Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O "hygge" do Oeste

por Cristina Nobre Soares, em 14.08.17

Já várias vezes me queixei, lamentei, lamuriei aqui sobre o tempo que faz pelo Oeste. Que faz frio, que está sempre encoberto, e ai a chuva morrinha e o nevoeiro do fim do dia. É verdade, há dias em que não se ganha para a neura. O Oeste não é para gente fraquinha dos nervos, acreditem. Mas o que eu nunca disse é que por aqui a malta é feita de uma cepa diferente. Aqui aprendemos a ver o bonito no cinzento sensaborão. A ver a beleza numa coisa da qual toda a gente foge a sete pés, de preferência rumo ao Algarve. Onde está quentinho, onde a água não faz reumatismo e as pessoas estão descascadas e sorridentes. Aqui, no Oeste, os dias enevoados e frios não dão um bronze digno de cinquenta hashtags inspiracionais no Pinterest ou um post de like fácil no Facebook. Até porque pôr do sol, só quando não se levanta a névoa do lado do mar e isso é pode ser uma raridade sem data anunciada. Por isso as redes sociais não vingam muito por aqui. Porque o que esses dias dão não se publica, guarda-se. É a areia muito fria nos pés, o cheiro a maresia que quase se apanha com a mão, a cor de chumbo quase, quase azul, o baço dos sons que não saem de ao pé de nós por lhes faltar a claridade do dias para chegarem mais longe. É o conforto do tal casaquinho que se leva sempre no banco de trás porque já sabemos que vai estar frio. Mas não faz mal. É um frio que já conhecemos, a gente perdoa-lhe, faz parte desta coisa de nos sentirmos em casa. Por isso, esqueçam essa cena do "hygge”dinamarquês, até porque eles não sabem cozinhar grande coisa e, convenhamos, ninguém pode ser realmente feliz com comida fraquita. O Oeste é que é. Onde se dá valor a duas fugazes horas de sol, que se não vierem paciência, não por isso que a gente se chateia. Onde tudo passa depois do meio-dia e se não passar, amanhã vai estar melhor. E até dá para andar de bicicleta. Com um casaquinho, claro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Velharias

por Cristina Nobre Soares, em 13.08.17

 

Lembro-me de há uns anos, que nem foram muitos, de não ligar nenhuma a velharias. Uma indiferença própria daqueles que acham que só as coisas que têm o lustro da novidade é que merecem atenção. Mas a dada altura comecei a olhar para as velharias de outra forma, principalmente aquelas às quais conseguia dar uma vida nova. E dei vida nova a muitas. Uma segunda oportunidade. Um recomeço. É engraçado como os nossos gostos às vezes são metáforas da nossa própria vida. Neste caso só mudou o grão do papel de lixa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Amordaçados

por Cristina Nobre Soares, em 10.08.17

Não me lembro do nome da minha professora de português do 9º ano. Lembro-me que usava um chapéu de feltro castanho e umas roupas fora de moda. Falava como se estivesse sempre no palco, que gostava de dizer frases que nos chocassem para conseguir atenção e tratava-nos por você, mas sem distância ou frieza. Não tinha papas na língua, e picava-nos para dizermos que o pensávamos. Um dia, durante uma das muitas discussões na aula, em que ela nos levava ao limite, o Miguel protestou e disse, ó setora, também não podemos dizer tudo o que pensamos! Ai, não? Perguntou ela com ironia, e diga-me lá, porque não? Porque nos arriscamos a arranjar chatices com toda a gente e a ficarmos sozinhos. E ela, sem responder, escreveu no quadro: Não há maior solidão do que a dos que vivem a vida amordaçados. Nunca nos disse de quem era a frase.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O aplauso vicia

por Cristina Nobre Soares, em 08.08.17

O aplauso vicia. Até porque toda a gente quer ser admirada por qualquer coisa. Qualquer coisa que seja, pelo que diz, pelo que faz, canta, escreve, cozinha. Pela forma como vive a vida, pelas escolhas que fez. Pelo que parece, se mais novo, mais esperto, mais belo, mais generoso, mais corajoso. Toda a gente quer ser admirada mesmo que seja por não querer admiração nenhuma. O aplauso vicia. Tanto que nos vamos tornando, todos, um a um, em bobos e jograis cuja maior habilidade é o nosso próprio contentamento

