Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

É coisa para arder facilmente

por Cristina Nobre Soares, em 16.10.17

Quando é que foi a última vez em que repararam naquele eucaliptal a caminho da terra dos vosso pais? Sim, aquele aonde não levam os miúdos por estar cheio de mato, que eles ainda se aleijam e sujam todos. Quando é que foi a última vez que apanharam pinhas em vez de as comprarem no supermercado? Quando é foi a última vez que sentaram à sombra de um carvalho? A floresta faz muita decoração, é verdade, o verde enche muito olho, é ele e o azul do mar. Diz até que faz bem ao ar que a gente respira. Mas precisa que se torne parte da nossa vida para que possa existir. Sem isso é coisa para arder facilmente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os Domingos de limpeza

por Cristina Nobre Soares, em 15.10.17

Aproveitei o Domingo para fazer limpezas e arrumações. Para algumas pessoas, aquelas muito organizadas e metódicas, isto fará parte da normalidade do seu quotidiano. Para outras, como eu, são acontecimentos que exigem grande auto-determinação e sacrifício. Uma espécie de penitência pela minha preguiça e desmazelo, esperando que o asseio me redima. Cumpro-a, mas resmungando, soltando ironias, não vá eu esquecer-me que sou uma cínica contestatária e tornar-me, sem aviso, numa dócil fada do lar. Se isso acontecesse perderia a rala credibilidade que me resta e ainda me expatriavam para um desses mundos feitos de segredos de como tirar nódoas de pêssego ou de ideias para aproveitar os restos do cozido de quarta-feira. Não, eu limpo e arrumo, mas com um desprezo que se tenta armar em intelectualmente superior. Que, verdade seja dita, não passa dos aforismos fraquinhos, como “os Domingos de limpeza tornam melhores aqueles que nunca arrumam os pensamentos.” O que é certo é que depois de passar um Domingo a limpar sinto-me mais lavadinha, mas aprumada, sem enxovalho. Mas isto também pode ser dos detergentes amoniacais, que me deixam um pouco azamboada da cabeça. Hei-de experimentar uns mais modernos que passam na televisão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da psicologia das árvores II - As florestas de produção

por Cristina Nobre Soares, em 13.10.17

Entristecem-me as florestas de produção. Nelas as árvores são alinhadas em compassos, linhas rectas equidistantes e obrigadas a crescer num espaço exíguo. Por terem menos espaço têm de competir pela luz e tornam-se árvores mais egoístas, mais estreitas, de copas menos generosas. Demasiado iguais entre si. Lutam pela luz, sem a qual não sobrevivem. E tudo o que entra em modo de sobrevivência perde a poesia, definha num propósito comum que acaba por acaba por ser esquecido. A identidade precisa de espaço para crescer, para deitar olhos em redor. Nada se aprende e em nada nos tornamos quando lutamos por uma esguelha de luz.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Consideração bucólica

por Cristina Nobre Soares, em 10.10.17

Sei que este tipo de considerações bucólicas já não se usam desde o séc. XIX, mas, para quem vive no campo, há poucas coisas mais bonitas que uma manhã de nevoeiro. E ainda não chegaram os dias frios.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da psicologia das árvores

por Cristina Nobre Soares, em 09.10.17

No outro dia, explicava a alguém a diferença entre uma árvore caducifólia (que perde as folhas no Outono) e uma perene (as outras). Pensava a pessoa que as perenes nunca perdiam as folhas. Disse-lhe que não, que vão perdendo e renovando ao longo do ano. Vão-se livrando das folhas que não interessam, sem que demos por isso. Parece que estão sempre iguais, mas é uma ilusão. Talvez por isso nos pareçam mais fortes, porque nunca mudam e podemos contar sempre com sua copa para nos proteger, mesmo da chuva. As outras, as caducifólias, mudam todos os anos. Fazem-no de uma forma monumental, com uma beleza de causar inveja. Uns acham-nas vulneráveis, frágeis. Outros, admiram-lhes coragem de ficarem despidas aos nossos olhos durante meses, enquanto esperam novas folhas e nova vida, e por isso acham-nas as mais fortes. Enfim, a botânica devia ser uma disciplina da psicologia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sem que ninguém desse por isso

por Cristina Nobre Soares, em 08.10.17

Às vezes, ao Domingo, havia coelho com arroz para o almoço. Uma das minha tias tirava um coelho da capoeira e as minhas primas mais velhas, já adultas, chamavam-me. Anda ver. Eu dizia que não. Atão,tens medo? Não, mas não gosto de ver. E o riso delas, escarninho, a cheirar-me o medo do corpo, sempre mais enfezado que o das outras crianças da aldeia, é do ar da cidade, diziam. Vá, anda ver, que mal não te faz. A mão da minha tia, certeira, a partir o pescoço ao bicho, eu a morder a língua até fazer sangue para que as lágrimas não me saltassem, ela a pendurar o bicho no prego na parede, a pele a sair de um golpe só, uma das minha primas encostada ao muro com um pé de fora do chinelo, a comer um pêssego com uma faca e a rir-se para mim, atão, estás a chorar? Não choras quando o comes, pois não? O coelho já esfolado, ainda quente, no alguidar de esmalte branco com a tinta comida nas bordas, os meus olhos presos nele e eu a querer tirá-los dali, um assobio ao fundo do carreiro, olha já lá vem o teu tio, está na hora de por isto no tacho e eu a limpar a cara com as costas da mão, sem que ninguém desse por isso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nobel, comunidade científica e comunidade literária

