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Ela suspira e comenta resignada: Afinal temos de pertencer a algum sítio, não é? Eu digo-lhe que sim. Porque sei que é algo, que de alguma forma, conforta as pessoas. E lembro-me de ser miúda e dos meus pais dizerem a meu respeito, esta nasceu lá. Lá, era como eles se referiam a Moçambique. Lá. Um sitio sem nome, fossilizado num tempo que deixara de existir. E lembras-te de alguma coisa? Perguntavam-me as pessoas. Eu dizia que não. Veio muito pequenina, tinha ano e meio, diziam os meus pais. E as pessoas perdiam o interesse, porque uma pessoa sem memórias ainda é pior do que uma pessoa sem terra. E não tens vontade de lá voltar, de a conhecer? Também não. Lá, era um sitio que morava apenas nos álbuns de fotografias e nas conversas de olhos húmidos, dos adultos. Cá, o sitio onde cresci, quase se tornou na minha terra. E era um bairro suburbano feito de prédios mal construídos e rotinas pardas. Mas era tambéma  harmónica do amola tesouras nos primeiros dias de chuva, os descampados à espera da construção de outros prédios, onde brincávamos aos índios e cowboys e apanhávamos azedas para chupar. Era o quiosque do senhor  Leonel, aonde a minha irmã me mandava comprar a TV guia e um maço de português suave. Era uma terra onde ninguém tinha nome, onde toda a gente tinha aquela invisibilidade dos desenraizados. Se temos de pertencer a algum sítio? Não sei. Talvez porque a minha terra seja eu. Uma espécie de corpo errático que se empresta, sem nunca pertencer a sítio algum.

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Sobre o eclipse lunar

por Cristina Nobre Soares, em 27.09.15

Ela lamenta-se do tempo enevoado. Achas que vamos conseguir ver o eclipse, mãe? Eu olho pela janela, não sei, já sabes como é o tempo aqui. Conto-lhe que o eclipse lunar foi uma coisa muito importante na Grécia Antiga, porque houve quem, ao observar a sombra circular à volta da lua, deduzisse que a Terra era redonda. Ela pensa um bocadinho, e diz, mas é mais fácil acreditar que ela é plana. Ri-se, assim as coisas não caíam. E penso, que há muita coisa na vida que é como a gravidade. Só lhe conhecemos a equação, a teoria. Que não nos serve para absolutamente nada na trivialidade dos dias. A não ser o conforto do pensamento abstracto. Que não é fácil. Mas é uma espécie de fé na humanidade.

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Assombrados - A Russa (II)

por Cristina Nobre Soares, em 24.09.15

 

Russa_2B.jpg

 

 

 

"Não se sabe quantas cartas é que foram,  mas foram  as suficientes para se tornarem demasiadas na boca do carteiro"

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Assombrados - A Russa (I)

por Cristina Nobre Soares, em 22.09.15

"Mas ela é rica, tem mais coisas para dar para além da vergonha e da decência, que são a única riqueza das que nasceram pobres. Diziam as mães de carrapito, enquanto fechavam o decote das filhas"

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As janelas dos autocarros são opacas

por Cristina Nobre Soares, em 22.09.15

Tenho a teoria que as janelas dos autocarros são opacas. Apesar de as olharmos, só vemos o que nos corre por detrás dos olhos. Hoje, enquanto olhava por uma dessas janelas lembrei-me que houve alguém de quem gostei e cuja última vez que o vi, foi num autocarro. Ele entrou duas paragens depois de mim. Fingimos que não nos vimos. Toda a gente sabe que é melhor assim, quando não sabemos o que dizer. Mas no meu vidro correram todas as combinações de palavras e gestos possíveis. Toquei a campainha para sair no Marquês. Ele já saíra. Muito antes de ter entrado.

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Assombrados - O Carteiro (II)

por Cristina Nobre Soares, em 20.09.15

"Faltava uma hora para começar a manhã seguinte, quando, enquanto calçava os sapatos, lhe perguntou pelo nome. Natacha. É francês? Ela a disse-lhe que sim, no seu sotaque áspero, enquanto afastava a coberta da cama."