Autoria e outros dados (tags, etc)

Idade para ter juízo

por Cristina Nobre Soares, em 07.08.17

Eu teria uns dezassete anos quando me inscrevi numas aulas de aeróbica. Só consegui vaga na turma da noite. A maior parte das mulheres dessa turma eram muito mais velhas do que eu, assim pela idade das mães das minhas amigas. Algumas delas conheciam-se de há muitos anos, da juventude, e o professor pelos vistos tinha partilhado essa juventude com elas. Trocavam piadas que só eles percebiam, ele punha músicas do tempo deles para acompanhar os exercícios e aparvalhavam muito. Pareciam uns miúdos, mas não eram porque tinham idade para terem juízo. Pessoas daquela idade deviam perceber que não se podiam comportar como miúdos. E eles não eram, notava-se bem. Tinham rugas, já não enganavam ninguém, pareciam mesmo a idade que tinham que, curiosamente, eu nunca soube ao certo qual era. Suspeito que teriam a idade que tenho agora. O que significa que seria suposto eu ter juízo. Enfim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Das epifanias

por Cristina Nobre Soares, em 05.08.17

Tinha 30 anos feitos há pouco mais de três meses quando a minha filha nasceu. Tinha 30 anos e, ao contrário de muitas mulheres que desejaram desde pequeninas ser mães, que se prepararam, que esperaram ansiosas por esse momento, eu nunca tinha pensado muito no assunto. Quando me trouxeram a minha filha, depois de uma cesariana de última hora, foi um momento bonito, mas não tive epifania nenhuma. Agora é mãe e vem aí o instinto todo, disse-me a enfermeira Alice. Vem? Ainda hoje estou à espera dele.

Não levamos só um filho para casa. Levamos também uma vida nova, muito diferente da anterior. E ninguém nos avisa disso. E às vezes essa vida nova não nos serve muito bem ao corpo. Ser mãe é aprender a alargar e apertar costuras desse novo fato. É, também, aprender a abrir mão daquilo que éramos antes. Ser das primeiras a ser mãe, é habituarmo-nos a que os convites para saídas se tornem cada vez mais raros. É deixarmos de ter tema de conversa com as amigas que ainda não tiveram filhos. Convenhamos, quem é que tem paciência para ouvir horas e horas de conversa sobre cocós e bolsados? Ninguém. Ser mãe é habituarmo-nos que deixem de perguntar como estamos e que só perguntem pelo bebé. Ser mãe é habituarmo-nos a ouvir todo o tipo de palpite, crítica e bitaite.

Até que um dia, a bater mal pelas noites mal dormidas, pelos duches por tomar, pelas olheiras até ao queixo, pelo choro que nos leva à loucura, pelas críticas feudais das outras mães, pelos amigos que se evaporaram, damos por nós a chorar num canto da casa de banho, a acharmos que somos as piores criaturas do mundo, só porque não tivemos um raio de uma epifania qualquer, porque não andamos em unicórnios de felicidade e porque temos saudades da nossa vida anterior. Damos por nós a chorar até ao osso, por acharmos que o filão do ouro só calha às outras e a nós apenas uma pirite dourada, sem valor nenhum. E a culpa deve ser nossa. Só pode ser. É porque fizemos alguma coisa de errado, é porque somos más pessoas. Só pode ser. A filha da mãe da culpa. Que nos fica ali a rasgar por dentro, a consumir.

