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Meu amigo Charlie Brown

por Cristina Nobre Soares, em 29.12.14

Eu teria uns dezasseis anos e ele pouco mais.  Eu, sentada numa mesa, num réveillon  de um qualquer hotel, daqueles com cocktail de camarão e espumante meio seco. Sentada, com a cabeça enterrada nas mãos  e no enfado, enquanto homens de colarinho aberto e mulheres de maquilhagem transpirada, dançavam em comboio a “ cachaça não é água”.  Ele debruçou-se.  Tinha olhos verdes . Perguntou-me se eu queria dançar. Disse que sim. O comboio passou e levou-nos. Lembro-me de achar que  ele cheirava bem  e que a noite afinal não estava a correr mal. A música mudou e o comboio desfez-se. Não sei dançar a pares, disse-lhe . Ele ignorou-me e tentou  girar-me numa pirueta, que correu mal. Não sei dançar assim. Ele semicerrou os olhos , desceu os tons graves da voz e o braço nas minhas costas. É simples, troces o braço, assim. Como? Assim, troces.  E ele, encolheu em altura uns vinte centímetros  e o verde dos olhos amarelou-se. Torces, disse-lhe ao ouvido.  Hum? É torces que se diz. Ele deu dois passos atrás com algum horror no olhar.  Logo que vi que eras uma dessas. O dedo a apontar com desprezo. Dessas, betinhas.

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E hoje, em Óbidos, foi uma lenda que se contou

por Cristina Nobre Soares, em 27.12.14

(Esta lenda foi-me "encomendada" para o evento da Magia da Transformação, que decorreu durante a passada Vila Natal, no espaço Ó, em Óbidos. Não é uma lenda verdadeira. Daquelas repetidas através de gerações. Mas a tradição começa quando quisermos)

 

 

A lenda da moura sem voz 

Dizem que quando os cristãos tomaram o Castelo, os infiéis, os que não tinham sido presos ou sucumbido sob a força da espada, fugiram rumo ao Sul. Todos, menos uma: a sétima filha do alcaide mouro. Uma donzela de olhos cor de chuva, cor inverosímil  para uma descendente do deserto, que nascera desprovida de voz e palavras. Uma maldição, lamentara a mãe, uma maldição por ser a sétima. E talvez por isso lhe tenham  dado um alaúde, quando ainda as suas pernas eram trôpegas no andar. Para que assim, pudesse falar com o mundo. Dizem que nunca quisera  noivo ou outro amor, que não o que encontrava na música que lhe pingava dos olhos cor de chuva.  Dizem, que durante a tomada do castelo, foram feitas prisoneiras as suas seis irmãs e que ela por alguma razão sem lógica ou motivo  (talvez magia), conseguiu fugir.  E que ela, em vez de rumar ao Sul como todos os outros, terá numa certa encruzilhada, regressado até à casa de um mago que vivia nas margens da Lagoa. Este leu-lhe o pedido de auxilio nos olhos cor de chuva  e entregou-lhe sete capas de burel bordado, dizendo, estas, à luz da lua serão invisíveis aos olhos dos outros. Assim que a noite desça no poente toca o teu alúde,  que a poeira mágica da  tua música adormecerá os soldados. Ela assim o fez. Sentada na proa de um pequeno barco sem velas nem remos, dedilhou as cordas mal o último resto de sol se diluiu no horizonte. Os olhos dos cristãos cerraram-se num sono profundo e as portas abriram-se à passagem das irmãs. Ao embarcarem, estas vestiram as suas capas de burel bordadas e confundiram-se com o luar. Mas ao zarpar, as águas ondularam-se por um sopro do vento de Norte e o alaúde caiú na lagoa. Um grito, um ai, rasgou-se-lhe nas entranhas, o primeiro som que alguma vez lhe ouviram, e a capa resvalou-lhe para os ombros, deixando a descoberto o rosto e os cabelos negros.  Dizem que se acenderam os archotes nas ameias, que tocou o sino de alerta.  E  que ela, para  que as suas irmãs não fossem descobertas,  suspirando, se deixou mergulhar nas águas da lagoa, no mesmo sitio onde se afundara o alaúde. Dizem, daquele dizer que se jura a pés juntos, que no primeiro luar de Janeiro, se ouve de novo a música nas margens onde sopra o vento norte. E que  quem olhar, mas com os olhos de quem acredita antes de ver, verá reflectido na tranquilidade das águas, o bordado da sua capa de burel.

