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Depende

por Cristina Nobre Soares, em 30.04.15

Pelos vistos possuo mais uma característica que causa grande maçada aos outros. Tenho hábito, perante aquelas certezas lapidares, de dizer: depende. Irrita-os, pelos vistos. Mas caríssimos, quase tudo depende mesmo. Da vida, do caminho, das paixões, religiões e quaisquer outros actos de fé. Tudo isto em infinitas combinações. A probabilidade de sabermos o que realmente se passa no avesso da pessoa é ínfima. Ninguém sabe de ninguém. Por isso, sim, depende. Porque certezas só tenho as minhas. Que, para além de serem poucas, foram alinhavadas com o tecido já posto no corpo. Não servem a mais ninguém. É isso. A vida dos outros, vestida à força, pica-nos na pele, aperta-nos, a ponto de não conseguirmos respirar em condições. Por isso sim, dependerá, sempre.

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Porque isto da escrita criativa é só um nome moderno

por Cristina Nobre Soares, em 30.04.15

Para pôr as pessoas a escrever, que é coisa que toda a gente sabe fazer. Mesmo que digam, que ai e tal não tenho jeitinho nenhum. Que isto não é uma questão jeito, senhores. É apenas uma forma diferente de respirar.

(No Coworklisboa. Lá vos espero)

coworklisboa.jpg

 

 

 

 

 

 

 

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Dos filmes, da tolerância e outros farois de Alexandria

por Cristina Nobre Soares, em 29.04.15

Esta semana revi o filme "Ágora" de Alejandro Amenábar. Volta e meia faço-o, pois é daqueles filmes que nos relembram certas coisas que tão convenientemente esquecemos. É certo que não é um filme brilhante, é certo que tem imprecisões históricas, mas a empatia tem destas coisas estranhas e este tornou-se num dos meus filmes preferidos. Porque para mim, a história de uma mulher sozinha contra tudo, apenas com aquilo que acredita nas mãos, será sempre uma boa história. Porque fala de tolerância: de género, raça, religião, condição. E como a ignorância é apenas o principio dessa cegueira, que nos tolda a humanidade. No fim, quando tudo em que ela acredita se desmorona e ela se recusa a ceder, Orestes, o seu protector diz-lhe, desesperado, mas assim Cirilo vencerá. E ela olha-o e responde: Mas ele já ganhou. Porque o silêncio, a conveniência, será sempre o maior aliado da intolerância. E o conhecimento, o nosso farol de Alexandria.

 

Apontamento: Nesse ano saiu um outro filme, também supostamente sobre intolerância, "Avatar" de James Cameron. Onde a única personagem, também ela uma mulher (interpretada pela Sigourney Weaver), que tenta a ponte entre o melhor dos dois mundos, morre, por não ter lugar em mundo algum. Engraçado que este momento passe tão despercebido, por entre as luzes e ruídos de efeitos especiais fabulosos. Mas também, quem é que repara nestes detalhes, quando há flores que que brilham e voam e assim anunciam improváveis messias?

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Pensamento sem qualquer rasgo literário

por Cristina Nobre Soares, em 27.04.15

Hoje  perguntaram-me como é que eu me cobrava nisto da escrita. Respondi que me cobrava à hora. Pelo mesmo valor e forma com que me cobrava no tempo em que era engenheira.  Mas não seria melhor cobrares-te por palavra? Disse que não.  Que valor terão aquelas palavras que apago e que  por serem apagadas tornarão o texto melhor? Que valor terá esse desapego?  E penso que isto de tentar viver da escrita é uma maçada. Tão grande, que é melhor ir ali escrever qualquer coisinha com menos de cem palavras para espairecer. Manias.

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Vinte e seis

por Cristina Nobre Soares, em 26.04.15

Vermelhos já não tenho. Diz-me, enquanto faz o troco a alguém. Isso foi ontem. Hoje, vermelhas, só as gerberas. Digo-lhe que não, que queria mesmo cravos. Pois, desses tive ontem. Não muitos, que isso já não se vende como se vendia dantes. Aponta-me para as gerberas. Mas olhe que estas com um bocadinho de verdura fazem uma jarra bonita. Sorrio-lhe e penso no bom que seria se deixássemos de ajeitar a memória do país com um bocadinho de verdura.

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Todos os dias serão sempre o dia antes.

por Cristina Nobre Soares, em 24.04.15

Gosto de lembrar o vinte quatro de Abril e com ele todos aqueles que em ditadura, em repressão tiveram a coragem de desobedecer. Todos aqueles que ao longo de quase cinquenta anos viveram em clandestinidade. Todos aqueles que perderam empregos, famílias, vidas. Todos aqueles que acreditaram num país, num chão melhor, livre.  Gosto de lembrar o caminho percorrido por todos os passos anónimos que me permitem que, hoje, eu possa escrever isto. Que vale o que vale, mas onde me aconteço em toda a liberdade das minhas escolhas.  De certa forma invejo-os,  como  invejo toda a coragem alheia. Que aprendamos com eles que tudo pode mudar.  Que todos os dias são dias vinte e quarto e que basta o amanhã para que  deixemos de ser criaturas acomodadas no medo.

 

“Às vezes é preciso desobedecer” Salgueiro Maia

 

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Que não precises nunca de um dia mundial do livro.

por Cristina Nobre Soares, em 23.04.15

É a história de amor mais bonita do mundo, diz-me sempre que pega na edição do Cyrano que lhe comprei quando tinha cinco anos. É um livro grande, com umas ilustrações lindíssimas. É triste, muito triste, mãe, mas é tão bonita. Pois é, digo-lhe. Que te lembres que o amor, aquele nos grava por dentro, é o que se sopra à noite por entre as alfazemas e que nos soa a poesia. Que te lembres que nada é um nariz disforme, quando comparado com uma alma grande. E que não precises nunca de um dia mundial do livro para te lembrares disto, filha.

