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Da nudez

por Cristina Nobre Soares, em 26.02.17

Enquanto bebo café olho pela janela. As árvores estão sem folhas e deixaram o lá fora mais aberto, talvez excessivamente nu. Reparo num caniçal que nunca tinha visto em todos estes anos que aqui estou. É um caniçal banal, uma fila de caniços que agitam a sua cabeça emplumada. De resto não vejo mais nada digno de interesse. A nudez às vezes desilude, é apenas trivialidade às claras. Talvez tenha sido por isso que inventaram o pudor. Uma espécie de copado fechado, cheio de sombras que sobrevalorizam o que não vemos.

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A Turandot é melhor

por Cristina Nobre Soares, em 24.02.17

Naquela noite eu disse-lhe, vê se te pões bom para irmos os dois ver uma ópera ao Scala. Ambos sabíamos que nem eu tinha dinheiro nem ele saúde para irmos a Milão, mas, ainda assim, ele deu-me uma palmadinha na mão, a rir-se, e durante uns minutos fingimos que isso poderia ser possível. Decidimos que teria ser uma de Puccini. Em cima da mesa de cabeceira, ao lado da pilha de medicamentos, havia uma chávena com chá de limão. Tirei-lhe as cascas, que ainda boiavam, e disse-lhe, bebe um bocadinho. Ele disse que não e voltou a ter um ar doente. Depois disse que estava cansado e que queria dormir, voltou-se a custo para a janela e o corpo dele pareceu-me muito mais pequeno. Ajeitei-lhe as mantas. Então, compramos bilhetes para a La Bohème? Perguntei-lhe. Ele abanou ligeiramente a cabeça, a Turandot é melhor. Foi a última conversa que tive com o meu pai.

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Os adjectivos

por Cristina Nobre Soares, em 21.02.17

Os adjectivos são como beber à noite. Faz parte, mas há que beber com parcimónia, para não fazer má figura. Porque pior que ficar bêbado é ser descomposto. E os adjectivos postos à mão cheia, armados aos cágados, descompõem e falam muito alto. Mas o pior é na manhã seguinte: acordam-nos na cara, esborratados e mal dormidos. Sem dúvida que a pior ressaca de todas, a que traz mais arrependimentos, é a dos adjectivos. Pior que a do mau vinho. Esse cai mal, mas pelo menos não leva os textos errados para a cama.

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Não ligo nenhuma ao Festival da Canção. Pelo menos desde 1982, ano em que as Doce ganharam com o "Bem Bom" e era moda brincar às Doce na primária. Diz que este ano resolveram lavar a cara ao "certame" (palavrinha que adoro), e com isso, obviamente, lá vieram as bocas e indignações nas redes sociais. Parece que uma das maiores anda à volta desta canção. Dizem que não é festivaleira, que é o termo técnico para azeiteira. Não vou comentar a canção, que até gosto, sem morrer de amores por ela. Porque o que eu gostei realmente nela e de que ninguém fala, foi esta canção ter uma letra decente. Uma letra sem rimas forçadas do género "dei-te o meu coração naquele Verão" ou que não mete à martelada palavras como "adequado" num sitio onde só cabe uma sílaba, só porque rima com "passado". Ou daquelas que são cantadas em inglês para ver se disfarça a letra de feira. Lá diz a Manuela Azevedo: " a língua inglesa soa sempre bem." Não é Ary dos Santos, mas é uma letra que dá gosto ouvir. As palavras, nas canções, também têm de ter harmonia ( e sentido, já agora). Esta canção cumpre isso. Não arranha. E mostra que o português, quando bem usado e cantado, também fica sempre bem.

 

 

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Dos cheiros das casas

por Cristina Nobre Soares, em 20.02.17

Nada define melhor uma casa do que o seu cheiro. Porque cada casa tem uma proporção muito própria de cheiro a mofo, comida, detergentes e suor. Os cheiros das casas são indiscretos. Pelo cheiro sabemos se as pessoas que nela moram têm o hábito de abrir as janelas ou se, pelo contrário, têm medo das correntes de ar. Sabemos se gostam de peixe frito ou se só jantam comida de microondas. Sabemos se usam desodorizante de casa de banho com cheiro a alfazema ou se preferem do com cheiro a "brisa do mar" . Se fumam às escondidas, se são maníacas da limpeza ou se acham que o pó faz parte da mobília. Não há duas casas com cheiros iguais e por isso é impossível imitar o cheiro de uma casa. Quanto muito podemos achar que uma casa tem um cheiro parecido com outra onde já estivemos. E pensamos, faz-me lembrar o cheiro da casa dos pais do João Pedro. Ou da tia Maria Augusta. Mas é só isso, um fazer lembrar. E não só são as casas que têm cheiros. A escrita, por exemplo, também tem.