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Ainda pensei em escrever sobre alguma coisa que interessasse.

por Cristina Nobre Soares, em 23.12.14

Ainda pensei em escrever sobre alguma coisa que interessasse.  Um ponto de vista diferente, formidável.  Pensei.  Mas cheiram-me as mãos a canela e laranja.  Pega-se-me a pontuação na ponta dos dedos. E as opiniões, na borda do avental.  Paciência. O mundo  e as palavras que esperem enquanto sacudo o açúcar dos cantos da boca.

 

 (vou ali e já volto. Enquanto isso, tenham umas Boas Festas)

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O Natal será sempre um presépio numa lareira falsa

por Cristina Nobre Soares, em 21.12.14

Para mim, o Natal será sempre um presépio numa lareira falsa. Onde o musgo era feito de retalhos de carpete verde, as manjedouras de cartão recortado e a estrela iluminada por uma lâmpada de vinte watts. Para mim, o Natal será sempre os solavancos e o  guarda-freio no regresso da Baixa, onde a minha mãe comprava os presentes. É a rua do Arsenal iluminada por cima das nossas cabeças e os meus dedos a desenharem na humidade do vidro. É o disco com musicas de Natal cantadas po rum coro de crianças austríacas, que o meu pai punha, depois de terminado o presépio. Eu sabia de cor a ordem delas. Inclusive que  no Adeste Fidelis, a agulha do gira-discos, saltava duas vezes. Para mim, o Natal é isto. Uma memória que se repete todos os anos, construída, não por aquilo que terá acontecido, mas por aquilo que só os nossos olhos viram. É um pequeno hiato temporal a que nos permitimos uma vez por ano e voltamos lá, um lá sem sitio, porque o transportamos connosco. Repetimos gestos, hábitos , palavras, sem perguntarmos o porquê de o fazermos. Só para nos possamos repetir. Que nos repitamos, então. A agulha do gira discos saltou pela segunda vez e eu sento-me com as minhas pernas de nove anos cruzadas à chinês, a imaginar aquilo que acabei por nunca ser, de olhos posto no presépio. Que nos repitamos. Que é como quem vos diz: Tenham um bom Natal.

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Vidro azul

por Cristina Nobre Soares, em 18.12.14

Os enfeites de lá eram guardados numa caixa diferente. Talvez por serem de vidro, tão frágeis quanto as recordações contadas por meias palavras. Quando, ao abrir a caixa, se descobriam os fragmentos de algum que tivesse partido, o meu pai dizia com um encolher de ombros resignado: Mais um. E o tempo contava-se pelo número de cacos de vidro colorido. Quando se partiu o último, que era azul, teriam passado quinze anos do retorno e o meu pai disse: Foi-se o último. Intriga-me que me lembre de todos infímos detalhes da tinta branca sobre o vidro azul. E dos dedos dele, longos, brancos, a pendurarem memórias nas braçadas do  pinheiro. Que  era comprado a um cigano, que os vendia à entrada da estação de comboio de Algés. É curioso como as memórias se alinhavam por entre pequenas insignificâncias.

 

( Dezembro de 2013)

 

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Bisca lambida

por Cristina Nobre Soares, em 17.12.14

Tenho mau perder. Não gosto de perder nem a feijões.  Seja ele dominó ou bisca lambida.  Não gosto, pronto. Mas passa-me depressa. Tenho esta coisa de não me demorar muito nas coisas, o que dá particularmente jeito  no que diz respeito àquilo que não interessa um caracol. Como a bisca lambida. E se calhar deve ser por isso que me intriga a fúria com que as pessoas defendem  pontos de vista em  temas tão fracturantes como o preço a que está o bacalhau crescido. E a forma como levam a peito o facto de haver quem só coma bacalhau graúdo ou mesmo quem simplesmente não goste de bacalhau e opte pelo atum de barrica (sim, isto do bacalhau é apenas uma metáfora). E as redes sociais são uma maçada no que diz respeito a este assunto.  Porque os maus perdedores ficam à janela, daquelas com estendal e tudo, a fazer comentários indignados em voz alta.  Aos transeuntes restam duas hipóteses: ou ignoram ( o que é fácil porque a maior parte destes comentários são encriptados em citações famosas descontextualizadas) ou clicam displicentemente no like, que é uma forma moderna do “Muito bem. Tem toda a razão”. E realmente, esta dinâmica intriga-me.  Mesmo. Assim como sempre me intrigou porque é que chamavam lambida à bisca. Mas isso sou eu, que sou pouco moderna.

