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Diz que o Centro Comercial das Amoreiras abriu há 30 anos

por Cristina Nobre Soares, em 30.07.15

Íamos ao cinema numa espécie de romaria suburbana. Entrávamos nas lojas mais finesse, só para experimentar, pelo menos eu, cujo único par de calças de marca que tive, foram umas El Charro de contrabando. Depois da matiné, caso fosse perto da hora do jantar, contavam-se os trocos (sim, ainda em escudos) da semanada para se comer um hambúrguer como os miúdos da nossa idade faziam nos filmes camones. Os anos noventa estavam aí à porta. Tudo se começava a vender em escaparates normalizados. Até a vida.

 

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Verão.

por Cristina Nobre Soares, em 28.07.15

O silêncio morno, as vozes entrecortadas pelo rebentar das ondas, a areia fria e húmida nos pés, olha que ainda não fizeste a digestão, a mulher dos bolos, vestida de branco, bolinhos, a cara pintada de creme Nívea, põe o chapéu, olha o sol, as sardas a multiplicarem-se no rosto, os papagaios  de papel a rasgarem a brisa morna, eu a cerrar os olhos e agora já é o caminho de gravilha, a bicicleta a descer a encosta, as pernas as roçarem as silvas, endireita o guiador, eles a gritarem, as amoras a tingirem o chapéu de napa branca, a casca dos pinhões a saltar debaixo da pedra de basalto, bate-lhes assim de lado para não os esmagares, os estorninhos no azul claro do céu. O silêncio, eu a cerrar os olhos, as memórias avulsas, e o Verão na ponta dos meus dedos.

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Domingo à tarde

por Cristina Nobre Soares, em 26.07.15

 

 

Arrumam-se estantes, escolhem-se livros para dar. Só esses? Pergunta-me ele, a rir-se. Encolho os ombros. Ele sabe que eu tenho esta coisa com os livros, que lhe vou dizer mais uma vez que cada um deles tem uma história para além da que vem depois da capa. Que me consigo lembrar onde comprei cada um deles, com que idade, quem mos deu e porquê. Que gosto de retornar de tempos a tempos aos que mais me marcaram. Que os em segunda mão ainda são mais mágicos por terem pertencido a mãos que nunca conheci. E então, aqueles que não gostaste? Esses podias dá-los. E eu digo que não, que isso não faz sentido, não vais dar uma coisa que não gostas. Tens de perceber que os livros são uma espécie de registo da tua vida. Também não dás as fotografias quando achas que já olhaste o suficiente para elas, pois não? Fazem parte de ti. Regressas-lhes sempre que a memória se esbate. Os livros são a mesma coisa. Ele suspira. Já vi que vamos ter de comprar outra estante.

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Sobre as alterações à lei do aborto.

por Cristina Nobre Soares, em 22.07.15

“Dar mais apoio às mulheres que recorrem à IVG” seria, sim, repensar o contexto social e económico da mesmas, assim como a ausência de futuro e muitas vezes de presente que as levam a tomar essa opção. Porque a “leviandade” que tantos embandeiram como argumento moralista é também fruto da precariedade cultural, social e financeira. A “leviandade” é directamente proporcional ao paternalismo, ao moralismo postiço, à claustrofobia demagoga de um pais que tarda em ter uma consciência social sem o bafio de uma democracia de retrosaria.

 

No rescaldo desta notícia 

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Ontem, diz que Hemingway teria feito 116 anos.

por Cristina Nobre Soares, em 22.07.15

Eu teria uns treze anos quando a minha mãe decidiu que eu já tinha idade para ler os livros da estante grande. Eu pedi-lhe os Filhos da droga, da Christiane F. Nem pensar, isso não é para a tua idade. E nessa noite, para evitar mais insistências deixou-me uma série de livros em cima da cómoda do quarto, estes são bons para ti. Terra Bendita da Pearl Buck , Clarisse do Érico Verissimo e as Pupilas do Senhor Reitor do Júlio Dinis , eram alguns dessa pilha. Eu, a medo, escolhi o mais fino. Uma história sobre a luta até ao limite, entre um velho e um peixe. Ensinou-me, com a crueza que lhe caracteriza a escrita, a beleza da persistência, do nunca desistir. Volta e meia regresso-lhe. Hoje provavelmente será um desses dias. Obviamente que acabei por ler os Filhos da droga às escondidas.

