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Ainda sobre a cega, o cigano e a preta

por Cristina Nobre Soares, em 29.11.15

Tinha um miúdo na minha turma da 3ª classe, o Luís Filipe, que quando soube que eu tinha nascido em Moçambique, me disse com ar entendido: ah, mas afinal, tu és preta. Não sou nada, disse-lhe eu, a mostrar-lhe a minhas mãos bem leitosas, sou branca. Não, afirmou ele peremptoriamente, és preta por baixo. Vais ver. E eu pensei que se calhar era verdade, porque uma prima minha me tinha dito que eu ia começar a ficar preta pelo umbigo, porque tinha nascido “lá na terra deles". Eu já tinha percebido que ser retornado não devia ser lá uma coisa muito boa, pelos nomes que chamavam ao meu pai quando íamos  passear a Sintra, no Cortina de volante ao contrário. E agora, ao ouvir o Luís Filipe, percebia que ser preta ainda devia ser pior. E eu não era preta. Preto era o Eliseu, que se sentava sempre nas carteiras do fundo. Também tinha, na minha turma, um miúdo que era cigano. O Fernando. Nem sempre ia às aulas e a minha professora tratava-o de forma displicente, a dizer que ele tinha de tomar banho. Por isso também devia ser mau ser-se cigano, até porque a minha mãe dizia que eles roubavam nos preços, quando ia à praça de Algés. O Fernando e o Eliseu também foram da minha turma do ciclo. Uma vez deram uma sova a um rapaz que me apalpava sempre à entrada da escola. E disseram que os chamasse se eu precisasse de ajuda, porque sabiam que ser rapariga devia ser complicado. Os outros não fizeram nada.Talvez fossem cegos.

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O Bufo da Pide

por Cristina Nobre Soares, em 28.11.15

(Uma das personagens da Exposição Assombrados)

 

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A mania de espreitar por entre portas e ouvir as conversas que não lhe diziam respeito enfiara-se-­lhe no corpo desde os tempos de gaiato, em que, para se aliviar do calor que o queimava entre as pernas, se punha a espreitar a filha da madrinha, a Piedade, enquanto esta se lavava na casa de banho. Nem mesmo quando o pai o apanhou e lhe esfolou as costas com o cinto, lhe passou o vício de tomar atenção à vida dos outros.

Talvez tivesse sido por isso que aos dezasseis tivesse dito que não queria mais estudos e começasse a aprender o ofício de barbeiro com o tio. Isso e ter emprenhado a filha da madrinha nas festas de Agosto, depois de a ter convencido que a aguardente era boa para a bronquite. Agora, tens de arranjar sustento para o filho que lhe fizeste. Por isso, tu toma atenção, disse-­lhe o tio passando-­lhe a vassoura para a mão, que os cantos também são para serem varridos.

O primeiro filho a nascer-­lhe, tu toma atenção, e o tio a explicar-­lhe como se passava a navalha na curva do pescoço dos outros. Os clientes a abrirem as bocas ensaboadas sobre o que não lhes dizia respeito, o dinheiro a não chegar e a mulher a berrar-­lhe que já ia para  além de dois meses o que deviam na mercearia.

Tu toma atenção, e ele a bufar ao chefe da guarda que o filho do alfaiate escondia propaganda comunista por entre as peças de fazenda que vinham de Lisboa. Tu toma atenção, a mulher a lamentar­-se das pernas tortas do filho mais velho, enquanto paria o terceiro, e a taberna onde se juntava o reviralho a ser fechada às tantas da noite.

Tu toma atenção, os clientes a cerrarem as bocas cheias de sabão e medo,o chefe da guarda a cobrar-lhe a falta de novidades, a mulher a chorar-lhe falta de agasalhos e meias solas e ele a lembrar-se que o carteiro era seu primo direito, e que a família é para as aflições.

E fez, então, uma espera ao primo, um simplório, que andava embeiçado por uma francesa que tinha a escola toda e que recebia muitas cartas com umas letras escritas ao contrário. A língua do carteiro a soltar-se logo à segunda aguardente, ele a subir as escadas da casa do chefe da guarda, que por alguma razão só se gastavam do lado direito, as notas a aparecerem-lhe por debaixo da samarra, e a francesa, que afinal era russa, morta nas escadas do quintal.

Morreu bêbada diziam, ou isso ou esganada e o primo desorientado a cruzar-se com ele por debaixo do candeeiro, e a dizer-lhe mataste-me o amor da minha vida, meu cabrão, ele a dizer que não, que não, tem lá mas é calma, e a faca do carteiro a enterrar-se-lhe treze vezes pelo corpo dentro. E dizem que ainda hoje, mas isso são coisas da ignorância do povo, por debaixo do candeeiro cuja luz nunca se apaga, se ouve a voz do carteiro suja de sangue a dizer: Tu toma atenção.

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Falta uma semana

por Cristina Nobre Soares, em 27.11.15

Diz que falta uma semana para exposição do ano acontecer :)

 

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Não somos um país. Somos um bairro com uma mercearia

por Cristina Nobre Soares, em 26.11.15

Não somos um país. Somos um bairro com uma mercearia. Perante um novo governo, a grande conversa (provavelmente à porta da mercearia) é o pai cigano de um dos secretários de estado. São duzentos e cinquenta gramas de fiambre fininho, por favor. E diz que há outra que é cega e que a vizinha do terceiro mete lá em casa um fulano quando o marido está para fora. Eu disse, fininho.

