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Domingo à tarde #2

por Cristina Nobre Soares, em 31.05.15

Alguém que está sempre de regresso diz-me, da próxima vez fico mais tempo.  Sorrio.  E eu, da próxima vez, ponho mais açúcar no crumble. Mãe, tenho de fazer uma composição sobre “O melhor dia da minha vida”. Encolhe os ombros,  e é uma estupidez,  eu só tenho dez anos e todos os dias têm coisas boas e más. Então escreve isso mesmo, digo-lhe. Nas redes sociais toda a gente se queixa do vento. Não percebo porquê. Gosto da anarquia dos dias de vento. E é bom para secar roupa.

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Tens uma coisa com a Feira do Livro

por Cristina Nobre Soares, em 28.05.15

Diz que começa hoje mais uma feira do livro. Queres lá ir este ano outra vez? Pergunta-me. Digo, claro que sim. Ele ri-se, tens uma coisa qualquer com a feira do livro. Talvez. Lá, compraram-me alguns volumes da minha querida coleção azul, num tempo em que me tinha de pôr em bicos dos pés para ver os livros em exposição. Lá, comprei o meu primeiro Gabriel Garcia Marquez, o meu primeiro livro de poesia de Sophia, num tempo em nos acontecem as primeiras vezes de tudo. Lá, comprei duas edições Avante, uma delas era uma colectânea de poesia de Ary dos Santos. Cheguei a casa, num tempo de todas as certezas e mostrei-a ao meu pai. Ele suspirou de sobrolho franzido e disse, sim o Ary tinha poesia muito boa, pena ser comuna. Lá, comprei uma edição de história de arte da Gulbenkian com o dinheiro que a minha mãe me tinha dado para comprar uns manuais de análise matemática e química da mesma editora, a ver se assim tiras um dez. Lá, fingi ter os mesmos gostos que os meus improváveis namorados, mas também fui sozinha sem comprar nada, só para ver as pessoas e lá ao fundo, o Marquês. Lá, comprei o primeiro livro para a minha filha, que ainda hoje não gosta de ler. É a vida. E lá irei este Junho, a pensar que num Junho futuro, quem sabe, talvez tenha um livro meu numa das bancas. Sim, tenho um caso sério com a feira do livro.

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Memórias, cervejas e pastilhas e elásticas

por Cristina Nobre Soares, em 27.05.15

Há um grupo de homens no topo do balcão, a beberem cerveja ruidosamente. Lembro-me do café que havia em frente à escola onde comprávamos rebuçados, já meio derretidos no papel, e pastilhas elásticas, que enfiávamos aos pares na boca para tentar fazer balões maiores.  Nesse balcão, ao fundo, na penumbra do café, às vezes sentavam-se os homens das obras a beber cerveja.  A dona do café mandava-os falar baixo por causa dos palavrões, olhem as crianças, dizia enquanto punha a mão dentro dos potes dos rebuçados.  Eles obedeciam e curvavam-se no topo do balcão, como se dessa forma se tornassem invisíveis.  E penso, enquanto como o pão com manteiga, que isto agora ficaria bem com uma conclusão rasgada sobre sermos uma simples repetição de memórias.  Mas não me ocorre nada e o pão está mal cozido.

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Domingo à tarde

por Cristina Nobre Soares, em 24.05.15

Sento-me no alpendre a apanhar sol. Ela salta à corda até chegar ao número cinquenta. Um vizinho arranca as daninhas com a mão dentro de um saco de plástico. Há uma folha de jornal que esvoaça na gravilha. Uma mão pousa-me no ombro, sabe-te bem o sol? Sorrio-lhe. Somos criaturas condenadas ao perpétuo dos detalhes. E ainda bem. Sem eles não haveria poesia.

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Quem Conta um Conto

por Cristina Nobre Soares, em 24.05.15

A história é simples. Cruzei-me com o João Santos no Coworklisboa, ele fez-me um desafio, olha e se nas tuas oficinas se produzissem contos que publicássemos no quem conta um conto? E eu, olha, isso era ideia para ser em bom. Terminámos o café e saímos dali com sensação que tinhamos ali uma ideia ganhadora. 

Para que não digam que não gosto de finais felizes. Obrigada, João Santos.