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Caro anónimo fofinho das 14.26

por Cristina Nobre Soares, em 21.04.15

"é tao tão triste nem ter originalidade para um nome de um blog
até isso teve de ser copiado"

Tranquilo, que o Álvaro é um gajo fixe e disse-me que eu podia usar o verso do poema enquanto ia num instantinho até Tavira.  Até porque está  habituado que eu copie. Fiz isso no meu último blogue, que é um vício que se me mete no corpo. Fazemos assim, para a próxima copio qualquer coisa do Ricardo ou do Alberto, que andam um bocado de esguelha comigo à conta disso.

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Não há mal que o chocolate não cure

por Cristina Nobre Soares, em 19.04.15

Por ter pés chatos e joanetes, Amélia nunca aprendera a dançar. Este era um desgosto que lhe consumia o avesso da alma. Quando havia bailes na vila, ficava a ver os outros a bailar noite fora, com a pena, que às vezes doía até se tornar inveja, a criar-lhe um formigueiro que lhe subia pelas pernas acima. Mas só até aos joelhos. Apercebera-se disso, num desses bailes, o Zeferino, que para além de poeta, também era homem viajado, e a quem a solidão já pesava, principalmente sempre que ia além da segunda aguardente. Pois, numa dessas vezes, chegou-se perto dela e disse-lhe: tenho um remédio, que me ensinou uma velha índia mexicana, que te põe os pés direitos e a saberem dançar. Ela torceu o nariz. Tanto à conversa como ao hálito de aguardente. Mas ele insistia. Que sim, era um remédio infalível. Ora amargo e negro, ora branco e excessivamente doce. Que sim, que esse remédio lhe meteria tal leveza no corpo e na alma, que não haveria dança que os seus pés retorcidos não conseguissem dançar. A noite toda a moe-la nisto, até que ela disse, venha esse remédio, então. Mas havia uma condição, que assim que ficasse curada dos pés teria de casar com ele. Pois sim, disse-lhe ela, até porque não acreditava que algum dia isso acontecesse. E a primeira encomenda chegou no sábado seguinte. Trouxe-a um carteiro bem jeitoso que ela nunca vira por aquelas paragens. Abriu o pacote de papel pardo. La dentro uma caixa imensa de chocolate. Voluptuoso, intenso, doce, a deixar-lhe a boca aveludada, a aquecê-la por dentro, assim mesmo no peito, e as dores nos pés a aliviarem-se-lhe, sempre que ela semicerrava os olhos. No sábado seguinte, outro pacote, e o carteiro a parecer-lhe um artista de cinema, de olhos que lhe furavam a alma. Desta vez o chocolate era leve, negro, pouco doce, os pés a ficarem-se-lhe leves, cada vez mais leves, e o formigueiro a subir-lhe pelas pernas, a querer passar os joelhos. No terceiro sábado, mais uma caixa de chocolates, estes, com travo de álcool e picante, a voz do carteiro a pôr-lhe a cabeça tonta, que bem que ele cheirava, o formigueiro a subir, a subir, ele a puxa-la para si, só para uma dança, uma só, e ela a dizer que sim, os pés quase sem tocarem no chão, a cabeça e o corpo a girar. Nunca mais se soube nada deles. Dizem que fugiram os dois. O Zeferino, esse, continua a oferecer a cura do chocolate, às moças que não dançam. Mas diz que ainda não casou. Fogem todas com os carteiros.

 

(Texto apresentado no evento "Nº 16, do chocolate",  a decorrer no no Espaço Ó, durante o festival do chocolate de Óbidos)

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Das surpresas boas logo ao Sábado de manhã.

por Cristina Nobre Soares, em 18.04.15

Quando comecei a seguir o Delito de Opinião, tinha um blogue chamado Deserto do Mundo, do qual hoje tenho imensas saudades. Apesar de anteriormente ter tido um outro blogue, este terá sido, sem dúvida o começo de qualquer coisa que ainda não sei bem o quê. O ano de  2008,  quando abri esse blogue, foi o ano em que percebi que a escrita, em mim, seria sempre  mais do que um gosto de ego, um devaneio para quando não tinha mais nada de importante para fazer. A escrita era eu. Foi o ano em que morreu o meu pai, que me deixou, nas mãos, aquilo que nunca soubemos partilhar em vida. Foi o ano em que publiquei o meu primeiro, e até hoje único livro. O caminho começou, medroso, com as dores de crescimento de tudo o que é inevitável. Nele conheci a Alice Vieira, num curso de escrita criativa que ela deu, ao longo de um Janeiro e um Fevereiro excessivamente chuvosos, e com a qual aprendi que isto de pensarmos com palavras é sinal de alguma coisa realmente poderosa. O Deserto do Mundo deu lugar ao Come Chocolates, Pequena. Sim, a minha pequena confeitaria que cresceu muito mais que o tamanho das próprias portadas. Até chegar aqui, em linha muito pouco recta, que este últimos anos têm sido sinuosos. Mas nas curvas do caminho, encontram-se pessoas como o Pedro Correia, que mantém a teimosia de nos ler e ainda dizem este tipo de coisas simpáticas a nosso respeito. Tem valido a pena.  

 

Obrigada, Pedro Correia.

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