos e uma zanga mimada com os autores portugueses. São chatos, dizia eu. Enfim, toda a gente sabe que a adolescência é um tempo de certezas parvas. O livro de capa azul escura deu-me a lição de que eu precisava. Era uma escrita incómoda, que me sugava para dentro de uma claustrofobia imensa. Não era bonito o que lia. Era real. Asperamente real. Asfixiantemente humano. Li as últimas páginas vezes sem conta. Não sabia que o descarnado e o violento podiam ser tão belos. Tenho ideia que fiquei uns dias a processar o livro. Não perdi dois dedos, descobri o que era ser um bom escritor. E a quase certeza de que a vida não é mais do que um foguete que prendemos dentro das mãos.

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Campo Grande

por Cristina Nobre Soares, em 26.01.16

Bom dia, digo. A rapariga do quiosque olha para mim, bom dia, é café? Respondo que sim. Mais alguma coisa? Hesito e ela olha para o relógio da estação, por cima do meu ombro. Está a chegar, é melhor levar para comer depois. Digo que sim enquanto bebo o café rapidamente. Olhe que está quente, avisa-me. Pego no pacote, deixo as moedas em cima do balcão Está certo. Ela responde-me qualquer coisa, que é abafado pelo barulho do metro a chegar. Diga? Pergunto-lhe enquanto guardo o porta-moedas, as portas abrem-se, a mochila de alguém que passa a correr roça-me no braço e ela diz, levantando a voz, tenha um bom dia. E eu sorrio, obrigada, e pergunto-me quantos estranhos, a quem conheço o nome, me fariam sorrir assim.

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Pensamento que me ocorre em dia de eleições

por Cristina Nobre Soares, em 24.01.16

Custa-me ver que são os mais velhos que vão às mesas de voto. Custa-me ver o divórcio arrogante entre as gerações mais novas e a política. Custa-me ouvir o "eles" enquanto fronteira moral. Custa-me ver que somos uma democracia com 41 anos de adolescência.

 
 
 

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Vinte anos

por Cristina Nobre Soares, em 20.01.16

Ai, isso se eu soubesse aos vinte o que sei hoje, diz a mulher encostada ao balcão. Tem o casaco por cima dos ombros e o porta-moedas entalado por debaixo do braço. Ai, se eu soubesse, a coisa ia cantar diferente, ia. Mas aos vinte somos umas parvas. A rapariga do café, que deve andar pelos vinte, faz um daqueles sorrisos de quem não sabe o que responder. Mas é verdade, diz-lhe a mulher antes de sair. Sabe o que eu lhe digo? Abra os olhos enquanto ainda é nova. Abra os olhos, que isto, a vida, passa num instante. E eu lembro-me de um fado da Cidália Moreira que a minha mãe gostava muito. O meu pai punha o disco e ela ficava debruçada sobre as costas do sofá, com os dedos das mãos entrelaçados e os olhos ganhavam-lhe uma melancolia rara. E eu ficava a olhá-la. Parecia-me mais nova, como se as memórias que lhe semicerravam os olhos também lhe engolissem o corpo. No fim, para disfarçar a comoção, desconversava e dizia, esta fadista canta que é uma maravilha. Diz que a mãe dela era cigana

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Há dias assim

por Cristina Nobre Soares, em 18.01.16

Há dias em a vida me faz lembrar as tardes dos nossos sete anos, quando Vasco Granja nos presenteava com animações do Norman McLaren: não percebemos nada, parece que demora eternidades a passar e afinal só queremos ver a Pantera cor-de-rosa.

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No Parque D. Carlos I

por Cristina Nobre Soares, em 17.01.16

 

Fala-me da genialidade das caducifólias. Que têm folhas quando precisamos de sombra e os ramos nus quando precisamos de luz. Penso que isso daria um bom texto. Isso e o velho que se assoa a um lenço com  monograma, porque me faz lembrar a camisaria em Algés onde a minha mãe comprava os lenços ao meu pai. Com a letra M. Não consigo perceber a letra do lenço do velho, mas acho que tem cara de Alberto ou Alfredo. Talvez por causa das sobrancelhas. E respondo que sim, que as caducifólias terão sempre uma magia que as perenes não têm, o velho dobra cuidadosamente o lenço em quatro e guarda-o no bolso do casaco de xadrês. Não, a dobrar o lenço assim, de certeza que se chama Eduardo ou Edmundo.

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Pão tigre com manteiga

por Cristina Nobre Soares, em 13.01.16

A luz da manhã comprime-se entre a esquadria das ruas e o inverno das árvores da Ferreira Borges. Peço um pão tigre. Com manteiga. E um café. Sim, cheio, por favor. E penso que por vezes o tempo só nos passa nos corpos.

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Da originalidade

por Cristina Nobre Soares, em 11.01.16

Quando eu era miúda, em Julho, íamos quinze dias para o Algarve. Todos os anos saíamos ainda de madrugada. Para não apanhar trânsito na ponte, dizia o meu pai. E todos os anos, ao atravessarmos a ponte Vinte Cinco de Abril, ele resmungava, tanto trânsito a esta hora. A minha mãe dizia, oh homem, tens de perceber que há mais gente com a mesma ideia do que tu. E eu olhava pela janela, e imaginava as pessoas dentro dos outros carros a dizerem as mesmas coisas do que nós. Cedo percebi que é realmente muito difícil sermos originais.

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