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Se conseguires (#quebraosilencio)

por Cristina Nobre Soares, em 25.11.15

Vejo-a de novo no cemitério. Corta meticulosamente os pés dos cravos brancos, para que fiquem todos do mesmo tamanho. São sempre brancos, mesmo quando não são cravos. Guarda a tesoura de costura dentro da mala coçada nos cantos, tira um trapo feito de lençóis velhos e limpa a fotografia a preto e branco, ao lado do nome em letras douradas. Depois, com uma vassoura pequena, varre toda a poeira e restos de folhas secas da laje. E fica ali um pouco, de mãos cruzadas no ventre, mexendo os lábios. Uma reza muda. Guarda a vassoura e olha para foto, suspirando sem lágrimas. Levanta o queixo e olha em volta. O coveiro afasta-se empurrando o carrinho de mão, que chia ao longo do carreiro calcetado. Já vai longe. Suspira de novo enquanto desce as mãos para ancas. Cospe para a foto. Cospe outra vez e depois sorri triunfante. Com o trapo, limpa de novo o vidro da fotografia. Vá. Agora bate-me, se conseguires. E solta um risinho nervoso enquanto ajeita uma madeixa que se soltou do carrapito oleoso.

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Maria Emília

por Cristina Nobre Soares, em 24.11.15

Maria Emília casou-se com vinte cinco anos, quarenta sete ganchos de noiva no cabelo e vinte e duas flores de renda cosidas na saia de organza. O cabelo espesso, que todos os dias era domado a  ferro de engomar, fora meticulosamente preso atrás da nuca e escondido debaixo de um chapéu de abas largas. Chama-se capeline. A mãe abanar a cabeça, com a agulha de crochet entre os dedos retorcidos, uma noiva de chapéu na cabeça, onde é que já se viu.Chama-se capeline, mãe, e ela a abanar a cabeça de desgosto, vais ser primeira noiva sem véu. Maria Emília casou-se em Setembro. Não em Maio, o mês das noivas e de Nossa Senhora, nem em Agosto, mas em Setembro. Assim o teu irmão e os teus primos direitos que estão na França não podem vir, lamentou a mãe enquanto cosia as flores na saia do vestido. Que não fazia mal, dissera Maria Emília, o irmão não se zangava e até lhe dera três contos para ajudar a montar a casa. Maria Emília casou-se no dia dezanove de Setembro, de mil novecentos e setenta, com vinte cinco anos, quarenta e sete ganchos, três sonhos e nenhum medo: queria um marido bonito, fazer férias no Algarve e viver numa cidade grande. Realizou-os aos quarenta e quatro anos, quando deixou o marido e as filhas para ir viver com o amante em Lisboa.

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Da memória das letras

por Cristina Nobre Soares, em 22.11.15

Tinha uma drogaria no rés do chão de um  prédio de dois andares. Um prédio velho, de varandas absurdamente estreitas.  Era uma pequena loja  ensopada com cheiro a tintas e benzina. Vendia sabonetes e pó de talco, pregos e meadas de arame, que embrulhava em  papel manteiga. Sentava-se atrás do balcão de madeira, com um caderno de folhas brancas e um lápis afiado à navalha. E, enquanto desjejuava com uns biscoitos de canela que comprava na mercearia em frente, tentava lembrar-se. Porque o que ele queria ser era um grande escritor, daqueles que escrevem livros de capa rija com lombadas largas. Mas as ideias, as histórias, só vinham de noite, naqueles breves instantes que antecedem o adormecer. Histórias formidáveis que se varriam de manhã. Por isso, ele ficava ali atrás do balcão, todas as manhãs, na esperança que lhe pingassem palavras do bico do lápis. Mas nada. Em cima do caderno, só as migalhas dos biscoitos. Até que sineta da porta, que era uma velha sineta de escola, anunciava um cliente. Ele punha o caderno de lado,  sacudia os restos de canela  das camisa, aviava os pedidos e depois pedia-lhes que fizessem as contas num canto de papel. Sorria meio envergonhado, enquanto ajeitava as latas de tinta na prateleira. Tiraram-me da escola antes de aprender a juntar as letras e números. Diziam que eu não tinha cabeça para os estudos. De lá, só consegui roubar o sino.

(Come chocolates, pequena . 2012)

 

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Momento existencialista a caminho do Pingo Doce

por Cristina Nobre Soares, em 22.11.15


Diz-me ela, às vezes a vida parece uma coisa estranha. Não achas, mãe? E eu penso, ui.

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Assombrados : A exposição

por Cristina Nobre Soares, em 18.11.15

Diz que sim. Que no dia 4 de Dezembro vai ser inaugurada a exposição deste assombroso projecto, os "Assombrados".

Espero-vos lá.

(O blogue dos Assombrados. Para quem ainda não conhece.)

 

 

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Medo

por Cristina Nobre Soares, em 15.11.15

Medo. Da morte. Da vida valer mais nuns sítios que noutros. Ou de nem sequer valer nada. Medo de ter medo. Da impotência. Da intolerância. Medo de perder o que nos foge por entre os dedos: A liberdade. A igualdade. A humanidade.

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