Mas um dia, por mero acaso, descobrimos que há mais mulheres assim. Que passaram pelo mesmo do que nós. E falamos, perdemos o medo, exorcizamos. Deixamos de ter vergonha. Largamos aquela asfixia e dizemos em voz alta: não somos más mães. Somos mulheres possíveis. E essa é que é a verdadeira epifania. Pena que se fale pouco disso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os nossos pais

por Cristina Nobre Soares, em 04.08.17

Às vezes tenho uma profunda inveja dos nossos pais. Criavam-nos no pressuposto que não tinham de ser as pessoas mais importantes, mais decisivas, mais formidáveis da nossa vida. Criavam-nos na honestidade que o melhor que faziam seria o suficiente. Se não fosse, paciência, que nós um dia iríamos perceber que eles só eram humanos. Não viviam angustiados por estarem ausentes, por trabalharem demais, por gritarem, por não terem paciência, por se estarem a borrifar se a nossa escola tinha o melhor ou o pior ranking. Deixavam-nos crescer na generosidade que as nossas melhores memórias podiam não os incluir. Não estavam à espera de serem os nossos heróis, só os nossos pais. Não estavam à espera de serem pais medalhados, condecorados, impossivelmente melhores, companheiros formidáveis. Estavam a borrifar-se se os pais dos amigos eram melhores, se eram melhores pais do que os pais deles tinham sido. Eram pais que às vezes ficavam mal na fotografia, sabiam que a vida é uma coisa pouco fotogénica. Nós, os filhos deles, é que andamos enganados com as nossas existências cheias de Photoshop. Até porque eles, os nossos, pais, não queriam ser melhores pais, só ter melhores filhos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Xula, carteirista do 28

por Cristina Nobre Soares, em 03.08.17

A história do Xula, carteirista do 28, gajo finório que nunca deixou que lhe pusessem a mão em cima e que, cansado da vida, resolveu assentar a vender mistas de marisco a 250 euros num restaurante com nome estrangeiro, dava uma boa revista à portuguesa. Ou isso ou um fadinho corrido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cheiro a pão e bolos

por Cristina Nobre Soares, em 02.08.17

Houve um Verão em que fomos de férias com primos. Eu, do alto dos meus catorze anos, cheios de inseguranças e certezas, era a mais velha dos mais novos. Desse Verão lembro-me das tardes na praia, esticadas ao limite, quase, quase a anoitecer, só mais um bocadinho, vá lá, dos baldes cheios de conquilhas, das filas para tudo, do ir comer camarão e caramelos a Espanha, das noites quentes a arderem no escaldão dos ombros, do cheiro a óleo de coco e a creme Nívea, da vez em que tentamos indrominar os pais e nos escondemos para ficarmos a pé até tarde, não conseguimos, das conversas parvas pela noite dentro, com a música dos arraiais em pano de fundo, e do cheiro a pão e bolos assim que abríamos a janela de manhã. A casa ficava ao lado de uma padaria. Hoje, enquanto bebia café cheirou-me a pão e bolos e deu-me ideia que um dos meus primos me arreliava, ali, por cima do ombro. O tempo tem esta mania de, a despropósito, nos parecer logo ali ao lado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fast car

por Cristina Nobre Soares, em 31.07.17

Há um homem na praça, que canta um cover do Fast Car da Tracy Chapman. Há uns vinte e tal anos houve um Verão em que eu sabia a letra desta canção de cor. Desta e de muitas outras. Saber umas letras tinha a sua utilidade, pois havia sempre alguém que tocava viola. E enquanto o homem canta, reparo que ainda sei a letra quase toda. O que é estranho, dado que actualmente nem a lista de supermercado consigo decorar, tenho de escrever tudo, e depois de a escrever esqueço-me dela em casa. Devia haver a possibilidade de reutilizarmos memória. A partir de certa idade dava um jeitaço.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

GA



google-site-verification: googledeb34756365df053.html