 

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Anda por aí muita desgraça.

por Cristina Nobre Soares, em 21.05.15

Fala ao telefone, a voz treme-lhe. A cada paragem do autocarro, treme-lhe cada vez

mais, até que se desmorona a chorar, ali, sentada num dos lugares individuais, tapada pelas pessoas que vão em pé, com as palavras entrecortadas pelas lágrimas que lhe pingam no canto da boca. Está sentada a uns centímetros de mim. Desliga o telemóvel, limpa o nariz e os borrões de rímel com as costas da mão, levanta-se, com licença, eu desvio-me, toca a campainha e sai ainda a soluçar. O velho, em pé ao meu lado, olha-me e comenta antes de se sentar no lugar ainda quente, anda por aí muita desgraça.

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Às vezes tenho saudades da minha rua.

por Cristina Nobre Soares, em 19.05.15

Às vezes tenho saudades da minha rua. Do cheiro das tílias, dos estores a fecharem-se por cima das nossas cabeças, as minhas costas na parede morna, tenho de subir, um carro a contornar a rotunda depois do último autocarro da noite, do som das televisões nas janelas entreabertas, tenho de subir, os outros sentados no degraus, um cigarro a partilhar-se, os nossos risos a engolirem-se no cortinado da vizinha e eu a demorar a dizer, tenho de subir.

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Do bullying e do silêncio.

por Cristina Nobre Soares, em 16.05.15

Era das mais altas e ficava sempre na fila de trás. Chegava à escola sempre sozinha. Às vezes a irmã mais velha, que apesar de só ter quinze anos e que na altura me parecia tremendamente adulta, trazia-lhe o lanche esquecido a meio da manhã. A mãe nunca aparecia. Eu conhecia-a por viverem na minha praceta. Era uma mulher de cabelo platinado, olhos excessivamente pintados que só vestia roupas apertadas e néon. Mas nunca ia à escola. Muitas vezes depois das aulas, vi a minha professora à espera no portão. Mas só vinha a irmã. A minha professora dizia, eu tenho de falar é com a tua mãe e a rapariga encolhia os ombros, enquanto punha a mão na cabeça da irmã. A miúda muitas vezes usava a mesma roupa durante a semana inteira. E como tinha um pastor alemão enorme, muitas vezes cheirava a cão. Por causa disso, os outros miúdos gozavam com ela por causa do cheiro. E ela não fazia nada, ficava encostada à parede com as mãos atrás das costas, em silêncio. Uma vez, à saída da escola um grupo foi atrás dela a gozar, a rir-se, dizendo-lhe, cheiras a cão. E eu tive um medo que nunca tinha tido. Eu, que tantas vezes tinha sido gozada, ficas parada a olhar para as pessoas, deves ser maluca,és esquisita, não fiz rigorosamente nada. E tive medo. Mas de mim. Que é o pior medo que podemos ter. Fiquei ali, a abrandar o passo, a tentar fingir que não a via a desaparecer por debaixo dos arcos dos prédios, a chorar. Achei errado, mas não fiz nada. Tive medo que isso me tornasse igual aos outros. E deles também, cuja raiva com que se riam me assustou. No dia seguinte a professora pediu à miúda que dissesse quem é que tinha sido. Ela apontou um a um. Depois olhou para mim e disse, ela não. Ela não fez nada. Pois não, eu não tinha feito nada. E nesse dia eu percebi que o nada pode ser a maior das culpas.

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Consequências menos más de uma gripe.

por Cristina Nobre Soares, em 15.05.15

Ficarmos quietos. E com isso vermos as coisas mais nítidas. Em andamento, por cima do ombro, parecem-nos sempre um borrão esbatido.  Ficarmos quietos obriga-nos a ver as coisas como elas são. Não como imaginámos que fossem.

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Diz que a Anita agora é Martine

por Cristina Nobre Soares, em 14.05.15

Cresci com os livros da Anita. Nunca fui uma grande fã dos mesmos, até porque deles, o que eu realmente gostava era das ilustrações, estas lindíssimas. As histórias, bem, as histórias, a Anita era uma menina a preceito, ela era dona de casa, ela tomava conta do irmão, ela dançava ballet, andava a cavalo, viajava de avião, tocava violoncelo, cozinhava primorosamente, tinha festas de anos a preceito, a mãe era elegantíssima e devia só ter mais uns dez anos que ela, o pai mal se via, o cão falava, o gato não me lembro. Era chata, de tão perfeita, a Anita. Pior só o Ruca, o qual eu tive de gramar à conta da minha filha. Diz que agora se chama Martine e segundo a editora porque “ chegou a altura de fazer algumas alterações na vida de uma das mais queridas figuras femininas da literatura para crianças". Pois, talvez. Mas penso que no caso da Anita, enquanto figura feminina para crianças, o nome até nem estava mal, porque convenhamos: “Martine dona de casa” dá no mesmo.

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