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Os artistas e os espectadores

por Cristina Nobre Soares, em 28.06.17

A protagonista deste livro, Clarissa, passa a vida a sonhar com o autor do seu livro de poesia preferido. Até que sabe que ele vem até à cidade. Fica eufórica e farta-se de imaginar como ele será. Será decerto bonito e dirá sempre as palavras certas, tal como as escreve. Conhece-o e a desilusão é total, não é um herói garboso, é feio e bronco. Mas a poesia dele continua a ser bela e a emocioná-la. Não temos de gostar dos autores, dos artistas, como pessoas. Não os vamos convidar para jantar, nem ajudá-los a arredar a mobília. O que temos de gostar, ou não gostar, é do que eles fazem, do que eles nos dão como artistas e isso sim é o que nos pode mudar, fazer-nos a diferença na vida. É esse o papel do espectador ou leitor. O resto, o julgamento moral (por norma superficial e beato), fica para com quem convive com eles e realmente os conhece. Como dizia o meu pai, o resto, esse resto, é só conversa.

 

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Opiniões vincadas

por Cristina Nobre Soares, em 22.06.17

Quando um homem tem opiniões vincadas sobre um dado assunto, pode bater o pé, pode dar murros na mesa, levantar a voz, que os outros, mesmo os que não concordam, acham que ele é um gajo formidável que sabe o que diz. Exaltou-se, mas era porque tinha a sua razão.
Mas quando uma mulher tem opiniões vincadas, principalmente se forem sobre um assunto que saia do feudo autorizado da maternidade, família, jogos florais ou doçaria, é uma arrogante. Se se exalta é uma histérica com falta de muita coisa, entre as quais, homem.
Sobre isto tenho a dizer: bardamerda. (É o único jogo floral que me ocorre)

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Dez anos

por Cristina Nobre Soares, em 22.06.17

Passaram dez anos desde a última vez em que te disse, parabéns senhor Soares, diz que hoje está mais novo. Passaram dez anos desde que te riste e disseste, anda lá, anda. Chamava-te senhor Soares quando brincava. Era bom sinal. Ainda não sabíamos o que nos traria o próximo Inverno. Por isso, nesse dia, fizemos as mesmas coisas, repetimos os mesmo gestos, não sabendo que a repetição é um privilégio dos que se acham imortais. Hoje, a mãe ao telefone perguntou-me se eu sabia que dia era. Respondi-lhe que sim, claro que sei. Claro que sei. Diz que hoje faria anos, senhor Soares.

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Rua da Junqueira

por Cristina Nobre Soares, em 21.06.17

Hoje, na Junqueira, corria uma brisa quase fresca. Ou talvez me parecesse fresca por causa do acinzentado do rio que se arrastava pelas sombras das transversais vazias. Fez-me lembrar o tempo em que eu saía uma paragem antes de Santo Amaro. Fazia-o para demorar mais a chegar a um sítio de onde sempre me apeteceu mais partir e para sentir no rosto aquele cinza azulado que ali arrefece as manhãs de Junho.

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O Gaio

por Cristina Nobre Soares, em 20.06.17

 

Em cima do muro está um gaio. Acho que é o mesmo que costumo ver por aqui. É um pássaro lindíssimo. Quando aqui cheguei, à província, não sabia distinguir os pássaros. Eram apenas pássaros e pronto. Uns maiores, outros pequenos, uns a cantarem melhor do que os outros. Agora não, já conheço muitos e só de relance. Sei-lhes o nome. Perguntarão, mas o que é que isso interessa? Provavelmente nada. Mas quando chamamos as coisas ou as pessoas pelo nome, elas passam a ser mais nossas. E nós um bocadinho delas. E nome a nome vamos ladrilhando um chão. Ficamos os dois imóveis. Eu a olhá-lo e ele a medir a minha distância, até que levanta voo. Amanhã volta.

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Venho à varanda

por Cristina Nobre Soares, em 17.06.17

Venho à varanda. Lá em baixo, um dos meus vizinhos espera dentro do carro. Tem a porta aberta e por ela saem uma perna encalorada e a música do rádio. É uma do António Variações interpretada pelo Camané. Deixo-me ficar, debruçada, e reparo num milhafre que plana no terreno em frente. Tal como ele tudo parece planar no bafo quente. A mulher e a filha do meu vizinho saem de casa, a miúda em algazarra, entram no carro, ele recolhe a perna, fecha a porta, arrancam e o milhafre desce a pique para apanhar a presa. No calor da rua faltam os dois últimos versos da música e descubro que os sei de cor.