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Das caras e dos corações

por Cristina Nobre Soares, em 19.02.17

Quando, há dez anos, comecei a escrever em blogues, a interacção era pouca ou quase nenhuma. Às vezes, muito de vez em quando, havia um comentário, anónimo ou assinado por um nickname. Hoje, no Facebook, a interacção é muito maior. Muito mais imediata. Há fotografias, nomes completos, locais. Há quem, por causa disso, embirre com o Facebook. Que tenha teorias da conspiração tremendas. Eu não embirro. Gosto das conversas que aqui se geram. Aprende-se sempre qualquer coisa. Mesmo que esse qualquer coisa seja que não há nada para aprender. Há pessoas que conheci por lá sem nunca as conhecer em carne e osso e isso não me faz espécie nenhuma. Tanta gente em carne e osso que vamos conhecendo pela vida fora e que nunca conhecemos realmente. E isso sim, custa. Pensando bem, a vida, virtual ou presencial, é toda ela um "livro de caras", que vê muito poucos corações. Há é que saber dar por isso.

 
 
 
 

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Sobre o storytelling

por Cristina Nobre Soares, em 17.02.17

Volta e meia fazem-me perguntas sobre essa coisa do “storytelling”. Como é que se faz, o que é preciso. Assim à laia de me pedirem uma receita. Eu digo que não há receita nenhuma. Nem sequer sei ensinar como se faz. E digo: imaginem que por alguma razão o homem tinha deixado de andar nas duas pernas. Que tinha evoluído para rebolar, embora conservasse as duas pernas. Um dia, por algum acaso, um indivíduo levantava-se e corria cem metros. Um feito formidável, um sucesso. Assim, nas duas pernas, é muito melhor, diriam os outros. Então pediriam: ensina-nos a correr como tu. E ele começaria a dar cursos de “bipeding” onde os humanos aprenderiam a levantar-se e a andarem. E toda a gente sairia do curso a andar nas duas pernas, espalhando a boa nova. Assim, tipo Lázaro, mas em vivo. Percebem a ideia? Ensinar uma criatura humana a contar histórias é a mesma coisa. Toda a gente o faz. Mas uns correm a maratona e outros coxeiam. É a vida. E não há cursos que nos safem.

p.s. Eu tenho uma espécie de pé chato. Deve ser por isso que escrevo aos bochechos.

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O Tolan

por Cristina Nobre Soares, em 16.02.17

Vi o Tolan uma vez. Tenho ideia que o vi da janela num daqueles autocarros de dois andares da Carris. Cheguei oficialmente àquela idade em que conto coisas que só fazem sentido a preto e branco.

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Choupos

por Cristina Nobre Soares, em 15.02.17

Da janela do autocarro reparo numa fiada de choupos lá em baixo. Os choupos são árvores arraçadas de fantasmas. No Inverno são criaturas tristes, esquálidas, quase anémicas. Mas são bonitos no Outono, naqueles dias que antecedem o cair da folha. As pessoas também são assim, como os choupos. Ficam mais bonitas nos momentos que antecedem o envelhecer. Pode ser durante uns meses, uns dias. Nunca se sabe muito bem quanto tempo dura esta estação. Depende da latitude de cada um. Mas é nesse período de tempo que se tornam realmente bonitas. Porque há cores, as mais óbvias e verdes, que precisam de morrer para que as outras venham ao de cima. Se calhar a beleza é isso, uma espécie de fantasma de um Verão passado. E penso, a botânica, às vezes, consegue ser uma coisa muito piegas. Ou isso, ou é da idade.

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Dos galões e das medalhas

por Cristina Nobre Soares, em 14.02.17

Tive uma tia que dizia que gostava muito de ver homens fardados. Ficam garbosos, dizia. Uma farda dá muita distinção. Um homem com uma farda vestida fica logo com outro ar. Ao longo da vida conheci muitas mulheres como a minha tia, incapazes de resistir a uma farda, fosse de que arma fosse. Até às de bombeiro. Nunca percebi esse fascínio. Os homens fardados sempre me pareceram todos iguais, só distinguidos pelo número e tipo de galões. Ah, mas os galões e as medalhas fazem toda a diferença, dizia a minha tia. E eu pensava que se calhar o fascínio também estava aí. Uma espécie de montra ao ombro e ao peito. Uma pessoa olha e sabe logo o valor e o mérito do outro. Não precisa de dar o benefício da dúvida: está tudo à vista. Há dias em que acho que se calhar era melhor andarmos todos fardados, com os nossos galões e as medalhas ao peito.Todos, mesmo aqueles que nos saíram no bolo-rei. Era coisa capaz de dar jeito e de poupar muito marketing de algibeira. E poupar a paciência de cada um, também.

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