 

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Velar os vivos

por Cristina Nobre Soares, em 19.09.15

Hoje, quando abri o facebook, recebi uma notificação sobre ser o aniversário de alguém. Uma coisa trivial, que me acontece quase todos os dias. Uma coisa útil, para quem como eu nunca se lembra de nada. Nada demais, portanto. Não fosse pelo detalhe que essa pessoa morreu há uns meses. Hoje, quando abri o facebook fui invadida pelo absurdo dos nossos dias. Pela esquizofrenia de uma realidade gerida por algoritmos, rotinas, linhas de código. E penso que deixámos de velar os mortos para nos velar a nós. Na ilusão de que ainda estamos vivos.

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Segundos nomes e pontos de exclamação

por Cristina Nobre Soares, em 16.09.15

Como qualquer criatura nascida na década de setenta, tenho dois nomes próprios. Ambos muito gregos, diga-se de passagem. O que faz todo o sentido, pois segundo conta a minha família, o meu nome foi democraticamente escolhido a papelinhos. O meu segundo nome é uma coisa perfeitamente inútil. Pior, junto com o primeiro torna-se embaraçoso. Durante anos só me pareceu ter uma única função: ser gritado pela minha mãe sempre que eu fazia asneira. Mais ou menos como uso dos pontos de exclamação. Não vale a pena estarem constantemente a gritar, senhores. Não vale. Faz mal à saúde. E aos nervos. É uma maçada tremenda para quem vos lê os emails. E por favor, controlem a tentação de pôr mais do que um. Pontos de exclamação em grupo são tipo o meu segundo nome: só servem para eu vos ouvir aos gritos. E é embaraçoso. Muito. Para ambos.

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Assombrados - O Carteiro ( I)

por Cristina Nobre Soares, em 15.09.15

" E esperava, encostado à parede, enquanto ia comendo as pevides que a mãe salgava e secava em cima da pedra do poço. Até que ela saía, atrás das alunas. Abria-lhes o portão, e depois espreitava a ranhura da caixa do correio. Sempre sem o olhar. E ele, ali, meio escondido na penumbra do beco, a devorar as pevides e as curvas excessivas do corpo dela."

Para acompanhar aqui.

 

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A condenação da memória.

por Cristina Nobre Soares, em 14.09.15

Sempre que mudo de fotografia de perfil acontecem duas coisas: tenho uma quantidade de likes abismal relativamente aos meus textos, o que me leva a pensar que devo ser  melhor a sorrir do que a escrever,  e um ou dois reparos por parte de almas mais atentas sobre a necessidade de edição dos meus pés de galinha.  E eu, como em muitas coisas  na vida, fico  a pensar. Que somos criaturas que temem a memória na proporção inversa ao fascínio que têm pela ilusão. Lembro-me de ser miúda e ficar a suster a respiração quando o ilusionista serrava a assistente ao meio. É tudo a fingir, diziam-me os adultos, para me tranquilizar. E eu sabia que era, mas metade da piada daquilo era eu  fingir que aquilo era magia, porque assim a tornava possível. E cedo percebi que há mentiras que nos fazem tremendamente felizes. Parecermos dez anos mais novos numa fotografia, depois de a editarmos no Photoshop, é uma delas. Mas por cada linha, cada ruga que apagamos, há uma memória que vai atrás. Um preço um pouco elevado, talvez, a pagar por esta ilusão. O senado romano aplicava a damnatio memoriae, a condenação da memória, aos traidores e aos que tivessem desonrado Roma. Esta consistia na eliminação do passado dessa pessoa, como se nunca tivesse existido. A censura de Estaline ficou conhecida por fazer o mesmo, chegando mesmo a apagar, de fotografias, o rosto de membros dissidentes do partido. Se apagares, se eliminares, se não falares é porque não existiu, não aconteceu. Porque mesmo que saibas que é uma ilusão, com sorte um dia acreditas no próprio truque. Eu prefiro lembrar, aliás a coisa mais preciosa que tenho é a memória, sem a qual não escreveria. Eu prefiro lembrar por mais que me doa ver a passagem do tempo no meu rosto. Lembrar é sempre um exorcismo. Seja ele pessoal ou social. Mas vão por mim, que a memória é única magia realmente honesta que temos. Feita de oxidação, de caminho, de rugas, erros, vergonhas. Mas sem ela seremos apenas corpos estranhos a vaguear no espaço-tempo da ilusão dos outros.

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