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(Ilustração Ana Varela)

  

 

Numa casa de janelas curvas, ao fundo de um beco, morava uma mulher que usava sempre o mesmo gorro amarelo. Saía sempre ao fim da tarde, naquela hora chamada lusco-fusco, mesmo antes de se acenderem os candeeiros da rua. Saía em busca do que outros, por já não quererem, deixam nas soleiras das portas. É estranha, a mulher, diziam enquanto lhe tentavam adivinhar a cor do cabelo sempre escondido por debaixo do gorro amarelo. É bizarra, e ela a voltar  à  casa de janelas curvas onde a luz nunca se apagava. É estranha,  por não a verem sair  a outras horas que não a do lusco-fusco. A não ser que se ouvisse a harmónica do amola-tesouras. Então, ela murmurava, vem aí chuva,  enquanto pegava num velho abre-cartas de cabo de prata e lâmina de tartaruga. Ele, o amola-tesouras, um homem de barba rala, que era o único que lhe conhecia o nome que nunca ninguém soube, sorria-lhe assim que a via ao cimo da rua. Depois afiava-lhe a lâmina de carapaça de tartaruga até que esta ganhasse o  tom azulado do metal, já está, dizia-lhe, piscando-lhe o olho, vem aí chuva. Ela guardava-o por debaixo do avental e corria até casa. Diziam os vizinhos que a ouviam  cortar e recortar até ser de madrugada e que a luz na casa por vezes aumentava tanto que se deixavam de ver as estrelas por cima do telhado. Diziam também que nunca ninguém soube ao certo o que fazia. Mas também dizem, alguns, talvez os de maior imaginação ou aqueles que precisam sempre de um fim para as histórias, que ela fazia candeeiros que nunca se apagavam. Que os fazia a partir das coisas velhas dos outros, apenas com ajuda do seu velho abre-cartas. Impossível, que os abre-cartas só cortam papel, mas nas histórias mágicas ninguém liga as estes comentários. E diziam que apesar de aparentar mais ou menos vinte e oito anos e cinco meses,  por debaixo do gorro amarelo se escondia uma longa cabeleira prateada. E que todas as noites, depois de a escovar com um pente de tartaruga, se acendia sempre mais um candeeiro na casa das janelas curvas.

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Temos um problema com os elogios

por Cristina Nobre Soares, em 05.12.14

Temos um problema com os elogios.  Há quem lhe chame pudor, quem os merece não precisa, pois tem obrigação de saber o exacto valor que tem. E toda a gente sabe que as pessoas de valor são assim. Os elogios são, para certas pessoas, uma espécie de vitaminas:  Duas, três vezes ao dia para evitar o raquitismo da auto-estima.  Caso o mérito  deite um corpinho que se veja,  já não vale a pena, não  vá a pessoa crescer demais. O elogio é para ser usado com cerimónia, tipo a toalha de richelieu da avó, que como se tira apenas uma vez por ano da gaveta, tem de ser pôr a arejar para lhe tirar o cheiro a mofo.  O português só abre a boca se tiver de apontar algum defeito. Se ficou calado, é sinal que gostou.  Obviamente. Afinal o mérito é uma coisa feita de consoantes mudas.  Não percebo, não percebo mesmo, esta questão portuguesa com o acto de elogiar. Mas isso é porque devo ser estrangeira.

(nota: não se confunda elogio com sabujice avulsa)

 

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Não escrevo contos infantis.

por Cristina Nobre Soares, em 05.12.14

Dizia eu. Mas a infância, a nossa, nunca se normalizará em livros encadernados. E os chamados contos infantis, no fundo são contos para toda a gente, até para as crianças. Foi bom regressar ao meu quarto de infância, aos meus olhos com nove anos de altura. E confessem, isto de querer acreditar na magia, não passa com a idade.

