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Retratos do FOLIO #2 - Manhã Submersa

por Cristina Nobre Soares, em 23.09.16

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Foto: Marta Poppe

 

(Para fazermos o segundo retrato do FOLIO, eu e a Marta fomos à missa. E eu lembrei-me da Manhã Submersa de Vergílio Ferreira. Uma memória, ali, à porta da igreja. Mais um retrato de Óbidos.)

 

Vamos à missa? Pergunto à Marta. Ela ri-se, mas diz-me que sim. Dentro da igreja de São Pedro estão apenas velhos e alguns turistas. Algumas caras conheço de vista, mas não sei quem são, nem como se chamam. São pessoas que vivem em Óbidos, talvez dentro das muralhas. Olho o altar de talha dourada, a penumbra, as rezas e lembro-me da igreja da aldeia da minha mãe. Na igreja da aldeia da minha mãe, onde íamos nos casamentos e baptizados, Deus pesava-nos na luz filtrada pelos vitrais, nas vozes que se arrastavam numa perpétua penitência. Era um Deus que abafava as cores das roupas e que não nos deixava chegar perto, ficávamos sempre à soleira da porta. Um Deus que nos exigia uma compostura estóica, mesmo quando as meias de renda me rolavam pelas pernas abaixo, e eu não me mexia com medo fazer qualquer coisa errada, daquele errado que nos tira o ar por não sabermos bem como é. E ficava ali, quieta, a imitar os outros, com as meias enroladas por cima dos sapatos, pensando que assim, talvez Deus não reparasse em mim.

 

As pessoas começam a sair da missa, o padre é o último a sair, a Marta protesta com um homem que estacionou em frente à porta da igreja, estragou-me a foto, e eu, vinte e sete anos antes, num dia qualquer, depois do liceu, tiro um livro de capa azul escura e letras verdes da estante dos meus pais. Manhã submersa. Chama-me à atenção o título, que repito em voz alta antes de abrir o livro, manhã submersa. Olha que é um bocadito pesado, a minha mãe a avisar, manhã submersa, o livro a engolir-me e eu a perceber que há coisas que só nos entram no avesso quando são escritas na língua onde nascemos. Eu, em plena claustrofobia da adolescência, a entrar na claustrofobia de outro adolescente, a palavra claustro a ganhar paredes espessas para além da religião, o ar a faltar-me e a descobrir um dos escritores da minha vida. Olha que é um bocadito pesado, e o Deus da igreja da aldeia da minha mãe a pesar-me nos ombros, a meia de renda a rolar-me perna abaixo, eu com medo de a subir, e a deixar-me ficar à soleira da porta de qualquer credo ou religião.

 

Já saíram todos da missa. Penso que hoje, no dia em que Vergílio Ferreira me regressou à saída da missa da manhã, começa o FOLIO. Comento com a Marta que gostava de ouvir a palestra do Eduardo Lourenço sobre Vergílio Ferreira. Falo-lhe da “Manhã submersa”, tenho de ler, diz-me enquanto guarda a máquina fotográfica, e eu, volto a casa dos meus pais, num outro fim de tarde depois do liceu, fecho o livro, e fico durante uns momentos a olhar para a capa azul escura e a pensar que, longe dos olhos de um qualquer Deus, a vida às vezes pode ser apenas um foguete prestes rebentar-nos nas mãos.

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Retratos do FOLIO

por Cristina Nobre Soares, em 21.09.16

Um dia destes lembrei-me: E se o FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos, fosse contado através de retratos? De retratos de pessoas e dos momentos que fazem Óbidos? Fui a correr falar com a Marta Poppe. Ela disse que sim. Afinal retratos é connosco. E pronto, aqui está o primeiro de seis retratos que iremos fazer ao longo do FOLIO, que começa amanhã. Seis maneiras diferentes de falar de literatura e de livros. Porque a literatura acontece-nos sem floreados, nem elitismos, vestida de pessoa normal como nós. Também podem ler aqui, no P3: Retratos do FOLIO.

 

Fotografias: Marta Poppe.

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A Lena das flores chama-me Cristininha, apesar da nossa diferença de idades não ser grande. Olhem, ajeitem-se aí que tenho umas coroas para fazer, há café na cafeteira na mesa lá de dentro, ainda está quente, diz-nos a mim e à Marta. Toda a gente em Óbidos conhece a Lena das flores, mas eu tenho para mim que foi ela quem os conheceu primeiro. A Lena diz que é dona do castelo, e parece que quem lhe conquista o coração tem direito a uma pedra da muralha. Enfim, ir à Lena das flores é não é bem ir a uma florista, é mais como ir a casa. É sentirmo-nos em casa. Porque a Lena é Óbidos.