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Para a tua mãe pode ser este. Tem uma capa bonita. Sabes  bem que ela não lê.

 

 

 

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Não tenho terra

por Cristina Nobre Soares, em 14.12.14

Sempre invejei as pessoas que afirmam pertencer a um determinado sitio. Aonde regressam sempre, sem questionar. Um regresso que começa sempre no momento em que partem.  Que dizem: sou daqui, eu sou um deles. Invejo-os oorque não tenho terra. Nasci num mundo que perdeu a geografia. O resto ficou nas memórias e álbuns de fotografias dos outros. Cresci numa cidade, onde tantos chegam e à qual poucos pertencem. Não ter terra é para mim algo tão adquirido como as minhas sardas ou a minha baixa estatura. Mas talvez por isso a natureza me tenha dotado de um mimetismo, de uma transparência que me permite adaptar aos sítios antes que os outros deem por mim. Empresto-me. Apenas o tempo suficiente para que os espaços, estes feitos de uma imensidão de detalhes me fiquem escritos por detrás dos olhos. Para que eu depois os possa perpetuar no único chão que alguma vez considerei meu. Este. Que começa sempre com uma página em branco.

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Contos de Natal ( #1)

por Cristina Nobre Soares, em 14.12.14

Comprou meia dúzia de coscorões e uma garrafa de vinho do porto. Do bom.  Pôs a mesa a preceito e batom nos lábios carcomidos. Mudou-lhe a fralda, fez-lhe a barba e enquanto lhe passava a  água de colónia pelo rosto, fixou-lhe os olhos mortiços e disse-lhe, hoje faz de conta que te lembras de mim.

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Dos versos e outras rendas

por Cristina Nobre Soares, em 13.12.14

 

(Ilustração: Ana Varela ) 

Tinha apenas quinze anos quando se apaixonou pelo caixeiro viajante que lhe trazia os cadernos e as canetas com que escrevia os poemas que lhe inundavam a voz. Poemas, que ela escondia no fundo da cesta onde guardava as linhas e as rendas do bilros. Escondia-os para que o pai, um homem para quem as  palavras eram tão inúteis como outras rendas, não os descobrisse. Nenhum homem de cinco alqueires de juízo pega numa mulher que só saiba de versos, dizia-lhe ele.  Mas ela não o ouvia e a cada mudança de estação, corria à entrada da vila para  ver chegar o seu amado. Nenhum homem quer uma mulher que só saiba de versos, e ela a dizer palavras rendilhadas ao ouvido do caixeiro viajante em troca de promessas de amor verdadeiro. Nenhum homem quer uma mulher que só saiba de versos e o pai a proibi-la de sair, a queimar-lhe os cadernos e a tirar-lhe as canetas. Ficas só com as linhas e as rendas até que algum homem decente te queira e ela a dizer adeus da janela ao caixeiro viajante. Volto para te buscar quando chegar o Inverno, o rapaz a prometer-lhe, antes de partir e as rendas de linha branca a começarem-se no quarto. Ela a murmurar os versos de cor, as estações a sucederem-se, a renda a crescer em, tempo e palavras, volto no próximo inverno, a voz dele que lhe ficara morna no ouvido.Mas o próximo era sempre no ano seguinte. Nenhum homem pega numa mulher que só saiba de versos e os anos e enredarem-se no engenho dos bilros, o tempo a tirar-lhe o viço do rosto, os poemas a pingarem-lhe dos lábios, a renda tão imensa, que já não cabia no quarto, na casa, na vida. Ninguém sabe ao certo quantos invernos passaram, ninguém sabe ao certo quantos poemas couberam em centenas de metros de  renda , mas dizem, apesar de todos saberem que é uma lenda, que era tanta, que cobria todas as ameias do castelo da vila. Dizem, também, que a linha branca se tornará de prata e ouro, iluminando as muralhas, no primeiro dia de Inverno em que caixeiro viajante voltar para a buscar. Mas todos sabem que isto é impossível. Todos sabem que não há magia nos versos. Só naqueles que são de amor verdadeiro.    

Mais um conto para a Magia da Transformação - Óbidos Vila Natal









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