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Jeito para a matemática

por Cristina Nobre Soares, em 18.01.17

No café falamos sobre coisas que nos marcam. Momentos decisivos. E todos os restantes lugares comuns que costumam caber nestas conversas. Falamos da vida como se esta fosse uma sucessão de pontos, discretos, sem aparente ligação entre si. Torço o nariz, digo que me parece que somos mais um fenómeno contínuo, uma linha mal-amanhada que vai ligando esses pontos que nos acontecem. Faço um desenho no guardanapo a tentar explicar isso. Olha para o meu gatafunho e diz-me, com visível desinteresse, nunca tive jeito para a matemática. E eu amarroto o guardanapo e penso que já eu nunca tive jeito para me armar em esperta. Nem a matemática me safa.

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Das coisas bonitas do Inverno

por Cristina Nobre Soares, em 17.01.17

Das coisas bonitas do Inverno: levantares os olhos e perceberes que o ao longe se tornou mais nítido por causa da luz fria de uma manhã de Janeiro. À parte disso tenho o nariz frio. Paciência.

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A janela do Facebook

por Cristina Nobre Soares, em 13.01.17

Depois de acabar o curso o primeiro trabalho que tive foi como bolseira. Passava o dia debruçada sobre uma lupa a identificar insectos aquáticos conservados em formol. Toda uma emoção, portanto. Volta e meia levantava-me para desentorpecer as pernas e ia à janela. De uma delas via-se uma nesga da ponte. E a ponte dava-me uma sensação absurda de movimento só por ver os carros passarem. Eles não me viam, mas entretinham-me. Depois voltava para o meu trabalho solitário, feito de silêncio. Hoje, felizmente, faço uma coisa muito diferente desse tempo. Mas igual em solidão e silêncio. Volta e meia vou à janela do Facebook. Dá-me uma sensação absurda de ver gente. Não nos vemos, mas entretemo-nos

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Breve história sobre um homem muito sério

por Cristina Nobre Soares, em 10.01.17

Era um homem muito sério. Realmente muito sério. Vestia sempre calças impecavelmente vincadas, escanhoava a barba e não ria. Quanto muito sorria com condescendência ou fazia um esgar muito distinto para assinalar uma dada graçola. Se esta fosse mesmo muito engraçada, acenava ligeiramente com a cabeça e dizia, és um pândego. Mas nada mais do que isso. Para ele as pessoas que riam muito eram criaturas descompostas, avermelhadas, de colarinho escancarado. Soltavam gargalhadas com ruídos estranhos, transpiravam e fungavam. Parecia-lhe a ele que o riso encardia a seriedade. Pior só o medo de sujar as camisas com nódoas de escabeche. A seriedade era para ele, portanto, uma questão de asseio. Passou a vida inteira sem se rir, mas muito composto. Um dia, morreu.

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Rés-do-chão aonde só chegam os assobios

por Cristina Nobre Soares, em 10.01.17

Os vizinhos do terceiro andar, por cima de nós, discutiam muito. Discussões de faca e alguidar, geralmente a altas horas da noite. Por isso não estranhámos quando soubemos que eles se tinham separado, apesar de volta e meia o vizinho descer as escadas assobiando a marcha nupcial. Já os vizinhos do rés-do-chão, que nunca deviam ter ouvido os gritos das discussões, ficaram espantadíssimos. Um casal que parecia tão amigo, comentaram, ele até passava a vida a assobiar a marcha nupcial, nunca pensámos. E eu penso que as redes sociais são mais ou menos a mesma coisa: vivemos todos no rés-do-chão, aonde só chegam os assobios.

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Mário Soares

por Cristina Nobre Soares, em 07.01.17

Graças ao meu pai também se chamar Mário Soares foram muitos os episódios cómicos a que assisti à volta de confusões com o nome. Desde telefonemas a dar os parabéns pelas vitórias nas presidenciais, a longas e muitas vezes desesperadas cartas pedindo emprego e ajuda. E também aquele sorrisinho que vinha a seguir a qualquer impresso onde eu tivesse que escrever a minha filiação, ah, que engraçado, é alguma coisa ao Mário Soares? Ao que eu respondia sem hesitação, sim, como vê, sou filha. O que gerava sempre dois ou três minutos de caras parvas. Sem nunca o termos conhecido pessoalmente, Mário Soares fazia parte das trivialidades da casa dos meus pais. Mas à parte dos episódios caricatos do meu agregado familiar, Mário Soares faz parte da vida de todos. Antevejo as redes sociais excessivamente inflamadas, que os erros que os políticos cometem são feitos de matéria altamente combustível. São rastilhos fáceis e de memória selectiva. Aquela memória que à conta de ressentimentos políticos se esquece que homens como Mário Soares, com todos os seus erros, lutaram pela democracia muito antes do 26 de Abril (o 26 não é gralha) . E que contribuíram para que aconteçam hoje coisas tão triviais como eu poder escrever este post. E que vocês o possam ler às claras.