 

Olhem, diz-nos, ainda agora esteve aqui um senhor que vem cá todas as segundas-feiras buscar uma rosa para deixar na fotografia da mulher. Baixa a voz, é viúvo, mas não a esquece. E tem de ser sempre uma rosa, vejam lá. Não quer das outras flores. Enquanto conta a história do homem das segundas-feiras, nunca lhe diz o nome. É só um homem que mata as saudades da mulher com uma rosa, às segundas-feiras, e pronto. Comento que aquela história das rosas e dos nomes me está a fazer lembrar a conversa de balcão do Romeu e Julieta: Afinal o que existe num nome? Ai, isso já não sei, diz-me a Lena. Isso são as suas palavras complicadas, ó Cristininha. Eu cá não sei falar assim, só sei falar com o coração.

 

E eu lembro-me daquela frase de José Saramago, que diz que somos todos escritores, só que uns escrevem e outros não. Penso que, mesmo sem as palavras bonitas, o que a Lena sabe sobre que existe nos nomes das flores não se fala nas palestras sobre a obra de Shakespeare. Que este, cujos 400 anos serão celebrados umas ruas acima, também pode existir nas pequenas coisas, como na das segundas-feiras do homem sem nome. E que as tais palavras que não são bonitas, mas que saem à boca do coração, são as que realmente escrevem as páginas dos livros. Vai ao Festival,  Lena? Pois, claro que vou. Se é no meu castelo eu vou. Mais livro, menos livro, o que me interessa são as pessoas do meu castelo. As pessoas. As pessoas, ouviu? A Marta aponta-me um calendário aberto ao dia de hoje: "Nada me deixa tão feliz quanto ter um coração que não se esquece dos seus amigos." ("Ricardo II", William Shakespeare). Rimo-nos. A literatura acontece-nos assim: sem floreados, nem palavras caras. Em qualquer lugar, ali, à boca do coração, vestida de pessoa normal como nós.

 

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Considerações avulsas sobre este Sábado

por Cristina Nobre Soares, em 17.09.16

• Arrefeceu.

• Diz que há um tipo que escreveu um livro com alcoviteirices de políticos.

• Lembrei-me quando os miúdos da minha turma quiseram comprar a revista com a escandaleira do Taveira.

• A vizinha do rés-do-chão da antiga casa dos meus pais também era mulher para escrever um livro desses. Sem a parte dos políticos.

• Os miúdos da minha turma não conseguiram comprar a revista. O senhor Leonel, que tinha um quiosque, não foi na fita. Mas o irmão mais velho de um deles comprou e eles foram ver aquilo para trás do ginásio.

• A minha vizinha nunca escreveria sobre políticos. Não gostava deles. Dizia que eram todos uns malandros.

• O país tem dias que me cansa.

• Arrefeceu.

• Já deve haver marmelos na praça.

 
 

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Copiar soa a quarta classe mal tirada

por Cristina Nobre Soares, em 16.09.16

Trabalho com o material open source mais antigo do mundo: a escrita. Toda a gente aprende a escrever em pequenino. Toda a gente sabe redigir, melhor ou pior. Mas ninguém sabe como se chamava o senhor que inventou a escrita. Dizem que era sumério e que precisava de uma coisa que o ajudasse a fazer a contabilidade das bilhas de cereais. Ou se calhar foi outro e ele é ficou com a fama. Acontece. O que é certo é que ao longo de milhares de anos foram inventados vários sistemas de escrita, várias ortografias sobre cada um dos sistemas. Toda a gente manda um bocadinho neste sistema open source. Ninguém é dono do pretérito mais-que-perfeito, do reflexivo ou das orações subordinadas. Mas já a forma como as usamos, e aquilo que criamos com elas, isso já é outra conversa. Copiar as ideias dos outros e fazê-las passar por nossas, (que também é um sistema de trabalho open source muito antigo) para além de ser muito feio, é uma coisa muito diferente. Copiar as ideias dos outros é assim como escrever com erros ortográficos: Parece igual, mas não é. É foleiro, saloio, desleixado, soa a quarta classe mal tirada. E os mais atentos notam, mas ninguém tem coragem de dizer.

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Os cromos dos livros

por Cristina Nobre Soares, em 14.09.16

Os cromos dos livros são umas criaturas estranhas. São uns cromos sem grande utilidade. Por exemplo, dá jeito conhecer um cromo dos computadores, ou um daqueles cromos da cultura geral, tipo wikipédia,que sabem que na tabela periódica o lítio fica por cima do sódio e que o Napoleão era corso. Esses sim, dão jeito. Os cromos dos livros nem por isso. Ficam para ali perdidos, a lamber quilómetros de páginas. Os cromos dos livros são diferentes dos cromos intelectuais. Nada a ver. Duas variedades de cromos completamente diferentes, até porque os cromos dos livros são menos dados à massa preta e ao tabaco de enrolar. Também não são cromos com estilo, tipo os cromos do surf e da comida saudável, que estão sempre bronzeados e cheios de antioxidantes. Não, um bom cromo dos livros tem um ar enfezado, despenteado, assim meio de trazer por casa. Também nunca se deve dizer a um cromo dos livros que só vimos o filme porque o livro era chato. Ficam piores que uma barata. Isso nunca. Se querem ver um cromo dos livros voltado do avesso é dizerem-lhe isso. De resto são criaturas que dão poucos problemas.Ficam quietos em qualquer canto desde que se lhes dê qualquer coisa para ler. Fáceis de contentar. Digo eu. Mas nem todos os cromos são como eu.

