Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Qual é o seu pior defeito?

por Cristina Nobre Soares, em 24.05.17

Perguntam à entrevistada qual é o seu pior defeito. Ela responde sem hesitação: a teimosia. É normal. Se não tivesse dito teimosia teria dito impaciência. Ou então, “sou demasiado frontal”. A teimosia, a impaciência e o excesso de frontalidade são uma espécie de defeitos de sair à rua. Não têm as gelhas e as nódoas de uma mentira ou de uma inveja. Ficam arranjadinhos numa entrevista e com jeito conseguem passar por qualidades esforçadas. Ainda assim, divirto-me a imaginar os entrevistados a responderem coisas do género: olhe, sou uma cabra egoísta ou sou um cobardolas rebarbado, invejoso como o catano. Isto sim, seria ser demasiado frontal. Uma besta, portanto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vantagens de se ter mais de 40 anos

por Cristina Nobre Soares, em 23.05.17

1. Deixas de dar passos maiores que as pernas, pois já conheces bem o tamanho das tuas pernas. E quando tens um metro e sessenta não dá para teres grandes ilusões sobre isto.
2. Aprendes a dizer as coisas como és e não como achas que os outros gostariam de ouvir.
3. Percebes que tens de dormir, que aquela coisa das directas e da noite dentro é para quem tem vinte anos ou para quem tem quem lhe limpe a casa e ature os filhos.
4. Aprendes a mandar à fava. E à merda. E é libertador.
5. Mas também aprendes a dizer: fazes-me falta. O que é ainda mais libertador.

Autoria e outros dados (tags, etc)

23 de Maio

por Cristina Nobre Soares, em 23.05.17

A minha filha gosta de Ariana Grande. É este o medo com que temos de aprender a viver.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Canícula

por Cristina Nobre Soares, em 22.05.17

Olho de relance para agenda. Esta semana que começa, mais me parece um mês inteiro. Suspiro. Lá fora está uma luz muito clara, mas acinzentada. E lembro-me da palavra canícula. A primeira vez que li essa palavra foi nas "Pupilas do Senhor Reitor". A minha mãe decidira que eu tinha de ler Júlio Dinis e deixou-me na mesa-de-cabeceira as Pupilas e a Morgadinha. Não gostei. E a minha mãe não gostou nada que eu não tivesse gostado. São clássicos, disse-me ela. Que sejam, não gostei. Durante muitos anos sempre que eu dizia a alguém que achava Júlio Dinis uma estopada acabava sempre por levar um sermão. Até que deixei de dizer, e, ao nome dele, limitava-me a sorrir. Um sorriso do género daquele que a minha mãe punha quando alguém dizia alguma coisa inconveniente. Um dia mais tarde voltei a tentar. Há aquela coisa dos livros se lerem de forma diferente consoante a idade. Neste caso não mudei de opinião. De qualquer das formas acho que a luz de hoje não tem nada a ver com canícula. O João Semana ia cheio de calor e levava uma sombrinha. Aqui o dia está frescote.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Das conversas em corpo e alma

por Cristina Nobre Soares, em 19.05.17

As redes sociais tiram-nos tempo de qualidade, dizemos. As redes sociais alienam-nos. Subvertem, enviesam a realidade. Artificializam as relações humanas. Sim, é capaz de ser verdade. Nunca mais me vieste ver, nunca tens cinco minutos para tomarmos um café, lamentamos. Sempre que oiço isto lembro-me quando instalaram o telefone em casa dos meus pais. A família e os amigos que estavam a quilómetros de distância passaram a estar mais perto. Bastava marcar o número e ouvia-se-lhes a voz. Não era a mesma coisa que estarmos juntos em corpo, mas já era alguma coisa. Não havia corpo, mas pelo menos havia um bocadinho de alma. Com as redes sociais também pode ser assim. Da mesma forma que estas distanciam, também podem aproximar. Um minuto, um que seja, para mandar uma mensagem a perguntar: então, estás boa? Certo, não é a mesma coisa do que beber um café. Ou almoçar. Mas é melhor do que o silêncio de meses, anos, à espera de uma disponibilidade ideal. Porque mesmo por via virtual lembrámo-nos. E antes de tudo é disso que precisamos: que se lembrem de nós. Um sinal de vida dos outros e nosso. O sinal de que fazemos falta. As redes sociais nunca chegarão ao óptimo dos calcanhares de uma conversa em presença. Mas o óptimo, esse óptimo que passamos a vida à espera e nunca chegará é o inimigo do bom. Que morreu à espera sentado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Madonna está em Lisboa

