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Um dia, depois de chegar do liceu

por Cristina Nobre Soares, em 15.12.17

Um dia, depois de chegar do liceu, perguntei-te se era verdade que havia brancos que maltratavam os pretos em Moçambique. Olhaste-me com uma raiva tão grande que me sobressaltei. Lembro-me de ter tido vontade de dar um passo atrás, mas, em vez disso, olhei-te também, em tom de desafio, com aquela firmeza forçada de quem tem medo de ouvir a verdade. Cerraste os punhos, a mãe aproximou-se de nós para evitar a conversa, mas antes que ela interrompesse despejei o que a Margarida da minha turma me tinha contado sobre o que a madrinha dela fazia aos criados, não pestanejaste, tem calma, homem, disse a mãe, eu não desviei os olhos e tu não disseste nada. Nada. Nos teus olhos já não era raiva, era uma mágoa tão grande que me assustou. Voltaste-me as costas. Eu só queria compreender, perceber, porque ninguém pertence ao que não conhece. Nesse dia perdi a terra que diziam ser minha por te afastares do que nos ficava por dizer. Só lá regressaste muitos anos depois, tu  já eras velho e eu mãe, ali na minha casa, sentado num dos cadeirões de que tanto gostavas, numa última tarde de Outono. As histórias que me contaste nessa tarde não eram as aventuras e peripécias de África do costume, eram histórias que eu nunca tinha ouvido. Algumas delas, nem a mãe, confessou-me ela depois. Fiquei a olhar-te, como naquele dia em que chegara do liceu, mas agora sem desafio. Pela primeira vez na minha vida vi-te vulnerável, homem, muito maior que um pai. Não disse nada. Tive medo que a uma palavra minha, uma única que fosse, tu saísses de novo e desaparecesses ao fundo do corredor. Fiquei imóvel, muda, como fazia em criança, quando tu punhas os teus discos de ópera e eu sustinha a respiração para que a magia não se quebrasse. Se não desses por mim não me mandavas embora. Quando saíste já era tarde, mas ainda a tempo e deste-me uma palmadinha no rosto. Saíste. Nunca mais voltaste. Já me tinhas respondido. E ao fazê-lo devolveste-me a terra onde nasci.

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Do dominar uma língua

por Cristina Nobre Soares, em 11.12.17

Há muitos anos estive na Grécia. Na altura, poucos gregos falavam inglês, só mesmo os miúdos mais novos ou alguns profissionais de turismo. Fora dos grandes centros urbanos, então, isso era para esquecer. Foram dias cómicos a tentar decifrar as placas escritas em alfabeto grego, soletrando as letras que identificávamos da matemática. Isso, juntamente com um manual com frases básicas e o belo do apontar, deu para nos safarmos lindamente. Mas, lentamente, sem darmos por isso, fomo-nos habituando aos sons das palavras, à entoação, até conseguirmos perceber quais as sílabas e fonemas que carregavam maior emoção sempre que alguém se ria, zangava, emocionava. Aprendi mais sobre os gregos e a Grécia nesse exercício de observação do que talvez possa um dia aprender em cem livros. Mas não aprendi a falar grego. Aliás, esses dias “lost in translation” ensinaram-me que dominar uma língua não é saber falá-la, escrevê-la impecavelmente. É muito mais do que isso. Nem sequer é torná-la na nossa primeira, segunda, terceira língua. É sermos dela. E isso só acontece quando essa língua se torna naquela em que sonhamos.

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Lisboa e a amiga famosa

por Cristina Nobre Soares, em 10.12.17

Esta coisa de Lisboa agora ser famosa e sacar os prémios de turismo todos é mais ou menos como a amiga de infância, a que morava ao fundo da rua, se tornar numa estrela de cinema. Ficamos muito felizes por ela e tal, mas vê-la, só pela televisão. E das poucas vezes que conseguimos estar com ela é sempre com uma multidão atrás.

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Dezembro

por Cristina Nobre Soares, em 10.12.17

Dezembro não é bem um mês, é uma antecâmara. Os seus dias não se vivem, antecedem-se. Ao Natal, ao fim do ano. Todos se apressam a fazer balanços do ano, logo aos primeiros dias, esquecendo-se que bastará um, um dia, uma hora ou um instante apenas para que tudo mude. Outros, já fazem planos para o novo ano que se aproxima. Tanto que iremos mudar e fazer diferente para o ano que vem! Enfim, todos ignoram Dezembro. Talvez por isso os seus dias de passem ainda mais depressa do que os outros. Ou talvez tal aconteça por este ser um mês com menos dias do que noites e as noites não têm tempo. Dezembro não se vive. Tolera-se.

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Nat King Cole

por Cristina Nobre Soares, em 09.12.17

Lá fora, o dia torce-se de tão húmido pela chuva morrinha. Cá dentro, preparo-me para mais um Sábado de trabalho, que se adivinha longo. E dentro do cá dentro, penso nas ironias da vida, a propósito de uma frase que alguém me disse, em tempos, à laia de profecia. Todos temos uma certa mania em ler a sina dos outros. Engraçado é que não percebamos que é a nossa que lemos. Somos sempre nós, os outros são apenas um pretexto. Para além disso, hoje deu-me para ouvir Nat King Cole, que é música que nos faz sentir mal por estarmos de pantufas e de roupa de trazer por casa. Ouvir Nat King Cole pede sapatos de salto e saias de organza. E slowfox dançado na perfeição, com sorrisos exagerados e cabeças muito inclinadas para trás. As coisas que eu invento para não trabalhar.