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Confissões de quem já não passa sem o facebook

por Cristina Nobre Soares, em 20.07.15

A olhar por aqui, por esta janelinha raquítica do facebook, eu, que nasci com uma incapacidade de me lembrar de qualquer tipo de data, até pareço uma pessoa atenta, a dar os parabéns a toda gente que celebra o seu aniversário. Eu, que até do meu próprio dia de anos já me esqueci, que ando sempre despenteada, desalinhada, com o lápis dos olhos a fazer-me umas olheiras tremendas, porque me esqueço que não posso esfregar os olhos, vou alternado a minha fotografia de perfil com retratos onde quase pareço  uma pessoa crescida e digna de respeito. Eu, uma céptica até ao tutano, dou por mim a partilhar frases motivacionais que me arrebatam o cinismo empedernido. Eu, que já não passo um dia sem vir aqui, a esta janela que dá para uma rua tão perfeitamente construída com cenários de papel machê e outros ilusionismos, vos confesso: Como é encantadora esta possibilidade de sermos tudo aquilo que nunca seremos.

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Da teoria dos conjuntos

por Cristina Nobre Soares, em 16.07.15

E depois há aquele momento em que percebemos que somos apenas conjuntos disjuntos de qualquer coisa. E que isto dos porquês, esta busca de uma lógica para todas as insignificâncias onde tropeçam os nossos passos, é apenas uma espécie de certeza absurda que nos intersectaremos nalgum ponto. Basta desenharmo-nos na dimensão certa.

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Dr. Jivago

por Cristina Nobre Soares, em 11.07.15

O Dr. Jivago será sempre o tema de Lara, numa versão dum disco com uma colectânea de temas  de êxitos de bilheteira. Esse disco tinha uma capa absurda, com uma foto montagem, onde umas raparigas sorridentes, de mini saias com padrões berrantes, dançavam em cima das teclas de um órgão. O filme é formidável, comentava o meu pai. É com o Omar Sharif e a Julie Christie. Temos aí o livro, comentava a minha mãe. É melhor. Lá estás tu, respondia ele, enquanto punha a agulha no disco.

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Maria Barroso

por Cristina Nobre Soares, em 08.07.15

Na noite das eleições presidenciais de 1991, ligaram lá para casa. Quem atendeu foi o meu pai. Agradeceu qualquer coisa, atenciosamente. Depois tapou o bocal e chamou a minha mãe. É para ti. E entrou na sala a rir-se. Quem é? Perguntei-lhe. Alguém que quer dar os parabéns à tua mãe. Diz que ficou muito contente por eu ter ganho as eleições outra vez, mas de quem gosta mesmo é a da minha esposa. A minha mãe desligou o telefone e disse, meia zangada por nos estarmos a rir que nem uns desalmados, ao menos podias ter dito à criatura que eu não sou doutora.
Ontem o país perdeu uma mulher da liberdade, da democracia. Uma grande senhora, como lhe chamava a minha mãe.

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Dos erros de paralaxe.

por Cristina Nobre Soares, em 07.07.15

Às vezes tenho a sensação que vivemos numa tirania do entusiasmo, do positivo, do não-penses-muito-que-isso-chateia. Mas como explicar às pessoas, que tal como na matemática, a vida só faz sentido com os eixos do lado esquerdo e direito do zero, que são os dois igualmente belos, extraordinariamente humanos e que sem eles a vida será apenas um monótono erro de paralaxe?

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