( os outros cinco contos serão desvendados ao longo de Dezembro, aqui )

 

 

"Há em Óbidos, uma casa mágica por detrás do portão vermelho.  Uma casa que se desenha em círculos nos dias que antecedem o Solstício de Inverno. Dizem que tudo começa com a chegada da neblina prateada da Lagoa, que anima os habitantes dessa casa com  uma misteriosa vontade de fazer. Dizem que são criaturas de mãos com vida própria, que trabalham em horas que se escondem nos relógios. Dizem, também, que por detrás desse portão vermelho há uma velha adega, que a cada sete dias do advento se transforma numa livraria onde mora um velho. Um velho que por não saber distinguir as letras nem as cores decidiu que seria sempre Natal. Dizem. Que a magia não se escreve, por não pertencer ao mundo das certezas. Há, em Óbidos, uma casa mágica por detrás do portão vermelho. Empurrem-no de palma de mão bem aberta, que os olhos podem estar fechados. Depois, contem quarenta e sete passos, dos pequenos,que este caminho foi medido pelos que nunca crescem. Agora, abram os olhos. Sentado ao balcão, está o velho livreiro. Sim,  esse mesmo, usando sempre o chapéu de aviador herdado de um trisavô norueguês, seguindo com o dedo indicador, as letras que nunca aprendeu a juntar. Peçam-lhe que conte uma das cinco histórias que ele sabe de cor. Que ele decorou apenas cinco, apesar de saber muitas mais. Peçam-lhe. Ele, sorrirá, abrirá o livro que não sabe ler, soprar-lhe-á a poeira das páginas e dirá:  Há, em Óbidos, uma casa mágica por detrás do portão vermelho, onde habita um saber fazer que tudo transforma. Há quem chame a isto Magia, que todos sabem que não existe. Talvez. Mas oiçam primeiro estas cinco histórias. Oiçam. Que depois de ouvir descobrirão que  a Magia é apenas uma palavra cujas letras ninguém sabe bem como juntar."










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Snu

por Cristina Nobre Soares, em 04.12.14

No meio do pesar das noticias que davam na televisão, passou a imagem de uma senhora loura, de cabelo apanhado. O meu pai lamentava uma perda para  o país, a minha mãe insistia que a minha irmã, no dia seguinte, levasse uma roupa escura, para dar aulas e eu, ao ver a imagem da senhora loura, pensei que por ser tão diferente, poderia ser uma princesa. O meu pai disse, a Snu também ia no avião. A minha mãe, sem levantar os olhos do tricot, fez um trejeito de boca: Acho que ele nunca conseguiu o divórcio. Morreu com apenas 40 anos. Fundou uma editora, lutou contra a censura. Aos seis anos eu tinha razão ao pensar que me parecia uma princesa.

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Ser-se fofinho está na moda

por Cristina Nobre Soares, em 04.12.14

Ser-se fofinho está na moda. É moderno  falarmos das nossas emoções, sem medos,  recorrendo a frases pró-activas, escritas por pessoas que nunca lemos. O que não é assim tão moderno é sermos melancólicos. É uma maçada ter de escutar as tristezas alheias, que até podem nem ser bem tristezas, mas é sempre aborrecido decifrar metáforas construídas com palavras esdrúxulas. É de um aborrecimento de morte. Já o sarcasmo, desde que dito de uma forma fofinha, não. Transforma o azedume em frases de olhos revirados, coisa que fica sempre bem em grupos com mais de duas pessoas.  Mas o pior de tudo é a aquela mania insuportável que os melancólicos têm:  serem poetas. É uma coisa que por algum motivo obscuro, escapa ao entendimento das pessoas modernas, mas que assiste à grande maioria dos melancólicos. E eles lá ficam sentados no seu canto, vestidos com as suas palavras datadas, os seus verbos conjugados em tempos que já ninguém habita e a tresandarem ao cinzento dos dias de chuva miudinha. São uns chatos, os melancólicos. Raios os partam mais à sua mania de verem as coisas com mais sílabas do que elas aparentam ter.