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Fica-lhe mesmo muito bem

por Cristina Nobre Soares, em 15.06.17

À minha frente, na caixa do supermercado, estão duas mulheres. Uma delas comenta, muito efusiva: cortaste o cabelo! Grande carecada! A outra responde, meio envergonhada, sim, fartei-me. E deixei de pintar. A outra passa-lhe um olhar um bocadinho reprovador pelo cabelo. Ah, pois, agora notam-se os brancos todos. Eu há aqui uns tempos disse ao meu marido que ia deixar de pintar. E ele disse logo, nem penses nisso! Era o que me faltava ter agora uma velha em casa, cheia de cabelos brancos. Depois, ainda por cima, dá-lhes para cortar o cabelo curtinho. Nem penses nisso. Não quero velhas cá em casa. A outra cala-se e vai dizendo que sim com a cabeça. Despedem-se e a empregada inclina-se e diz-lhe: fica-lhe muito bem. A mulher diz, pouco convencida, eu também acho. Não ache, diz a empregada, tenha mesmo a certeza, é que lhe fica mesmo muito bem. A mulher agradece, paga e afasta-se mais sorridente. A empregada olha para mim, pisca-me o olho e diz, temos de ser umas para as outras. Menos cabras. Não acha?

 
 
 
 
 
 
 

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Quando somos mais novos somos mais bonitos?

por Cristina Nobre Soares, em 14.06.17

Havia uma farmácia na rua 25 de Abril, como quem ia para o Bairro Novo, entre o quartel e o Muzangala. Raramente ia a essa farmácia, só quando era a farmácia de serviço ou calhando em caminho para os correios. A dada altura fizeram uma grande remodelação na farmácia, uns grandes armários com gavetas deslizantes, vitrinas cheias de cosméticos, muito bem decoradas e os funcionários passaram todos a andar com um cartão na lapela, que tinha o nome, a fotografia e a função que ocupavam. Uma das funcionárias deveria na altura andar pelos seus quarenta e muitos, quase cinquenta. Era uma mulher bonita. Mas a fotografia que trazia na lapela parecia ser de outra pessoa. Devia ter menos uns vinte anos na foto.Sorria com o cabelo muito armado, os olhos pintados de azul metálico, por detrás de uns óculos estilo Paco Bandeira e um blush que se deveria ver a quilómetros de distância e tornava o rosto bolachudo e rubicundo. A foto ainda deixava ver um bocadinho de pescoço totalmente coberto por uma gola de folhos e laçada. Perguntei-me várias vezes porque raio teria ela escolhido aquela fotografia. Porque não punha antes uma fotografia actual? Sem sombra de dúvida que era muito mais bonita agora. Seria por não ter outra? Ou por ter aquela ideia feita de que quando somos mais novos somos sempre mais bonitos? Seremos mesmo? Imaginei várias vezes que lhe dizia que a achava muito mais bonita como ela era agora. Ela sorriria e recomendar-me-ia um creme milagroso e barato que me tirasse as sardas. Nenhuma das coisas aconteceu. Felizmente. Hoje gosto muito das minhas sardas. E também gosto muito mais das minhas fotografias de agora. Jamais usaria uma fotografia minha de há vinte anos na lapela. Credo.

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Abre lá para o meio dia

por Cristina Nobre Soares, em 14.06.17

Dizem que hoje vai estar um dia de sol e quente. Olho pela janela, o céu está encoberto e cinzento. Quem não estiver habituado deve pensar que em vez de fazer sol ainda chove. Mas não, aqui toda a gente sabe que deve abrir lá para o meio dia. Às vezes não abre, mas de manhã acredita-se que sim. Este acto de fé com a meteorologia é um traço necessário para quem vive no Oeste.

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A silly season

por Cristina Nobre Soares, em 13.06.17

Tenho para mim que o Verão em Portugal não começa a 21 de Junho. Começa antes, na semana dos feriados, do 10 de Junho e dos santos populares. É a primeira semana de silêncio, daquele silêncio morno dos dias maiores, que faz com que os sons sejam todos mais nítidos, até mesmo aqueles que só se ouvem lá ao longe. Nesta altura o pessoal zarpa todo rumo a qualquer sítio, no Facebook as pessoas indignam-se menos e o número de fotografias partilhadas dispara vertiginosamente. Também, convenhamos, não há mais nada de jeito para partilhar, já que nos jornais as notícias sérias são substituídas por aquela categoria do lifestyle que tanto dá para a uma receita de salada de pepino e gengibre, como para saber que há descontos no museu dos coches. A partir desta altura as pessoas passam apenas a estar. Na praia, no estrangeiro, no pátio da sogra, à beira da piscina, na esplanada, num dos 3765 festivais de Verão. Apenas estão. O ser e o fazer são verbos invernosos, das noites mais longas e da queda da folha, e se usados nesta altura fazem-nos calor ao corpo.
Chamam a esta altura a "silly season". Não percebo bem porquê. O descanso nunca me pareceu nada parvo. Mesmo nada..

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