por Cristina Nobre Soares, em 19.05.17

A Madonna está em Lisboa. Passeia com os filhos e publica fotografias no Instagram. Leva-os à piscina, inscreve-os num clube de futebol. Comenta-se por aqui que se calhar a Madonna está a planear vir viver para Lisboa. Vermos que os outros são como nós será sempre dos mais prolíficos temas de conversa. Da vida esquisita da vizinha do 2º direito, à famosa estrela pop.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Muitos dias sem que ninguém faça nada

por Cristina Nobre Soares, em 18.05.17

Daqui a dez dias terão passado dez dias desde que o Correio da Manhã publicou um vídeo de uma rapariga a ser violada. Daqui a um mês terá passado um mês. E também terá passado um mês desde que se deixou de falar em violação, direitos de género, códigos deontológicos. Daqui a dois meses terão passado dois meses. E assim sucessivamente. Durante todos esses dias, raparigas continuarão a ser violadas, algumas mortas, a condição feminina continuará a ser uma coisa de trinta e um de boca e o Correio da Manhã continuará a vender e a ser lido em mesas de café. Durante esses dias algumas pessoas que lerem essas notícias irão chamar ordinárias a essas raparigas, dizer que tiveram o que mereciam. E vão passar muitos dias sem que ninguém faça nada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Per-ten-ce-mos

por Cristina Nobre Soares, em 16.05.17

Tenho pena, muita pena que não se perceba que a língua serve para muito mais do que apenas para comunicar. Que serve para nos silabarmos enquanto criaturas, que cada vez que transbordamos um ditongo ou enrolamos um cê cedilhado na boca, que cada vez que comemos o fim de uma palavra com a pressa de acabar a frase, que cada vez que amachucamos a toada das palavras no sotaque da terra onde crescemos, pertencemos um bocadinho. Pertencemos. Repitam comigo, pertencemos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Para quem diz que eu nunca escrevo histórias de amor

por Cristina Nobre Soares, em 16.05.17

Quando o metro arrancou agarraram-se os dois ao varão. Riram-se e ele segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Ela corou, tenho a certeza que corou, não se fica envergonhada assim sem corar, tem juízo, ter-lhe-á dito. Ele fez-lhe uma festa no rosto e desceu a mão até ao decote. Deixou-a estar ali até Entrecampos. Quando as portas abriram, um rapaz levantou-se e ofereceu o lugar, deixe estar não é preciso. O rapaz insistiu, ela voltou a dizer que não e, com um ar de orgulho vergado pelas artroses, endireitou-se e levou a mão engelhada e cheia de manchas ao cabelo pintado de louro-cobre. Ele não tinha o cabelo pintado, mas as sobrancelhas brancas e fartas fizeram-me lembrar as do Álvaro Cunhal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Do cheiro a eucalipto e a pinho

por Cristina Nobre Soares, em 14.05.17

Ontem, a caminho do teatro da minha filha, numa parte da estrada que rasga um eucaliptal, cheirou-me a eucalipto e a pinho. Mas não aquele cheiro volátil que às vezes sentimos nos dias de Verão. Não, um cheiro húmido e frio que só aparece depois da chuva. Perto da casa de um tio meu havia um pinhal que também tinha eucaliptos (anos mais tarde aprendi que se chama a isto um povoamento misto). Eu e as minhas primas íamos brincar para lá. Um dia, uma das minhas primas apontou para um monte de terra com uma pedra em cima e disse-me, ali está enterrado um cão que morreu. Contou-me, quase em segredo a história do cão, que me fez muito medo. Não me lembro da história. Só do medo. E que cheirava a eucalipto e a pinho. Tinha chovido de manhã.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

GA



google-site-verification: googledeb34756365df053.html