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Das aulas de ballet e outras ortopedias

por Cristina Nobre Soares, em 30.01.15

Éramos umas vinte. Todas vestidas com maillots azuis  e collants brancos.  A ver se o ballet lhe corrige os tornozelos, dizia a minha mãe. E assim evita os sapatos ortopédicos, que nas meninas fica tão feio. A sala tinha um piano perto da janela. Nela sentava-se uma mulher nova, de cabelo ruivo muito encaracolado. Chamava-se Madalena. Engraçado, não me lembro do nome da minha professora, que se vestia sempre de preto e usava o cabelo impecavelmente apanhado na nuca. Fazia-lhe um gesto, um quase estalar de dedos, Madalena anuía com a cabeça e  o som das sapatilhas arrastava-se no soalho velho. A luz, filtrada pelos vidros amarelos das janelas,  fazia com que fosse sempre uma tarde de Verão. Mesmo quando, lá fora, se ouvia a chuva de Janeiro.  Ao terminar de tocar, Madalena deixava as mãos durante um instante suspensas sobre as teclas. E o tempo parava um bocadinho, até ser rasgado pela voz metálica da minha professora. Direita! Sempre, distraída. Eu afastava do rosto o cabelo, que, desalinhado, insistia em sair da rede e voltava ao port de bras. Madalena sorria-me. Ou se calhar era eu quem lhe sorria. A ver se o ballet lhe corrige os tornozelos. Talvez seja por isso, que hoje, sempre que estes me doem, o cabelo me caia de novo para o rosto, durante um instante. Aquele instante suspenso da Madalena.

 

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Porque é que escreves?

por Cristina Nobre Soares, em 29.01.15

Honestamente, não faço a mínima ideia.

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Carolina

por Cristina Nobre Soares, em 28.01.15

Usa palavras caras sem nunca me olhar de frente. Os olhos fogem-lhe . Tenho gente muito importante à minha espera, num sarau, diz-me.Talvez sarau seja a palavra que esconda a casa que já não tem e a gente importante sejam os filhos que a puseram na rua. Muito importante, reforça, ajeitando o cabelo que se solta de um travessão mal posto.  Eu digo-lhe que sim. Aceno com a cabeça  com  a condescendência de quem acha que pertencemos a realidades diferentes. Mas não. Pertencemos à mesma, onde estamos apenas separadas pela fina distância do acaso. E ambas acreditamos que haverá sempre alguém importante à nossa espera.

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Goodbye my love, goodbye.

por Cristina Nobre Soares, em 28.01.15

 Ia quase todas as sextas feiras à tarde para casa dela. Um quinto frente com vista para uma praceta, onde brincávamos como os outros miúdos aos polícias e ladrões e ao mata, nos dias em que fazia sol. Nos outros, ficávamos em casa dela a brincar com as Tuchas. A mãe dela usava por casa uns calções curtos, que talvez já lhe tivessem servido melhor. Lembro-me dela sentada num cadeirão da sala, a pintar as unhas dos pés de vermelho vivo. Pincel do verniz numa mão, cigarro na outra e o single do Demis Roussos num gira-discos portátil, em cima de uma colecção imensa de Holas compradas em Badajoz. Levantou a cabeça, olhou para nós e perguntou: Querem lanchar, não é? Esmagou a beata no cinzeiro e entalou um algodão no mindinho do pé. Deixem lá acabar a música, que eu já vos faço o pão com Tulicreme.

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Do paternalismo e outras coisas que fazem mal à saúde.

por Cristina Nobre Soares, em 26.01.15

Gostava de ser uma dessas pessoas paternalistas, assim só durante um dia. Vinte quatro horas, inteirinhas, de certezas,  juntamente com aquela deliciosa capacidade  de transformar a mais trivial das conversas numa suposta de lição de vida. Seria formidável.  Mas deve ser ingrato, ser-se paternalista. Deve. Viver no topo de uma espécie de sistemas de castas de inteligência. Um fardo. É coisa para cansar tremendamente. Porque, é verdade, os modos de vida dos outros cansam, principalmente se puserem o nosso em causa. Pior, enxovalham os vincos engomadinhos e  bacocos das certezas. E enquanto isso, peço outro café. Sim, eu sei que faz mal à saúde.

