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Vem aí chuva

por Cristina Nobre Soares, em 31.03.15

Pago a conta da água enquanto penso que isto da nossa existência é uma coisa trabalhosa, sem grande interesse para os outros. Guardo o porta-moedas dentro da carteira (afinal guardamos sempre qualquer coisa dentro de uma outra) e um homem de boina, segura-me a porta à saída. Agradeço-lhe e ele queixa-se do tempo, parece que voltou o Inverno, tiro as chaves do carro, dantes as estações eram certinhas. Sorrio-lhe. O passado tem essa coisa de ser previsível. Olhe que vem aí chuva, avisa-me. Vem sempre. E não faz mal. Se vier, estugo o passo. Gosto de contar com as minhas próprias pernas.

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Pensamentos avulsos que não têm interesse nenhum

por Cristina Nobre Soares, em 27.03.15

Cada vez mais tenho a sensação que o tempo não é contínuo. Que há instantes que demoram mais do que qualquer hora, que são anos que nos litografam por dentro. Encolho os ombros, é capaz de ser apenas impressão minha. É sempre.

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Às vezes gostava de ser burguesa.

por Cristina Nobre Soares, em 26.03.15

Às vezes gostava de ser burguesa. Mas lendo esta primeira frase é óbvio que nunca o serei, pois “ser burguesa” é coisa que terá caído em desuso no vocabulário por volta de mil novecentos e oitenta e seis. Não é moderno, cheira a piquetes de greve do fim da década de setenta e a muros pintados na vinte e quatro de Julho. Mas às vezes gostava de ser burguesa. Ser uma delas. Têm sempre os cabelos impecavelmente alinhados com o seu enfado perante o mundo. Pegam nas chávenas de chá sem que se lhes notem as mãos, que as burguesas têm mãos invisíveis, que nunca incomodam à vista pois sabem sempre onde estar pousadas. Sabem sempre quando sorrir, quando estar atentas, como falar de política sem mostrar filiação ou entusiasmo. Sabem qual é melhor loja para comprar rilletes em Paris e qual o musical que está em cartaz no Her Majesty’s Theatre. Não roem as unhas, nem lhes pinga o nariz por causa rinite alérgica. Sempre impecáveis. Elas sabem que eu gostava de ser como elas. Talvez por isso me tolerem e finjam que não vêm as nódoas de chá ou café, que me vão caindo no guardanapo enfolado no colo, ou que não reparam no meu cabelo sempre despenteado, e sorriem, maternais, às minhas ideias sobre mudar o mundo, as quais explico sempre com excesso de gestos e de mãos. Riem-se muito de tudo o que lhes digo, ai Cristina, tu e as tuas ideias loucas são o máximo. E penso, que isto de não pertencer a sítio algum é uma maçada.

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Jeito de mãos

por Cristina Nobre Soares, em 23.03.15

Vais mesmo levar a planta? Pergunta-me. Eu digo que sim. Mas sei porque é que ele me pergunta isso. Morrem-me as plantas todas, às minhas mãos. Depressa perdem o viço, murcham, definham. Porque  me esqueço de regá-las, ou as afogo em água e quanto à luz que precisam, é um mistério. Dizem-me que não tenho mãos para plantas. Como não tenho para qualquer tipo de lavor. Lembro-me da minha mãe tentar que eu aprendesse a tricotar. As malhas saiam-me todas diferentes, criaturas insubordinadas com vida própria. E o tempo de uma carreira de malha era de um tédio interminável. A minha mãe suspirava, ai rapariga que não tens  mesmo mãos para isso. Deve ser isso que acontece com as plantas. Não tenho mãos. Dizem que é uma coisa que nasce com as pessoas. E como invejo essas pessoas capazes criar verdadeiros jardins botânicos em vinte metros quadrados de sala. Gostava tanto. Volto a pôr a planta no expositor e suspiro.  Raios, às vezes penso que me bastaria ter apenas olhos. O resto do meu corpo tem dias que me parece supérfluo.

