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Sari em Entrecampos

por Cristina Nobre Soares, em 28.08.15

Senta-se à minha frente com as mãos delicadamente sobrepostas no colo. Deve ter mais de cinquenta anos. Ou talvez já perto dos sessenta. Há alguma coisa para além da meia idade no rosto dela. Tem um bindi vermelho na testa e veste um sari azul e branco, muito discreto. E lembro-me de novo da minha professora de português do ciclo preparatório, a limpar o batom dos cantos da boca e eu a ler a composição. Não me lembro bem sobre o que era. Mas sei que nela habitavam macacos aos ombros de homens morenos, um elefante e uma rapariga de sari índigo. Termino e ela pergunta-me, tu sabes o que é um sari? Digo-lho que sim. Então, explica-me lá. O desafio na voz e os outros demasiado calados. E eu, muito vermelha, a dizer-lhe que é o nome que se dá à roupa das indianas. E como é que sabes isso? Aprendi num livro que li. E explico-lhe, também, mesmo sem ela perguntar, que o índigo é um tom de azul que se tira de uma planta que há na Índia. Ela sorri, quase sem mexer os lábios, gostei muito, depois deixa em cima da minha secretária para eu ver se tem erros. A mulher indiana já lá não está. Saiu em Entrecampos. Ou talvez só tenha entrado num livro que li.

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Fim de Agosto

por Cristina Nobre Soares, em 26.08.15

Há qualquer coisa de presságio no fim de Agosto. Talvez seja a luz curva dos fins de dia, a morrer nas noites que crescem. Uma espécie de senescência das horas que esperam a colheita de qualquer coisa. Há qualquer coisa de presságio no fim de Agosto. Mas talvez seja apenas impressão minha.

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Memórias do incêndio do Chiado.

por Cristina Nobre Soares, em 25.08.15

Liguei-lhe logo de manhã, ansiosa para lhe contar que tinha dado o meu primeiro beijo no dia anterior, ao som do Circo de Feras dos Xutos. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela disparou em choque, já sabes que o Chiado está a arder? Tapei o bucal e contei à minha mãe, que comentou desolada, comprei o tecido do vestido de casamento da tua irmã na Rua Garrett, e eu querer contar-lhe, por aquelas meias palavras que só nós percebíamos e ela do outro lado do telefone que não se calava com o incêndio. Lembrei-me disto quando, anos mais tarde, já num Chiado reconstruído, sem feridas, dei um beijo a alguém, antes de descer para a Rua do Alecrim. 

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O tempo de uma maionese

por Cristina Nobre Soares, em 24.08.15

Tento resumir-lhe os últimos três anos no tempo de uma maionese. Falo-lhe de medos, de inflexões e curvas no caminho enquanto deito o óleo em fio. Quebro-lhe o silêncio constrangido com o barulho da varinha mágica. Ajusto os temperos, enquanto comprimo um passado recente naquele único ponto que nos acontece na cozinha. Eu sei que ela apenas finge perceber. Eu sei que não me expliquei. A amizade também tem este lado de teatro conveniente.

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Rosa forte

por Cristina Nobre Soares, em 24.08.15

Há um homem que cambaleia, tropeça no lancil do passeio, quase cai. Mas não é isso que me chama a atenção e me faz olhar pela janela do carro. Nem o rosto contraído pela embriaguez, nem a camisa meia fora das calças, nem a camisola rosa forte da miúda que o ampara para que não caia, nem o cabelo frisado e crespo que lhe sai indisciplinado do rabo de cavalo, nem o facto dela parecer ter a idade da minha filha. É a naturalidade do gesto dela. Sem vergonha, nem outro constrangimento. Como se crescer do avesso e evitar que o pai caia na valeta seja o sentido natural das coisas.

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Ainda acerca da leitura do tal livro

por Cristina Nobre Soares, em 18.08.15

 

Num mesmo parágrafo, longo, a narradora usa fragor, fremente e inculcada. A página estreita-se e a sua voz esganiça-se com trejeitos de boca. E eu lembro-me de uma tia minha que falava assim, sentada de costas muitas direitas, cujo cabelo era enrolado semanalmente numa banana irrepreensível. Bebia chá por umas chávenas de porcelana muito fina e não comia, debicava. Fazia colecções de tudo, que exibia em vitrinas que iluminavam um corredor estreito, onde uma imitação de tapete persa abafava o ranger das tábuas à nossa passagem. Meninas, não corram, dizia ela muito direita, mas sem nunca se zangar, que isso, decerto não lhe ficaria bem. E nós tentávamos correr em bicos de pés. Ouvia-se na mesma. Volto ao livro, mas continuo a ouvir a voz esganiçada da minha tia ao fundo do corredor. Descalço os sapatos. Talvez assim possa ler sossegada.

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Inolvidável

por Cristina Nobre Soares, em 16.08.15

A minha professora de português do ciclo preparatório usava o cabelo armado com laca, acumulava batom seco nos cantos da boca, o qual limpava constantemente com o indicador e o polegar, e tinha uma obsessão com a palavra inolvidável. Tudo era inolvidável: das faltas de educação às notas superiores a noventa e cinco por cento. Lembrei-me dela hoje enquanto lia as primeiras páginas de um livro, cuja autora tem a mesma obsessão. Há coisas realmente inesquecíveis.

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O meu pé de laranja lima

por Cristina Nobre Soares, em 13.08.15

lima.jpg

 

Não me consigo lembrar de quantos anos tinha quando o li pela primeira vez. Lembro-me que chorei quando morreu o português, que não sabia o que era uma laranja lima, e que tanto a mãe do Zezé , como a irmã mais velha, me pareciam ser pessoas muito más. Reli-o. A mãe do Zezé afinal é apenas uma mulher com aquele cansaço baço  da vida a vergar-lhe os ombros. As privações envelhecem, enraivecem, tiram o viço, a vontade de tudo. Os dias contam-se, não se planeiam, que os planos e os sonhos são luxos de quem tem futuro. Engraçado como o que lemos também cresce connosco. Emocionei-me de novo, que a escrita do José Mauro de Vasconcelos tem destas coisas. E hoje, que já sei o que é uma laranja lima, que sei o que são maus bocados, tive vontade de dizer ao Zezé: Dá lá uma folguinha à tua mãe, que ela precisa.

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Silly season #2

por Cristina Nobre Soares, em 10.08.15

287.jpg

 

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Silly season #1

por Cristina Nobre Soares, em 09.08.15

Mafalda_na_Praia_C_pia.jpg

 

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