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Tenho saudades do tempo em que se escreviam cartas

por Cristina Nobre Soares, em 04.12.14

Tenho saudades do tempo em que se escreviam cartas. Com as folhas daqueles blocos de papel pautado, irritantemente finas, preenchidas com caligrafia mais ou menos corrida consoante a urgência na escrita. Dos selos e pontas de envelope lambidos. Das hesitações ou distracções em forma de rasura. Das manchas de lágrimas ou gordura. Da espera do correio. Das gavetas de mesa de cabeceira cheias de folhas e envelopes. É verdade, tenho saudades disto. Mas, enfim, deve ser apenas mais um sinal de que estou a ir para velha.

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Nos outros

por Cristina Nobre Soares, em 03.12.14

O que mais me fascina nos outros é que eu podia ser um deles. O que me fascina no caminho dos outros, é que muito provavelmente o que me separa deles será apenas um ponto, um único par de coordenadas, um momento, uma escolha, uma palavra a mais numa única frase. O que me mais me fascina nos outros é sermos nós, tão iguais em átomos de carbono e lágrimas, que um poeta disse serem apenas água e cloreto de sódio. O que mais me fascina nos outros é só precisarmos de um único instante para sermos toda uma vida que não é a nossa.

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Então, foste chamar mimadas às pessoas?

por Cristina Nobre Soares, em 03.12.14

Então, foste chamar mimadas às pessoas? Perguntaram-me. Sim, chamei-nos mimados. A nós, à geração que já nasceu em democracia. Sim, éramos uns meninos mimados num país que teimava em não querer sair da adolescência. Uns meninos mimados que levavam nas mãos todas as expectativas de um país cansado de ser pobre e cinzento. No fim dos anos oitenta, principio dos anos noventa, o mundo mudava à distância do ecrã da televisão, que na altura ainda só tinha dois canais: caía o Muro de Berlim, o leste abria a Cortina de Ferro, Mandela era libertado, e nós assistíamos a esse mudar de pele do Mundo, pensando se a palavra Glasnost sairia, ou não, na prova geral de acesso. Essa temida prova de cultura geral que se podia pôr entre nós e o futuro. O futuro. O futuro ia ser fácil. Um dado tão adquirido como a democracia, a liberdade de expressão que tínhamos, sem saber quanto medos, em forma de silêncio forçado, teriam custado aos nossos pais e nossos avós. Ia ser tudo tão fácil, nesses anos feitos de promessas embaladas em pacotes normalizados. O país perdia o baço do pano de retrosaria, crescia, brilhava. Tudo tinha brilho. Tudo se vendia nos escaparates das recém- chegadas grandes superfícies. Até esse dito futuro. Ia ser tudo tão fácil. Não foi. Na viragem do milénio maquilharam-se os sintomas da agonia anunciada. Agonia que nos trouxe até aqui. Vi muitos amigos meus a partirem. Continuam a partir de olhos postos no chão, para fora de um país, que depois da euforia lhes voltou as costas. Um país que nos falhava. Falhávamos-nos. Porque o país está em cada um de nós, na nossa insignificância que nos leva a pensar ser impossível podermos mudar o quer que seja. A mudança começa com apenas um levantar de cabeça, de alguém que diz não. De alguém que acha que ainda vale pena. Apenas um. Porque antes de sermos tantos, muitos, somos apenas um. Sim, chamei-nos mimados. Mas crescemos à força. Aproveitemos essa maturidade, olhemos-nos como a geração cujas dores de crescimento poderão fazer a mudança que tarda. E que nos acreditemos de novo.

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É tramado. Mesmo tramado. Porque ao fim de uns tempos volta sempre aquela necessidade de falar para quem não vemos ou mesmo não conhecemos. Não sei que sinapse ditará isto. Mas o que é certo é que ela voltou, desta vez sem receitas, açúcar e fotografias a peso. Trespassou-se a confeitaria, mudou-se o poema ( que o poeta é o mesmo), mas as palavras, essas continuam iguais. Só mudaram de sítio. Sejam bem vindos.

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Poema em linha recta (Álvaro de Campos)

por Cristina Nobre Soares, em 02.12.14

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...

 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

 

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

 

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

 

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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