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Domingo

por Cristina Nobre Soares, em 11.09.16

Fecho as cadeiras que ficaram cá fora e o frio na cara lembra-me que devia ter vestido uma camisola. Gosto destas manhãs, em que a luz já se abriga do frio nos cantos da rua. É sinal que o Outono está a chegar. Antes assim.

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Detalhes estúpidos

por Cristina Nobre Soares, em 09.09.16

Sabemos que as conversas foram importantes quando nos lembramos de detalhes estúpidos: aquele pequeno borrão na asa da chávena, de um azul diferente do resto, o mesmo cheiro a tabaco e a almoço de uma casa de infância, um minúsculo rasgão de ferrugem num fogão velho que destoa do resto da cozinha. Precisamos destas migalhas para sabemos que teremos de lembrar aquele momento. Os momentos sem cenário arriscam-se a nunca serem realmente nossos.

 
 
 

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Serventia

por Cristina Nobre Soares, em 07.09.16

A maioria das vezes acho que isto de escrever é uma coisa perfeitamente inútil que apenas me serve a mim. Como memória, como diário, catarse, monólogo. Detesto que me perguntem porque é que escrevo, porque sinceramente não faço a mínima ideia. Aprendi a acontecer-me na escrita, sem qualquer outro tipo de ambição. Mas depois há um momento em que alguém te manda uma mensagem a dizer que depois de ler um texto teu ligou a uma amiga com quem não falava há oito anos. Só isto. E tu pensas: raios me partam, quem me havia de dizer que isto tinha alguma serventia.

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A amizade é uma coisa mariquinhas

por Cristina Nobre Soares, em 06.09.16

Há uns tempos li um artigo, salvo erro no Público, sobre o tabu que é perder um amigo. Pois é, perder um amigo é um tabu e é tramado. Porque nem sequer tem classificação possível. A amizade é uma coisa que vive num limbo que ninguém sabe bem o que é. É família sem sangue, é casamento sem sexo, é enriquecer sem dinheiro. Com um amigo falamos sem maquilhagem (da metafórica e da outra), com um amigo temos as tripas todas e não apenas coração, como nos filmes.

Com um amigo choramos baba e ranho até ficarmos com olhos de garoupa, limpamos o ranho com as costas da mão e não faz mal, porque um amigo a sério não tem olhos, só tem ombros. Com os amigos dizemos palavrões e não parece mal: foda-se é coisa que só fica bem quando estamos com amigos, mas amigos a sério. Se quando dizemos foda-se  soa a cinema português da década de 70, então é porque não estamos entre amigos.

Mas o pior é quando perdemos esse amigo. Porque toda a gente compreende a dor de corno. O amor não compreendido é tolerado, se fores trocado as pessoas têm pena e tal e dizem, paciência, um dia encontras o amor da tua vida. Mas ninguém diz, paciência, um dia encontras o amigo da tua vida. Chorar a perda de um amigo é coisa de gente mariquinhas. Até porque se te zangas com um amigo as pessoas pensam que alguma coisa deves ter feito. No amor a culpa é sempre do outro, no amor há sempre um cabrão e um coitadinho. Na amizade não. Na amizade somos estupidamente iguais. Na amizade ninguém te põe as malas à porta, não há telefones desligados a meio da conversa, não há discussões de meia noite, de janela aberta com a vizinhança toda a ouvir. Não. Só há silêncio, mas daquele fininho. Não há cegueira, só uma espécie de querer ser cego para não ter de falar quando nos cruzamos na rua. Só porque já não temos nada para dizer. Perder um amigo é isso, é um vazio que dói como o caraças. É acontecer-te uma coisa boa e pensares que queres contar a essa pessoa e já não podes.  No fim da amizade não te põem as malas à porta, pois não. Porque o que dói mesmo é que no fim da amizade só há porta.

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Para os lados onde moro

por Cristina Nobre Soares, em 03.09.16

Para os lados onde moro os dias começam embrulhados num cinzento húmido e miudinho. Isto ainda abre, dizemos, mas nunca sabemos. Às vezes fica cinzento o dia todo e nós dizemos, paciência, amanhã vai estar melhor. Outras, abre ainda de manhã, e nós dizemos em tom de alívio, afinal abriu, foi só um ameaço. A meteorologia é coisa para andar paredes meias com a vida.

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