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A Europa* faz parte da mitologia grega

por Cristina Nobre Soares, em 25.01.15

Não, não é desta que me lanço nos comentários políticos. Não sei se a vitória do Syriza será uma esperança. Mas, faz-me sorrir.  Pela possibilidade da Europa se re(construir) mais uma vez a partir da Grécia, onde nasceu muito do que conhecemos como sociedade livre . E penso, que é desta que leio a Républica de Platão.

*Europa

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Não, isto da maternidade, nem sempre é um mar de rosas.

por Cristina Nobre Soares, em 23.01.15

A capacidade que nós, mulheres, temos de gerar vida no nosso próprio corpo é um milagre. Mas maior milagre do que esse é a nossa própria existência. E essa, não pode depender do género com que nascemos.  Ao pensar nisto lembrei-me de mim há mais de dez anos atrás, depois de ter sido mãe.  E esta história não é sobre epifanias, nem transbordares de alegria. É mais uma vez uma história de crescimento e de perda de medo de ser diferente.  Nela mora uma  mulher de trinta anos que se descobriu uma fêmea menos apta e que cujo útero, não só pariu uma cria maravilhosa, como também, as suas próprias imperfeições.  Uma mulher que, ao contrário do que ouvia das outras,  para quem a maternidade era um instinto básico, sem qualquer tipo de sombras, teve de construir esse mesmo instinto de fora  para dentro. Não foram dias fáceis. Lembro-me que durante meses, não havia manhã em que não me fechasse na casa de banho, a chorar, para me tentar esvaziar da culpa imensa de não conseguir abraçar essa imensa dádiva da maternidade. Lembro-me das  pessoas me dizerem, ao olharem para o meu emagrecimento a olhos vistos, “nem parece que tiveste um filho”. O que elas não sabiam é que o meu corpo mirrava, secava, nesse duro esvaziar de emoções.  Lembro-me que me angustiava conviver com outras mães, por não ter nada para dizer. Limitava-me a imitá-las numa mímica violenta e crudelíssima para comigo. Deixei de escrever por ter medo do que sentia. Deixei de ser eu, na esperança desesperada ser como as outras, a quem tudo parecia ser tão fácil. Descobri depois que não era bem assim. Que havia criaturas, mulheres, que tinham sentido dias tão cinzentos como os meus, bem fora da fronteira do "suposto". Mas essas mulheres  também não falavam, quanto muito algumas palavras ditas a meia voz, com medo dos julgamentos e certezas dos outros. Sempre o medo.  E foi isso que me levou a escrever este texto. O perder o medo de dizer  que eu não vivi nenhum idílio maternal.  Que a beleza do processo mora no crescimento que fiz junto da minha filha. Que aprendi a andar com ela. Aprendi a brincar. A dar colo.  A não ter vergonha de chorar quando caía. Que a maternidade é o mais maravilhoso juntar de letras,  principalmente para quem, como eu, era uma analfabeta maternal.  E era esta a história que vos queria contar. Agora, a minha filha está a chamar-me para irmos ver mais um episódio da Violetta. E ao enroscar-me com ela no sofá por debaixo da manta, ao sentir-lhe aquele cheiro de cria, ao rirmos-nos com gosto, vejo que fizemos as duas um bom trabalho. E penso: Sobrevivemos. Que é o mais humano dos confortos.

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Da possível mudança do tempo.

por Cristina Nobre Soares, em 22.01.15

Diz-me que não há nada que não passe. Nada. Que basta dar tempo. E eu, a dizer que sim, que é verdade. Que realmente não há coisa que, quando olhada por cima do ombro, não pareça menos má. Mas pior são as cicatrizes, digo-lhe eu. Principalmente aquelas que enfolam e depois doem quando muda o tempo. Ela suspira  e diz-me, acho que amanhã continua de chuva.

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Dois bilhetes para a Turandot

por Cristina Nobre Soares, em 20.01.15

Vê se te pões bom, que assim que eu tiver dinheiro levo-te a Milão. E vamos os dois ao Scala. Foram as últimas palavras que disse ao meu pai. Podiam ter sido quaisquer outras. Mas com estas, naquela promessa que ambos sabíamos que nunca seria cumprida, soubemos que mais  nada ficaria por dizer.

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Das coisas que me irritam solenemente:

por Cristina Nobre Soares, em 19.01.15

"Escreve aí um textinho. Qualquer coisinha."

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