por Cristina Nobre Soares, em 06.10.17

Numa outra vida fui bolseira de investigação. Trago boas recordações deste tempo, assim como bons princípios de trabalho e de raciocínio que me moldaram para o resto da vida. Mas também me lembro da competição pela publicação de artigos científicos (a chamada corrida ao “paper”) e da busca pela recta de regressão linear perfeita. Da guerrilha entre departamentos e das guerras abertas entre universidades. Das invejazinhas, dores de cotovelo e despeitos. Enfim, pulhices avulsas, sim. No entanto, há uma coisa de que não me lembro: de ouvir pessoas fora da comunidade cientifica opinar sobre a mesma. Não me lembro de no café, no autocarro, toda a gente comentar coisas do género, ah, sim, o “Remote sensing” do Lillesand e do Kiefer, já vai na sexta edição, mas por favor, aquele capítulo sobre sensores hiperespectrais é muito "mainstream", muito "pop".
Apesar de tudo, há um sentido de humildade na ciência. Na linha do, eu não percebo nada disto, logo estou calado para não fazer figura de parvo. Ou um, não percebo tanto como aquele bacano que já cá anda há umas décadas a estudar isto, por isso deixa-me lá ler o que gajo diz sobre o assunto. E depois sim, opino.
Também ninguém se interessa pela vida pessoal dos cientistas. Ninguém quer saber se dado cientista é mal amado (ah, eu vi logo que a constante que ele usou naquela equação é fruto da dor de corno) ou se a mãe lhe batia ( se ele não tivesse tido uma infância tão infeliz, decerto que não tinha escrito tantos papers). Nem ninguém convida cientistas para debates onde, em vez de lhes perguntarem pelos seus trabalhos, lhes perguntam o que gostam de tomar ao pequeno almoço: ah, sem os croissants do Careca e a bica pingada eu nunca teria a ideia de mergulhar no urbano-depressivo da estatística multivariada!
Era bom que o meio literário, para seu próprio bem, para a sua própria credibilidade, fosse mais assim. Digo eu, que sou de ciências.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A minha rotina

por Cristina Nobre Soares, em 03.10.17

Começo sempre o dia a beber um café, a ver como está o tempo e a espreitar o que se passa no mundo. Depois sento-me a trabalhar. Todos os dias faço a mesma coisa. Todos os dias. Uma vez, contaram-me a história de um velho que, mesmo em novo, jantava pontualmente às sete da tarde e quando mudava a hora passava aí a jantar às seis, para garantir que mantinha a hora solar. Quanto me contaram isto perguntei muito espantada, mas ele nunca se fartou? Nunca, responderam, foi assim até morrer. E eu, a beber o meu café, penso que estas pessoas são umas fracas. Eu, por exemplo, mudaria a minha rotina a qualquer momento. Era só eu querer. E imagino-me, na manhã seguinte (que estas intenções começam sempre na manhã seguinte ou na próxima segunda-feira) a levantar-me bem cedo, ainda no lusco-fusco e ir correr. Depois chego a casa e bebo outra coisa qualquer que não seja café. O problema é que tomo balanço na coisa e acabo por me imaginar muito alta, muito gira e, às vezes, até mais alourada e mais nova. E com isto percebo que o plano não vai resultar. A minha ambição deu cabo dele. Ligo a máquina de café e aproveito para escrever um post. É melhor.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Como combater a abstenção

por Cristina Nobre Soares, em 01.10.17

A abstenção não se combate como posts dizer a “eu já votei”. A abstenção não se combate com posts publicados na véspera e no dia das eleições a fazer o elogio do voto. A abstenção não se combate a apontar o dedo a quem não vota, a enumerar culpados. As pessoas que se abstêm não o vão deixar de fazer por vergonha ou culpa. Ou para não parecer mal aos que têm a atitude certa, correcta. As pessoas que se abstêm poderão deixar de o fazer se houver uma discussão politica que os envolva nos 4 anos que antecedem as eleições. E, acima de tudo, se desde cedo, sim, muito cedo, forem despertados em casa, na escola, para a vida política. Para uma consciência de que o voto é um direito precioso e um dever ainda maior. Não se cria um leitor por se lhe apontar o dedo, dizendo em tom paternalista: “ah, tu não lês, és preguiçoso, não queres saber e por isso não és merecedor de uma coisa qualquer”. Cria-se um leitor dando-lhe livros para as mãos desde cedo, cria-se um leitor em casa de pais leitores, dando o exemplo. Demora tempo, exige espera, dedicação e, acima de tudo, crença no outro. Na política é a mesma coisa.
Já agora, para que não haja dúvidas, eu voto.

 
 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dia de reflexão

por Cristina Nobre Soares, em 29.09.17

Um dia, alguém ainda me irá explicar porque raio é que amanhã a minha opção de voto pode influenciar alguém e hoje até à meia-noite, não.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

GA



google-site-verification: googledeb34756365df053.html