 

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Pessoas normais.

por Cristina Nobre Soares, em 20.03.15

Ler. Pensar em absurdos e outras coisas pequeninas. Ler. Olhar e com tempo, ver. Enfim, fazer aquelas coisas que as pessoas normais deveriam fazer. Bom fim de semana.

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Do dia do pai e e outras efemérides

por Cristina Nobre Soares, em 19.03.15

Já aqui confessei o quanto me desinteressam as efemérides. Para mim as memórias não têm data para acontecer. Existem-me, sem aviso, sem tempo prévio. Por isso não faz qualquer sentido para mim, o dia do pai, ou da mãe, ou dia seja do que for. Os dias são feitos de horas só nossas. Tão unicamente nossas. Ontem, aconteceram-me essas horas.Ontem, o meu pai aconteceu-me. Porque sei que lhe teria dado a melhor prenda do mundo.

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A penny for your thougths

por Cristina Nobre Soares, em 18.03.15

 

 Às vezes o meu irmão montava a pista de dois carrinhos, para que eu brincasse enquanto ele estudava ao estirador.  De vez enquando levantava-se, tirava um disco de vinil da estante branca, limpava-o com uma peça forrada de veludo azul e cuidadosamente punha a agulha sobre a primeira faixa.  Eu gostava de ter um irmão crescido. Misturava umas letras estranhas com números. Com ele aprendi que  essas letras podiam ser números dos quais não se sabia o valor, que havia números infinitos para além do lado esquerdo do zero, que os números podiam reais e imaginários. Sentada nos pés da cama dele, enquanto ouvia Pink Floyd, Genesis ou Marillion, imaginei muitas vezes como eu seria quando fosse crescida. Nesse tempo eu quis muitas coisas que afinal eram poucas. Às vezes ele perguntava em que tanto eu pensava. Acho que ainda hoje se pergunta. Acho que nunca lhe contei que eram apenas sonhos de olhos abertos. Talvez por isso, sempre que um deles se torna realidade, eu volte sempre a ouvir esta música.

 

 

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A vidinha na primeira lei de Newton

por Cristina Nobre Soares, em 16.03.15

Há uma inércia generalizada nas pessoas, que me assusta. Cada vez mais nos abstraímos de tudo aquilo que não nos seja processado, mastigado, seja isso educação, cultura, modo de vida. A vida acontece, simplesmente não queremos saber, não nos interessa. Se sai da nossa rota quotidiana não vale a pena. Dá imenso trabalho. Porque a vida para além de acontecer tem o problema que pedir que existamos. E isso cansa. O engraçado é que no fim lamentamo-nos. Porque não sabíamos, porque a comunicação falhou. Talvez. O problema é que para haver comunicação, essa moderna comunicação feita de imagem fácil, processada para não dar qualquer trabalho a assimilar, só acontece se quisermos comunicar. A primeira Lei de Newton explica isto. E eu podia-vos explica-la. Mas vocês teriam de querer saber. E isso dá muito trabalho.

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A vida, dois números abaixo.

por Cristina Nobre Soares, em 11.03.15

O corpo dela sufoca dentro do vestido demasiado apertado. Pára à porta  do supermercado, pousa os sacos enquanto atende uma chamada no telemóvel.  Aquela senhora tem o penteado da princesa do Frozen, diz-me a minha filha. Eu olho-lhe  a falta de pudor das raízes escuras sobre o cabelo crespo e penso que muitas vezes vestimos uma vida que nos fica dois números abaixo.

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Pensamento ocorrido numa mesa da Brasileira.

por Cristina Nobre Soares, em 10.03.15

Um dia regressarei a uma qualquer casa de azulejos azuis, aos cabelos brancos que ainda não tenho, aos olhos cansados sobre letra miudinha, às sombras da calçada, à esquina do rio e debruçar-me-ei sobre o ferro forjado da varanda. Lá em baixo correrá o tempo de hoje, eu lembrar-me-ei que a melhor história terá sido a que aconteceu agora.

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