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Os filhos dos pais que já estão velhos

por Cristina Nobre Soares, em 06.01.17

Quando a visitavam os filhos diziam-lhe, como todos os filhos dizem aos pais que já estão velhos, a mãe devia pôr daquela rede de borracha debaixo dos tapetes, porque se escorrega, cai e parte uma perna e depois a perna nunca mais é a mesma. Devia comer menos fritos, e experimentar abacate na salada e frutos vermelhos ao pequeno-almoço. E fazer palavras cruzadas para treinar a memória e ter o telemóvel sempre à mão, não vá a mãe sentir-se mal. E ela a dizia-lhes que sim, tens razão, como todos os pais que já estão velhos dizem aos filhos, só para os descansar. Porque os filhos dos pais que já estão velhos precisam muito de serem descansados. Há quem pense que eles dizem estas coisas para agora serem eles os pais, para mandarem, nada disso. A verdade é que eles dizem estas coisas à espera que os pais que estão velhos lhes digam que isso de irem ficar senis, sem se lembrarem deles, e morrerem é uma grande mentira. Não ligues, são coisas que os outros miúdos inventam só para te arreliar, anda cá que a mãe aquece-te um copo de leite que andas muito mal alimentado. Devias comer melhor. Assim ainda ficas doente.

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Da ortografia

por Cristina Nobre Soares, em 04.01.17

Nada como um texto limpo, sem gralhas, para nos parecer tudo bem. Pena que na vida real não seja bem assim. Porque na vida real as mágoas vêm sempre com erros de consonância e pontuação. Soam mal e por isso ficam guardadas. Ninguém partilha momentos com erros de ortografia. São momentos de olhos inchados, soluços que entrecortam os verbos e costas das mãos húmidas de lágrimas que arrastam as vírgulas para o sítio errado. É uma vergonha partilhar momentos assim. São momentos que temos de esperar que passem para os podermos rever. Sem emoção damos pelas falhas todas. Corrigem-se facilmente,  e ficamos com uma escrita escorreita, limpinha. Uma escrita que os outros percebam, e que depois digam, muito bom. E por momentos quase que acreditamos que a vida pode ser aquilo que escrevemos. Afinal, basta que a sujeitemos à ortopedia de um corrector ortográfico. Para que ninguém descubra a verdade.

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Reflexão de algibeira sobre os grupos

por Cristina Nobre Soares, em 03.01.17

No meu liceu, como em todos os liceus do universo, havia grupos. Grupos com fronteiras e etnografias perfeitamente definidas. Eu nunca pertenci bem a nenhum. Era demasiado gorda para o grupo das populares, não tinha dinheiro para comprar roupas de betos, demasiado contestatária para o grupo dos certinhos e marrões, e tinha excesso de opiniões para o grupo dos cools e baldas. Ainda cheguei a pertencer ao grupo dos vangs, mas aquilo exigia-me demasiadas regras de atitude e não havia paciência para andar sempre vestida de preto e roxo. Nunca percebi muito bem esta coisa dos grupos. Andar em alcateia pode dar jeito para caçar o jantar, é verdade. Tirando isso fica apenas um eco de uivos e costumes. Os grupos simplificam-nos a compreensão do mundo: tu pertences, ele não. Um mundo binário, confortável, que dá pouco trabalho porque o aprendemos por imitação. E acima de tudo, protege-nos contra eventuais predadores. Isto, à primeira vista, é inócuo, faz parte desta coisa da espécie humana. Precisamos de nos sentir protegidos para continuarmos a caminhar. O pior é que às vezes a própria vida tem o mau hábito de se vestir como os de fora e mete-nos medo. À conta disso corremos o risco de a deixar à porta. O que é capaz de ser chato. Confortável, mas chato.

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Sobre as resoluções de ano novo

por Cristina Nobre Soares, em 02.01.17

 

Engraçado, todas as minhas resoluções, das insignificantes e daquelas que com jeitinho até mudam uma vida, nunca foram tomadas na mudança de ano. Nem sequer alguma vez tiveram uma data certa. A minha impaciência, que tem nervos fracos, não se compadece com o calendário. Só as dietas têm data marcada: começam sempre na próxima segunda-feira. Sempre.

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