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O presente não deita raízes em chão nenhum

por Cristina Nobre Soares, em 07.12.17

As mulheres, no café, levantam a cabeça ao verem-me entrar. Algumas reconhecem-me e cumprimentam-me, outras, por não me associarem a ninguém ou a um sítio qualquer, continuam a olhar, tentando perceber quem eu sou. Ainda lhes causo estranheza. Ser-se de fora em terras pequenas não é coisa que passe com o tempo. Podem passar anos que seremos sempre os de fora. As terras pequenas têm mais passado do que as outras e quem chega é apenas presente, um tempo verbal que não deita raízes em chão nenhum. Cumprimento as que ainda me olham em silêncio, enquanto esfrego as mãos. Está um frio que não se pode, comento. É verdade, diz a menina do balcão. E uma das mulheres que me olhava conta que ainda hoje de manhã o filho de não sei quem tinha gelo no vidro no carro e que se viu aflito para o pôr a pegar. Toda a gente parece saber quem é. Menos eu, que não sou de cá.

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Às vezes, as mulheres criticavam o luto das outras mulheres

por Cristina Nobre Soares, em 05.12.17

Às vezes, as mulheres criticavam o luto das outras mulheres. Ou porque o tinham largado cedo demais, sendo que menos de um ano de preto seria cedo demais. Ou porque era um luto leve, que o azul-escuro e o castanho são cores sóbrias, é verdade, mas não são luto. Quanto muito, depois de largos meses, poderiam aliviá-lo com padrões pretos e brancos, como as pintas ou as riscas de fantasia. O resto não era luto. Também lhes criticavam o luto que não se veste, o que se faz por actos e boas maneiras. Comportamentos imperdoáveis como ir ao arraial sozinha, sair sem a companhia de uma irmã, de uma mãe ou de uma prima, mesmo que afastada ou vir à rua sem meias, mesmo em pleno Agosto. O não ir ao cemitério todas as semanas, pôr flores frescas na campa. Mesmo que fosse conhecido o imenso sofrimento de algumas dessas mulheres de luto “leve”, se ele não se exibisse aos outros pelas regras estabelecidas, se não fizessem como seria esperado, seria como se esse sofrimento não existisse. E desprezavam-nas por isso. Punham-nas de parte, porque ninguém gosta de ser visto com quem não faz o que toda a gente faz. 
Volta e meia, o Facebook faz-me lembrar isto, sem que a questão seja o luto. Vá-se lá saber porquê.

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O meu Natal é melhor que o teu

por Cristina Nobre Soares, em 04.12.17

Toda a gente acha que o seu Natal é que é bom, de longe muito melhor e mais atinado que o dos outros. Ora vejamos: há os puristas do bacalhau com couve, os modernos que comem tudo reconstruído, os que comem filhoses, os que comem belhoses e os que contentam com fritos de abóbora. Há os mãos largas, os sovinas, os consumistas e os minimalistas. Os que gostam de bolo-rei, os que não gostam e ainda os que não gostam que haja variações sobre o bolo-rei. Há os que vão à missa, os que são ateus, os que dizem o Natal é quando o homem quiser, os que dizem que é só para a família, os que fazem só árvore, os que fazem só presépio, os que fazem presépio e árvore, os que não fazem nada que isso é só folclore. Os que acreditam no Pai Natal, os que não acreditam e os que nem sequer bebem Coca-cola por causa disso, os que gostam de ver as luzes na rua, os que detestam, os que se sentem sozinhos, os que têm uma família que nunca mais acaba, os que fazem tudo caseiro, os que compram a ceia toda no Pingo-Doce. Os que ouvem o Bublé, os que ouvem o Sinatra, os que só ouvem o Coro de Santo Amaro de Oeiras, os que ceiam, os que jantam, os que abrem as prendas à meia-noite, os que só abrem na manhã de 25 e os que acham que no Dia de Reis é que é, os que acham que o Natal é bom por causa das prendas, os que acham que é espiritual, os que acham que é para reflectir, os que acham é que bom para a pândega e só ligam aos comes. Epá, cansa.

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Diz que este blogue faz 3 anos

por Cristina Nobre Soares, em 03.12.17

Quando abri este blogue abri-o para ter um sitio onde guardasse o que fosse escrevendo. Uma espécie de gaveta. Nada mais. Mas, ao longo destes 3 anos, tem crescido muito para além dessa gaveta desordenada, cheia de textos sobre um único tema: a vidinha.

Obrigada a todos os que têm tido a generosidade de fazer crescer esta minha gaveta, lendo o que nela vou deixando. Sois uns simpáticos.

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GPS

por Cristina Nobre Soares, em 02.12.17

Não uso GPS no carro. Não me entendo com aquilo, faz-me nervos. Nem tirando pio à Catarina ou ao Joaquim a coisa melhora, não gosto, pronto. É uma coisa de feitio. Não gosto de seguir rotas traçadas, de seguir direcções, indicações, caminhos dados por uma aplicação que conhece a minha localização através de uma triangulação qualquer. Sou aquele tipo de pessoa que precisa de se guiar por pontos de referência, de parar a meio do caminho para se situar, para perguntar a quem passa, para sentir os lugares, memorizá-los para poder reconhecê-los acaso passe neles uma próxima vez. Às vezes até preciso de me perder, praguejar, achar que não vou chegar a tempo, que não vou sair dali tão depressa, telefonar a alguém, mesmo que essa pessoa não me possa ajudar, só para falar um bocadinho, para de seguida ganhar coragem e perceber que todo o caminho se retoma sempre, é só uma questão de termos os olhos abertos e alguma persistência. Não compreendo essas viagens rápidas, de seguida, predefinidas, com tempo estimado. Preciso de parar amiúde para esticar as pernas, respirar fundo, desentorpecer o corpo e a mente. Eu sei que parece estranho mas é essa paragem que me faz sentir em viagem. Caso contrário só me sinto em movimento. Que são coisas tão diferentes. Tão diferentes.

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